“Salvar do esquecimento” deu força a Fabrizio Matos

🗓️ 2026-07-14 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

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Fabrízio Matos inspirou-se de artistas conceituados para produzir duas das várias obras que contribuiu no ciclo "White Boxes #1: Intervalos". É um projeto, uma exposição que está no Museu do Caramulo desde este mês de abril, 2026, aqui no distrito de Viseu. Comigo tenho Inês Pina Ferreira, uma das responsáveis por esta coleção. Inês, conte-me esta história do artista Fabrízio Matos se ter inspirado noutros para produzir estes dois quadros.

Sim, aqui encontramos uma inspiração, mas também quase que uma própria homenagem e uma exploração, no sentido positivo, das obras de dois grandes artistas do panorama da história da arte. Podemos dizer que os desenhos do Fabrízio salvam as coisas do seu desaparecimento. Convocam, no fundo, um imaginário onde se cruzam, no sentido literal, os automóveis com a arte, que é, desde logo, o propósito deste museu. E aqui mesmo de frente para nós, na sala da arte contemporânea, nós encontramos dois cenários evocativos das obras de dois grandes artistas. Temos o Alfa 33 Stradale, que evoca aqui a obra de Giorgio de Chirico, que tinha uma paixão por carros rápidos pequenos, e temos também o Alfa 2000, que evoca uma paisagem do Edward Hopper, que fala do carro como elemento integrante da própria paisagem. E nós conseguimos perceber tudo isto que aqui está representado e quem olha e quem já tem essa base, quem conhece tanto as obras do De Chirico como do Hopper, consegue fazer, desde logo, esta associação imediata.

Aqui, onde nós conseguimos identificar o estilo do Fabrízio Matos, para quem já conhece o seu trabalho, principalmente o trabalho que ele contribuiu para este ciclo, é feito a carvão.

Exatamente, como já referimos e como é possível ver em todas as obras do Fabrízio que estão expostas aqui no Museu do Caramulo, há o ponto comum, o ponto predominante, que é o carvão trabalhado desta forma saturada, quase que levada até o limite, mas ao mesmo tempo com uma sensibilidade muito característica do punho do Fabrízio, se assim quisermos dizer. Ou seja, eles são a carvão, mas é aquele carvão que convida a olhar, convida a ver mais. Nós conseguimos perceber todo este lado mais sensível. É superengraçado como é que nós olhamos para esta obra, para este Alfa 2000, e conseguimos ver a luz dos faróis do automóvel. Portanto, é esta sensibilidade que aqui o Fabrízio procura transmitir através do trabalho a carvão.

Quem visita também consegue perceber essa sensibilidade do ponto de vista da rapidez, porque um carro está a contornar a curva lentamente e dá para perceber isso, o outro vai a altas velocidades, pelo menos assim parece, tendo em conta o rabiscar muito presente feito pelo artista.

Sim, isso depois já é aquele tempo. Todas as obras, qualquer uma delas, nos convida a termos um momento de conexão com a própria obra de arte. E às vezes nós, enquanto visitantes, temos mesmo que olhar para a obra de arte desta forma desinteressada, complacente, ou seja, esperar que a obra fale conosco. Nós temos que olhar sem querer nada em troca, porque esse também é o propósito da obra de arte. Nós temos que deixar que a obra de arte nos transmita algo. E nós temos aqui duas obras, uma ao lado da outra, que uma, se por um lado, nos transmite, se calhar, esse lado mais calmo, mais pleno, de contemplação, a outra nos transmite este lado, como dizias, de velocidade, de algo que está a acontecer, de quase que conseguimos ver a própria imagem em movimento. E este é o interessantíssimo poder, não só dos artistas, aqui muito concretamente de Fabrízio, mas da própria obra de arte.

Além das obras em si, algo que interpela quando nós entramos aqui na sala de arte contemporânea, é que estes dois quadros estão no centro, no chão, e não nas paredes onde estamos habituados a ver.

Sim, exatamente. E lá está, uma vez mais, a opção curatorial também aqui de José Maçãs de Carvalho, porque quando o José pensou a disposição da sala da arte contemporânea, que foi toda ela adaptada, seguindo no fundo esses gabinetes de curiosidades e também já aqui adaptada para receber as novas obras destes artistas e obras dos futuros artistas que também participarão nas próximas White Box. Quando houve todo este planeamento, sentia-se que faltava alguma coisa aqui no centro da sala, porque nós, quando vamos fazendo todo o percurso do museu nas diversas salas, nós encontramos normalmente apontamentos ao meio da sala. Ou temos vitrines, ou temos peças de mobiliário, ou temos paredes que cortam as próprias salas, esculturas, etc. E chegávamos à sala da arte contemporânea e sentíamos esse vazio, por assim dizer, na sala. Faltava algo aqui ao centro. Por isso, optou-se por colocarmos essas duas peças do Fabrízio aqui no chão. Elas estão sobre uma plataforma que permite também ter o devido destaque, funcionando quase como as vitrines que vemos ao longo das outras salas e que acaba por resultar muitíssimo bem aqui do ponto de vista expositivo, porque o visitante chega, vê e é mesmo convidado a olhar de forma mais atenta para aquilo que está, nem que seja por mera curiosidade.

E no fundo, vai ao encontro daquilo que é o conceito do Intervalos. Falta alguma coisa e, portanto, temos que preencher, neste caso, preencher com as obras de um dos quatro artistas que participaram neste ciclo. Inês, muito obrigada.

Muito obrigada, nós também.