Revisão antes de férias
As guerras prolongam-se mais do que deviam
A vida não é um filme de Hollywood. Muitos deixaram de acreditar em Deus, mas nem por isso deixaram de acreditar em milagres e esperar ansiosamente pelo messias todos os dias. Especialmente na política internacional, onde se multiplicam atores com percursos, preferências, interesses, valores muito diferentes, é difícil chegar a compromissos, quanto mais a soluções ideais. Se entrarmos no campo dos conflitos armados, das guerras, esta regra ainda é mais pertinente. Como dizem os ingleses – especialmente num bar – muitas vezes a opção é “pick your poison!” Trata-se de saber qual o veneno, qual o mal menor que queremos escolher.
Um dos dados fundamentais na análise das guerras nas últimas décadas é a tendência para o seu número ir aumentando: 2024 e 2025 foram mesmo anos recorde em número de guerras desde 1945. Uma das razões é a tendência para os conflitos armados irregulares e assimétricos se prolongarem – em média duram 5 anos – e serem muito difíceis de resolver definitivamente e, portanto, se irem acumulando. No caso das guerras atualmente em curso com mais impacto global – no Irão e na Ucrânia – apesar dos enormes custos (ou até por causa deles) e dos retornos limitados para os beligerantes, não se vislumbram soluções boas, fáceis ou rápidas, sejam diplomáticas ou militares. Isso não significa que não se possa avançar para um cessar-fogo mais ou menos frágil. Significa que parece muito difícil alcançar uma paz ampla que resolva, de forma durável e aceitável para os beligerantes, as enormes divergências entre eles.
As reformas são um perigo
Reformar custa muito. É um problema em Portugal, mas não só. Mudar muito as coisas é mesmo das opções mais arriscadas na política. Já o dizia o velho Nicolau Maquiavel no seu justamente afamado O Príncipe, com que, em 1513, tentou, em vão, cair nas boas graças dos Médicis, novamente dominantes em Florença. Este foi um dos primeiros esforços para ver a política como ela realmente é, não como gostávamos que fosse. Claro que foi pessimamente recebido: o seu autor foi apresentado durante séculos como um maldito endemoninhado. O livro é, ele próprio, o resultado do falhanço da carreira política do seu autor. Maquiavel escreve-o no exílio como resultado, precisamente, do seu papel numa tentativa falhada de mudar o regime em Florença. Também se aprende com os erros e fracassos, de preferência dos outros. Como explica o autor florentino, no capítulo VI desse texto clássico, uma grande mudança – uma “reforma estrutural” no terrível linguajar político português contemporâneo – vai ter contra si a oposição determinada de todos os interesses instalados ou da simples inércia. Não falta quem seja muito favorável a grandes mudanças em abstrato, na esperança de que sejam para melhor, mas no concreto, quando nos calha a nós, temos reservas. É que mudar exige sempre um trabalho de adaptação, cria incerteza, quase inevitavelmente irá gerar dificuldades inesperadas que será necessário ultrapassar.
Claro que convém lembrar que um grande imobilismo também acarreta grandes riscos. A complacência nascida do sucesso passado é uma armadilha confortável, mas perigosa. Veja-se o que sucedeu com a China imperial, que foi o Estado mais poderoso e a economia mais rica do globo durante grande parte da história, com alguns raros intervalos. Em 1793, o imperador Qianlong (1735-1796) desprezava a embaixada britânica liderada pelo visconde Macartney, declarando nada precisar dos ditos bárbaros ocidentais. Algumas décadas depois, em 1842, a China era forçada a assinar o erradamente chamado primeiro tratado desigual, o Tratado de Nanjing, na verdade, a primeira vez em que não era a velha Pequim, mas a nova Londres industrial que estava em posição de vantagem. Veremos se a velha Europa, que já foi muitas vezes declarada em decadência terminal, consegue evitar cair nessa armadilha da complacência imobilista.
A polarização é uma solução
A polarização política, a tendência para o crescimento de extremos radicais, intolerantes, que fazem do confronto, do insulto soez, a sua imagem de marca tem, justificadamente, má reputação. A polarização e o extremismo são um problema para aqueles que, como eu, respeitam pontos de vista diferentes, prezam o debate livre e a civilidade no comportamento e no discurso, admiram a capacidade de análise crítica rigorosa. Mas em nome do rigor da análise importa deixar claro que a polarização e o extremismo também têm grandes vantagens. É mais fácil ver o mundo a preto e branco. O extremismo permite reduzir a enorme complexidade do mundo a uma simples divisão em bons e maus, poupa o trabalho de pensar sobre a complexidade e a dificuldade de encontrar soluções eficazes para problemas complexos.
O polarizado lê algum titulozinho no jornal de que discorda? Não tem de se dar ao trabalho de ler o resto do texto para tentar perceber se tem argumentos convincentes ou factos válidos. O extremista não tem conhecimentos relevantes sobre o assunto e não consegue articular um argumento? Não há problema, basta despejar insultos e decretar penas! Dependendo da sua preferência, o polarizado mal-educado – e o extremista é, por regra, orgulhoso da sua má-educação e chama a isso dizer as coisas como elas são – atira com um “comunista” ou um “fascista” engalanado de uns insultos soezes. Avança com “és um grande woke” ou “saíste-me um grande racista”! Para quem não quer pensar e prefere o conforto das certezas ignorantes e retira prazer do insulto javardo, a polarização é, portanto, uma grande solução. Se o extremismo crescer será também a receita para o crescimento da intolerância, da ingovernabilidade e, se tiver força para tanto, do autoritarismo repressivo. Basta ver o que estes extremistas virtuais escrevem e ameaçam nas redes. Por enquanto, dedicam-se virtualmente às purgas, aos cancelamentos, às censuras, aos despedimentos e às ameaças violentas, mas, se alguma vez tiverem poder, pode ser que tentem torná-las reais. Cabe agora, como sempre coube aos verdadeiros democratas de direita e de esquerda, evitar esse risco. Quanto a mim, vou de férias. Podermos tirar férias pagas é uma grande conquista das democracias europeias, não era assim há cem anos atrás. Espero que façam o mesmo: nada melhor que tirar férias para arejar ideias. Não querer tirar férias da propagação das suas opiniões é um mau sinal.