Relatora da ONU pede revisão de planos de combustíveis fósseis em Moçambique

🗓️ 2026-10-02 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Durante uma conferência de imprensa em Maputo para apresentar as conclusões preliminares da sua visita ao país, Morgera defendeu que as decisões sobre a trajetória económica de Moçambique devem ter em conta os efeitos das alterações climáticas, a proteção ambiental e os direitos humanos.

"É muito importante então que Moçambique utilize essa oportunidade histórica e também reconheça o operativo dos direitos humanos de desenvolver uma visão clara e integrada de uma economia resiliente ao clima", disse a relatora, defendendo uma reavaliação dos planos de expansão dos combustíveis fósseis e da construção do polo petroquímico.

Morgera considerou particularmente preocupantes os projetos localizados em áreas de elevada biodiversidade e defendeu uma avaliação independente dos impactos da mineração de carvão e da produção de combustíveis fósseis sobre os direitos humanos, incluindo os direitos à saúde, alimentação, água, habitação e a um ambiente saudável.

"Além disso, é necessário uma avaliação independente dos impactos sobre os direitos humanos já decorrentes das atividades de mineração de carvão e outra produção de combustíveis fósseis", afirmou, defendendo que os estudos permitam compreender as causas dos danos, os seus impactos e as responsabilidades das empresas.

A relatora especial alertou que Moçambique está entre os países mais vulneráveis aos efeitos das alterações climáticas, apesar de ter contribuído pouco para o fenómeno, prevendo-se um agravamento das secas, ciclones e inundações num contexto de aumento das temperaturas globais.

Morgera defendeu, por outro lado, uma trajetória económica menos dependente dos combustíveis fósseis, assente numa maior aposta nas energias renováveis e em iniciativas lideradas pelas comunidades, incluindo projetos de energia solar, agroecologia, economias locais e segurança alimentar.

A responsável destacou que África concentra mais de 60% do potencial mundial de energia solar, mas recebe apenas cerca de 2% do financiamento global para energias renováveis, considerando necessário que Moçambique aproveite essa capacidade para reforçar a sua independência económica e energética.

Durante a missão, que terminou hoje, Morgera visitou as províncias de Tete e Sofala, além da cidade de Maputo, reunindo-se com autoridades, comunidades e outros intervenientes.

Segundo a relatora, as comunidades contactadas manifestaram preocupações relacionadas com o acesso à informação, os processos de consulta e a participação nas decisões relativas a projetos de desenvolvimento.

"Então, o primeiro passo é reconhecer que as preocupações das comunidades têm que ser consideradas com muita atenção, com muita urgência", afirmou, defendendo a realização de estudos independentes antes que os danos ambientais e os impactos sobre os direitos humanos se agravem e se tornem mais difíceis de reparar.

A relatora especial defendeu igualmente reformas legislativas para reforçar a proteção dos direitos humanos e do ambiente, incluindo disposições que obriguem as autoridades a fundamentar as decisões na melhor evidência científica disponível sobre alterações climáticas e nos impactos previsíveis sobre os direitos humanos, bem como a estabelecer responsabilidades claras para empresas privadas e multinacionais.

Moçambique iniciou a atual época chuvosa num contexto de elevada vulnerabilidade a fenómenos climáticos extremos. A época anterior provocou 311 mortos e afetou cerca de 1,07 milhões de pessoas desde outubro, segundo a última atualização do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), divulgada em maio.

A visita de Morgera decorreu entre 21 de setembro e 02 de outubro e teve como objetivo avaliar os impactos das alterações climáticas sobre os direitos humanos e as respostas existentes e planeadas. As conclusões e recomendações finais serão apresentadas ao Conselho dos Direitos Humanos da ONU em junho de 2027.

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