Cigarros: contrabando usa Suriname para chegar ao Nordeste - 15/08/2026 - Economia - Folha

🗓️ 2026-08-16 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Um barco abordado no oceano Atlântico em julho de 2024, a 407 km de Macapá, transportava 1,5 milhão de maços de cigarros paraguaios. No Pará, um ano antes, um barco que saiu de Abaetetuba (PA) para encontrar um navio em alto mar e embarcar caixas de cigarro foi flagrado e três pessoas foram presas.

O que poderia ser algo pontual é, no entanto, cada vez mais frequente e decorre de mudanças logísticas adotadas pelo crime organizado para abastecer os estados do Norte e Nordeste do país, que incluem o escoamento dos cigarros fabricados no Paraguai por uma rota marítima que passa pelo Suriname.

Há relatos de casos do gênero desde 2018 e passaram a ser frequentes nos anos seguintes, até serem considerados atualmente pelas autoridades como uma rota consolidada. Há até casos de barcos carregados de cigarros, sem tripulantes, flagrados pela Marinha, como um que encalhou em 2020 em Cajueiro da Praia (PI).

A rota marítima, assim como a terrestre, tem origem no Paraguai. Mas os contrabandistas, em vez de entrarem com as cargas diretamente no Brasil por fronteiras no Paraná e em Mato Grosso do Sul, optam por levar o carregamento de cigarros para o Chile, para ser embarcado no porto de Iquique, no norte do país, distante 1.762 quilômetros da capital, Santiago.

De lá, navegam pelo oceano Pacífico rumo ao norte da América do Sul, passando por Peru, Equador e Colômbia até atingir o canal do Panamá e, em seguida, Venezuela e Suriname. A partir de então, a carga é redistribuída para embarcações que têm como objetivo abastecer estados como Pará, Maranhão, Piauí e Rio Grande do Norte.

No fim do ano passado, a PF (Polícia Federal) deflagrou a operação Rota da Fumaça, resultado de investigação de uma organização criminosa que lavava dinheiro e contrabandeava cigarros que passavam pelo Suriname. A investigação revelou uma rede estruturada de compradores de cigarros ilegais, com o uso de laranjas e empresas de fachada.

O alto lucro, com baixo risco, faz o contrabando ser uma fonte de financiamento do crime organizado na região da tríplice fronteira, o que motiva até mesmo usar essa rota, mais extensa, para driblar a fiscalização no Brasil.

Como a Folha mostrou, contrabandear produtos do Paraguai para o Brasil pode render lucros superiores a 500% ao crime organizado, o que tem feito com que facções criminosas estejam cada vez mais presentes no entorno de Foz do Iguaçu (PR), principal região de entrada de produtos ilegais no país.

Um estudo produzido pelo Idesf (Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras), mostra que a margem de lucro do contrabando chega a 507% no caso dos cigarros.

O índice foi calculado a partir da diferença entre o custo estimado para trazer ilegalmente a mercadoria ao Brasil e o valor obtido com sua revenda no mercado clandestino, no qual a sonegação fiscal abre espaço para preços menores do que os praticados pelo mercado regular.

A atividade movimenta bilhões de reais à margem da economia formal, sem recolhimento de tributos. Segundo órgãos de fiscalização, além de abastecer as organizações, o contrabando gera concorrência desleal com empresas que atuam legalmente e pressiona a arrecadação pública. A diferença de preço entre os cigarros brasileiros e paraguaios é de 650%.

Segundo o instituto, o Paraguai tem capacidade instalada para produzir 60 bilhões de cigarros por ano, para um consumo estimado em 2,5 bilhões. Ou seja, tem consumo interno que responde por pouco mais de 4% de sua produção, com o restante destinado à exportação.

A estimativa do Idesf é que o Brasil absorva 62% da produção paraguaia, seguido pelo Chile, com 10%. Isso significa a circulação ilegal, sem o pagamento de impostos, por exemplo, de um volume financeiro de cerca de R$ 10 bilhões.

"Não é só uma questão que envolve o Brasil. Os cigarros do Paraguai têm chegado aos países da América do Sul e do Caribe, por isso usam essa logística que também atende o Norte e o Nordeste. Uma parte excedente da logística própria para atender o Caribe, por estar perto, vai para as duas regiões do Brasil", disse Luciano Stremel Barros, presidente do Idesf.

Já Edson Vismona, presidente do FNCP (Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade), afirma que o Chile ganhou impulso extra na rota do contrabando não só pelo uso do porto de Iquique, mas também pelo fato de o país ter aumentado os impostos do cigarro.

"Com isso, o mercado ilegal cresceu. O Paraguai é o hub de distribuição de cigarros para todos os países. Essa rota marítima é sofisticada e mostra o quanto vale a pena o investimento do crime organizado.

Depois de toda essa volta pelo continente, chega ao Suriname e entra também pelos rios na região do Pará, fornecendo para as regiões Norte e Nordeste. No Maranhão, 70% do comércio já é dominado pelo cigarro ilegal. Hoje é cigarro, daqui a pouco serve para outro produto, com a mesma logística", disse Vismona.

A operação de 2024 no oceano foi feita pela Marinha e pela PF e tirou do mercado uma carga de cigarros ilegais avaliada em R$ 7,5 milhões, sem selo da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e que tinha como destino a Bahia.

A embarcação tinha 25,6 m de comprimento e 6,67 m de largura e nenhum dos ocupantes tinha habilitação. Já no caso do barco que foi ao encontro de um navio, foram apreendidas 350 caixas de cigarros originárias de Paramaribo, capital do Suriname.