Safari com o país a arder, Ibiza, o amigo milionário, um coqueiro e a Nestlé. As férias dos primeiros-ministros dão sempre que falar

🗓️ 2026-08-12 📁 science 📝 ⏱️ 👁️ : -

Sempre que um primeiro-ministro veste os calções e põe um pé na praia, arrisca-se a ser notícia ou vítima dos ataques da oposição. A ida a banhos de Luís Montenegro, reincidente nestas polémicas, voltou a ser tema este ano e nem uma nota em que pré-anunciava uns esporádicos mergulhos estivais o salvou das críticas de José Luís Carneiro e de André Ventura. É uma história com barbas: de uma forma ou de outra, com maior ou menor embaraço, todos os seus antecessores passaram pelo mesmo.

A 21 de julho, numa altura de enorme pressão sobre o Governo, o gabinete do primeiro-ministro fez saber que Montenegro tinha decidido “não gozar férias no verão” e que ficaria a coordenar a atividade do Governo. Nessa mesma resposta, enviada à agência Lusa, acrescentava-se o seguinte: “O primeiro-ministro pretende gozar apenas alguns fins de semana e um ou outro dia esporádico, se a agenda o permitir e sem se ausentar do país”.

Na sexta-feira, foram reveladas fotografias de Luís Montenegro numa praia do Algarve, ao lado de Hugo Soares e elementos das respetivas famílias. As imagens, captadas na véspera, foram utilizadas pela oposição para acusar o primeiro-ministro de ter faltado com a palavra dada — apesar de, como se pode ler acima, Montenegro ter dito que pretendia gozar “alguns fins de semana” e “um ou outro dia esporádico”.

Este sábado, José Luís Carneiro fez isso mesmo: “Peripécias, peripécias, peripécias. Aquela que mais me surpreendeu nas últimas horas foi mesmo termos um primeiro-ministro que jurou a pés juntos que não ia de férias e vê-lo em férias com o líder parlamentar. E essa é uma peripécia que mostra bem o modo como nós devemos olhar para aquilo que são os compromissos e a palavra do primeiro-ministro”, argumentou o líder socialista.

Também André Ventura surfou a onda da polémica publicando um vídeo gerado por Inteligência Artificial nas redes sociais onde o primeiro-ministro e o líder parlamentar do PSD estão na praia, vestidos de nadadores salvadores, e salvam Luís Neves de um afogamento. Apesar da revolta que gerou, esta não é a primeira vez que um líder de um Governo português se vê envolto numa situação parecida.

Já não é a primeira vez que as idas à praia atrapalham Montenegro. Em 2025, e depois de uma Festa do Pontal com direito a gin ao pôr de sol enquanto o país queimava, o primeiro-ministro seguiu de férias com as orelhas a arder. Era para ser uma semana, mas as férias duraram apenas um dia: como os incêndios continuavam a fustigar o país, Montenegro cancelou as férias e fez saber que iria regressar à capital para tomar conta da coordenação política do Governo.

Antes disso, em 2024, Montenegro resolveu aceitar o convite do amigo Eurico Castro Alves, ex-secretário de Estado da Saúde e a sombra de Ana Paula Martins, e foi até ao nordeste brasileiro, com família e amigos. A controversa companhia de Castro Alves deu dores de cabeça — a influência do antigo presidente do Infarmed no Governo é há muito questionada e, recentemente, foi o centro de uma investigação do jornal Público depois de a consultora dele ter apresentado um traficante acusado de ligações ao PCC para negócio de cannabis. Mas o pior viria depois: no âmbito do caso Spinumviva, o Ministério Público exigiu saber quem pagou e como foram pagas as férias no Brasil. A averiguação preventiva seria arquivada em dezembro de 2025.

Costa à beira de um ataque de nervos

Como se viu, Montenegro sem descanso nas férias começa a ser um clássico da estação — mesmo quando não as tira. De resto, o atual primeiro-ministro não é o primeiro a ser acusado de estar de férias quando efetivamente não estava — António Costa que o diga. No último dia da campanha eleitoral para as legislativas de 2019, durante uma ação em Lisboa, um ex-militante e antigo autarca do CDS interpelou António Costa para o acusar de ter estado de férias durante os incêndios de Pedrógão Grande.

Assim que Joaquim Elias começou a falar — “Porque o senhor quando foram os incêndios lá em cima, de Pedrógão Grande, estava nas suas merecidas férias…” —, António Costa perdeu a cabeça. “Não estava não. É mentira. Não interrompi nada. No dia 18, eu já lá estava. O senhor é um mentiroso“, respondeu o então primeiro-ministro, visivelmente exaltado. Costa acabaria por ser retirado do local e seguiu viagem para o Porto.

Já tinham passado dois anos desde os incêndios de Pedrógão Grande, mas a ideia de que Costa estava de férias quando tudo começou voltou a circular naquela campanha eleitoral. Não eram apenas as pessoas na rua que defendiam a ideia. Rui Rio, então presidente do PSD, chegou mesmo a dizer que Costa “simplesmente não interrompeu as férias” depois da “morte de mais de 60 pessoas“.

Não era verdade. Ambos os incêndios lavraram entre os dias 17 e 24 de junho de 2017. Costa foi de férias na primeira quinzena de julho. Na manhã de dia 18 de junho, o primeiro-ministro deslocou-se a Pedrógão Grande para acompanhar as operações e na noite da véspera já tinha estado no centro de operações da Proteção Civil, em Oeiras, depois de se saber que poderia haver um grande número de vítimas mortais.

Troika a quanto obrigas

Pedro Passos Coelho tomou posse como primeiro-ministro em meados de junho de 2011 e, na primeira reunião do recém-formado grupo parlamentar do PSD, defendeu a necessidade de prolongar os trabalhos da Assembleia da República até agosto para aprovar algumas iniciativas legislativas mais urgentes. “Peço-vos que não façam grandes planos de férias”, disse aos deputados sociais-democratas, segundo noticiou então a agência Lusa. Quando em agosto foi visto de férias com a família para o Algarve, ganhou força a ideia de que a promessa sobre férias de Passos não tinha sido cumprida.

Para um primeiro-ministro que tinha sido responsável, entre outras coisas, pelo corte dos subsídios de Natal e de férias, todos os cuidados com a imagem pública eram poucos. O tempo político era duro — por várias vezes, Pedro Passos Coelho teve de lidar com protestos à porta da casa onde passava férias, na Manta Rota, Algarve — e dificilmente escaparia à crítica se cedesse a grandes tentações — as fotografias a carregar sacos de compras à saída de uma mercearia acabaram por ajudar a construir a sua imagem de marca.

Em rigor, antes como agora, não lhe é conhecido o gosto por férias faustosas — este ano, voltou a ser fotografado na mesma praia de sempre, na companhia da filha Catarina e do neto Benjamim. No entanto, nem todos os seus antecessores tiveram a mesma contenção.