Resfriamento radiativo passivo pode ser uma alternativa ao ar-condicionado

🗓️ 2026-09-21 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Ciência

A tecnologia desses materiais envia calor ao espaço e pode reduzir o uso do ar-condicionado sem gastar energia elétrica no processo

21/09/2026 02:00

Magnific
Mulher jovem ligando ar condicionado para aliviar o calor em casa sem resfriamento radiativo

Diante das frequentes ondas de calor e do aumento exponencial na conta de luz, impulsionado pelo uso do ar-condicionado, a busca por alternativas sustentáveis de refrigeração tornou-se prioridade. Entre as inovações, estão os materiais de resfriamento radiativo passivo: tintas, filmes e tecidos tecnológicos capazes de baixar a temperatura de superfícies mesmo sob sol pleno, totalmente sem consumo de energia elétrica.

A física por trás dessa tecnologia baseia-se em um conceito chamado seletividade espectral. Como explica o mestre em ciência de materiais José Ribamar, esses materiais agem de forma oposta aos revestimentos comuns.

“A tinta convencional apenas reflete a luz visível, mantendo a superfície na mesma temperatura do ar. Já os materiais de resfriamento radiativo refletem a maior parte da radiação solar e possuem alta emissividade no infravermelho médio”, aponta.

Esse processo faz com que o material troque calor diretamente com o espaço através da chamada “janela de transparência atmosférica” (na faixa de 8 a 13 micrômetros). O resultado prático é um saldo radiativo negativo: a superfície consegue ficar entre 10 °C e 15 °C abaixo da temperatura do ar ao redor, superando os ganhos térmicos por condução e convecção.

Para alcançar esse comportamento, a nanotecnologia desempenha um papel fundamental. Betina Zanetti, doutora em nanotecnologia e diretora da Associação Catarinense de Tecnologia (ACATE), destaca que o segredo está na manipulação da matéria em escalas microscópicas.

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles

“Quando controlamos composição, tamanho de partículas, porosidade e organização estrutural, selecionamos como o material interage com a radiação solar para evitar o aquecimento e emitir calor eficientemente”, detalha a especialista.

Contudo, os especialistas são categóricos: o resfriamento radiativo passivo não substitui o ar-condicionado, mas atua como um aliado estratégico. O material passivo apenas alivia a carga térmica de superfícies, enquanto o ar-condicionado cooling remove ativamente o calor de volumes fechados de ar, permitindo o controle exato da temperatura.

Além disso, a tecnologia passiva enfrenta limitações ambientais. “O processo perde eficiência com umidade relativa acima de 60%, céu nublado ou ar parado, pois o vapor d’água absorve o infravermelho e devolve a radiação para a superfície”, explica Ribamar.

Alta ocupação humana ou calor interno gerado por eletrônicos também exigem a intervenção da refrigeração elétrica.

O verdadeiro trunfo da tecnologia está na prevenção e no impacto urbano. “O diferencial é que esses materiais atuam antes do consumo de energia. Evitar a entrada do calor reduz a demanda elétrica e o pico de consumo”, ressalta Betina. Em escala urbana, a aplicação em telhados e fachadas pode mitigar o efeito das ilhas de calor nas grandes metrópoles.

O principal obstáculo para a popularização, sobretudo em tecidos e tintas comerciais, reside na durabilidade das nanoestruturas frente à poeira, à chuva e aos raios UV. Superado esse desafio de engenharia, a tecnologia passiva se consolida como uma peça-chave na arquitetura sustentável e, possivelmente, na transição energética global.