Rita Cabaço estreia-se na encenação a olhar para o presente a partir do Holocausto

🗓️ 2026-09-28 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Com estreia marcada para quarta-feira, no Teatro São Luiz, em Lisboa, "Caminho do Céu", do dramaturgo espanhol Juan Mayorga, parte do episódio real em que os nazis transformaram o campo de concentração de Terezín (Theresienstadt) numa falsa cidade-modelo judaica, para enganar uma inspeção da Cruz Vermelha Internacional.

Nesse gueto, os nazis encenaram uma situação para apresentar à Cruz Vermelha, em que os prisioneiros eram mostrados a trabalhar, passear, praticar desporto, assistir a atividades culturais ou a brincar, mas na verdade, Terezín funcionou como um campo temporário e de trânsito para os campos de extermínio de Auschwitz e Treblinka.

Na peça, um comandante nazi orquestra a encenação de uma normalidade inexistente, com a colaboração forçada de um prisioneiro judeu, obrigado a assumir o papel de presidente da câmara, enquanto os restantes prisioneiros representam os habitantes da cidade.

Rita Cabaço conheceu o texto de Juan Mayorga há vários anos e interessou-se pela forma como o dramaturgo espanhol expõe "a violência, a opressão, este ato da desumanização", sem assumir uma posição moralista, contou a atriz e agora encenadora, após um ensaio de imprensa do espetáculo.

"Traduz um bocadinho do nosso comportamento humano, mas sem ser moralista, ou seja, apresenta-o, espelha-o, mas apresenta-o na sua totalidade", explicou.

Ao longo do tempo, coisas que se foram sucedendo à sua volta fizeram com que a peça adquirisse uma crescente atualidade aos seus olhos.

"Vários acontecimentos à nossa volta foram escalando, eles já estavam a acontecer, mas foram cada vez mais escalando, não só o aumento da extrema-direita, como todos os conflitos que estão atualmente a rodear-nos e a pairar sobre nós", afirmou.

Foi então que decidiu "perder o medo", parar de se "boicotar" e avançar para a primeira encenação, embora não quisesse fazer um espetáculo especificamente sobre o Holocausto.

"Interessa-me partir disto para pensar hoje, não só hoje, como pensar estes mecanismos que se vão repetindo na própria transversalidade da História e ciclicidade da História", explicou.

A encenadora rejeitou, por isso, uma representação naturalista da violência ou uma tentativa de reproduzir em palco o sofrimento vivido num campo de concentração ou, atualmente, num cenário de guerra.

"Não me interessa tentar traduzir isto de forma literal nem realista. Interessa-me que esta linguagem seja mais abstrata e mais absurda", afirmou.

E é precisamente esse absurdo que Rita Cabaço identifica também no presente, considerando que este se tem vindo a tornar progressivamente `aceitável`.

"Hoje em dia, nas principais figuras da atualidade... eu revejo muito o absurdo nestas figuras e penso como é que o absurdo hoje em dia está a ser cada vez mais normalizado e está a conseguir contaminar o pensamento, a razão, os códigos que nós antes dávamos por garantidos, códigos de forma de estar uns com os outros", explicou a encenadora.

Sem pretender apontar uma saída, Rita Cabaço descreve a encenação como "uma tentativa de espelho da humanidade", na qual também se inclui.

A própria violência surge na peça de Juan Mayorga acompanhada por momentos em que o comportamento do agressor se torna tão absurdo que pode provocar o riso.

"Há momentos neste texto, em que a violência por ser vista à distância e por ser muitas vezes dirigida de uma forma tão absurda e tão ridícula [...], são risíveis e eu gosto deste equilíbrio em que a peça tem momentos de grande violência mas há outros em que nós somos capazes de nos rirmos do agressor", explicou.

"É um movimento muito estranho. Porque nós nos esquecemos que ele é um agressor e estamo-nos a rir do seu ridículo", acrescentou.

A procura de estranheza estendeu-se à escolha do elenco, que junta os atores profissionais Tânia Alves, Paulo Pinto e Nídia Roque a pessoas sem experiência em representação, escolhidas através de uma convocatória aberta à população da Grande Lisboa.

Cerca de duas centenas de pessoas responderam à convocatória, tendo sido selecionadas 60 para participarem em oficinas de teatro, divididas em quatro grupos de 15, das quais foram escolhidos 14 participantes.

A opção por intérpretes sem experiência estava tomada antes do início dos ensaios e procura estabelecer um paralelo com os próprios prisioneiros de Terezín, colocados pelos nazis perante a obrigação de representar uma falsa normalidade.

"Interessa-me que sejam corpos não trabalhados. Porque é muito difícil dizer a um ator, agora finge que não sabes estar em cena", explicou.

"Corpos que não sabem estar em cena têm uma linguagem que eu acho que é muito difícil de tentar reproduzir e que eu acho que ajuda muito à construção da ficção dentro do teatro", acrescentou.

Os prisioneiros que participaram na encenação montada em Terezín também não sabiam representar nem estavam à vontade nessa condição, esclareceu Rita Cabaço, acrescentando que quis transportar essa estranheza para o palco.

"Quem o fez, e obviamente numa realidade muito diferente, foi posto nesta situação sem saber fazer e sem o querer fazer", afirmou, salientando a diferença fundamental de que, no espetáculo, participar foi uma escolha.

A encenadora recordou ainda que o delegado que visitou Terezín descreveu os prisioneiros como pessoas que se "mexiam de forma estranha, pareciam autómatos", e foi esse automatismo que procurou aproveitar na construção cénica.

A diversidade foi outro critério para a escolha do grupo, procurando reunir em palco "corpos diferentes", pessoas de diferentes idades e vindas de diferentes lugares.

"Caminho do Céu" marca a estreia na encenação de Rita Cabaço, até agora sobretudo conhecida pelo trabalho como atriz, uma mudança que descreve como "extraordinária", mas também "avassaladora".

"É muito estimulante estar deste lado, portanto, numa perspetiva diferente do que estar em cena como atriz, pensar um espetáculo do zero", afirmou, destacando o desafio de construir um universo comum entre atores, cenografia, figurinos, som e luz.

"Caminho do Céu" estreia-se na quarta-feira, no Teatro São Luiz, em Lisboa, numa coprodução deste teatro municipal com o Cineteatro Louletano, no Algarve, e o Teatro Viriato, em Viseu.