Relações entre Taiwan e EUA melhoraram com Trump
A representante de Taiwan em Lisboa defendeu que as relações entre Taipé e Washington estão mais fortes sob a liderança do Presidente norte-americano, Donald Trump, apesar da proximidade entre a sua administração e Pequim.
“Nos últimos anos, as relações bilaterais entre Taiwan e os Estados Unidos, especialmente no que diz respeito aos laços económicos e tecnológicos, têm-se tornado cada vez mais fortes e estreitas“, disse Grace Ya-kuang Chang em entrevista à Lusa, por ocasião do 115.º aniversário do Dia Nacional de Taiwan, que se assinala no sábado.
Quando questionada diretamente se as relações melhoraram com a administração Trump, a representante defendeu: “Sim, sem dúvida”.
“Penso que todos sabemos que, no caso de Taiwan, contamos com o apoio bipartidário no parlamento e no Congresso”, continuou Grace Chang.
Apesar dos encontros entre os presidentes chinês, Xi Jinping, e norte-americano, em maio e no final do mês passado, em que Trump anunciou um novo adiamento das tarifas aduaneiras contra Pequim e enalteceu a boa relação que mantém com o chefe de Estado chinês, Grace Chang minimizou o impacto destas cimeiras na relação entre Taipé e Washington e salientou a “parceria simbiótica” entre ambos.
“Penso que todos os países agem tendo em conta o seu interesse nacional e também acreditamos que, quando valorizamos um amigo, não nos limitamos a ouvir o que ele diz, mas observamos também as suas ações”, defendeu, referindo-se aos Estados Unidos (EUA).
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“Até agora, quer antes das cimeiras recentes entre o Presidente Trump e o Presidente Xi da China, quer depois delas, temos ouvido constantemente declarações de altos responsáveis dos EUA a afirmar que não há qualquer alteração na sua política externa, especialmente no que diz respeito a Taiwan ou às relações entre as duas margens do estreito [de Taiwan]”, continuou Chang.
A representante argumentou que Taipé e Washington têm “muitos interesses em comum” e que os EUA desempenham um papel fundamental na manutenção da paz e no “apoio às necessidades de autodefesa” da ilha.
Por isso, os EUA não só são o principal parceiro em termos de segurança, mas também em áreas como a Inteligência Artificial (IA), semicondutores ou em outros setores de alta tecnologia.
Washington é o principal fornecedor de armamento da ilha, mas neste momento um pacote de armamento no valor de 14 mil milhões de dólares (cerca de 12 mil milhões de euros ao câmbio atual) continua por ser aprovado e Trump chegou mesmo a dizer que o mesmo constituía uma “ótima moeda de troca” dos EUA em negociações com a China.
Questionada sobre se Taiwan estava a ser usado pela administração Trump como ferramenta de pressão nas relações entre Washington e Pequim, a representante em Lisboa respondeu que, até ao momento, Taipé não verificou “qualquer mudança de política a este respeito”.
Em caso de ataque por parte de Pequim, a representante defendeu que Taiwan tem de ser capaz de se defender sem contar com o apoio militar dos Estados Unidos, algo que tem sido priorizado nos últimos anos.
“Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para o defender e para preservar a nossa soberania. É por isso que se pode ver que o nosso governo está a aumentar os orçamentos destinados à defesa nacional, e não estamos apenas a reforçar as nossas capacidades militares, estamos também a desenvolver e a fortalecer a resiliência da nossa sociedade“, defendeu.
Grace Chang alertou ainda que a ameaça da China não se circunscreve a Taiwan.
“A intenção militar ou a expansão da China não se limita apenas a Taiwan: já vimos que as suas atividades militares se estendem por toda a região do Indo-Pacífico, portanto, não se limitam ao estreito de Taiwan”, continuou, acrescentando que as ambições de Pequim se estendem ao mar do Sul da China e ao mar da China Oriental, junto ao Japão.
A representante sublinhou ainda a importância do estreito de Taiwan, que separa a China continental da ilha Formosa, fulcral para o comércio internacional.
Grace Chang alertou que um potencial conflito com Pequim “poderá custar à economia global cerca de 10 biliões de dólares americanos [cerca de oito biliões de euros]“, algo que equivale a cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial.
A representante de Taiwan em Lisboa fez questão de assinalar a importância do 115.º Dia Nacional, sobretudo porque este ano a ilha celebra igualmente o 30.º aniversário da primeira eleição presidencial direta.
“Há 30 anos, em 1996, o povo de Taiwan enfrentava até ameaças de mísseis por parte da República Popular da China”, disse Chang, assinalando que, ainda assim, o povo “dirigiu-se às urnas e votou, com uma afluência de 70%”.
Para a representante, a atitude dessas pessoas enquanto enfrentavam “ameaças muito graves” é a “personificação da democracia”.
“Diria mesmo que é um marco na democratização do nosso país. Desde então, todos os responsáveis eleitos do governo de Taiwan, quer no poder executivo, quer no parlamento, são eleitos diretamente pelo povo de Taiwan”, acrescentou.
A China considera Taiwan uma “parte inalienável” do seu território e não exclui o recurso à força para assumir o controlo da ilha, posição rejeitada pelas autoridades taiwanesas, que sustentam que Taiwan já é, de facto, um país soberano e independente.