São Paulo virou um retrato triste da ganância - 22/07/2026 - Marcelo Rubens Paiva - Folha

🗓️ 2026-07-22 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

O ano de 2016 será lembrado como o começo da segunda onda de destruição da cidade de São Paulo: foi regulada a nova lei de zoneamento, permitindo adensamento e edifícios altos perto de estações de metrô, trens, corredores de ônibus, ou seja, qualquer parte. Permitidas fachadas ativas e prédios sem recuos. Lojinhas familiares ficaram com cara de hall de prédio.

Em uma década, o número de lançamentos passou de 19 mil apartamentos por ano para 140 mil. Mas a infraestrutura da cidade não acompanhou o aumento. Deu um nó no trânsito, na segurança e na qualidade de vida, com muita poluição —fumaça, visual e sonora.

Quando anunciaram que estava liberada a construção de torres de 30 andares em bairros de sobrados e "predinhos" como Pinheiros, Vila Madalena, Sumaré, a cidade perderia regiões arborizadas e ventiladas.

Ao reclamar com um dos urbanistas responsáveis, como se eu advogasse em causa própria, ele me acusou de ser um "nimby" —ou "not in my backyard", adepto da política contra mudanças em sua vizinhança.

Da minha varanda, eu avistava a Universidade de São Paulo, Osasco, a marginal Pinheiros, o Pico do Jaraguá e a Cantareira. Hoje, vejo prédios, prédios, prédios e a serra da Cantareira tomada por novos bairros que sobem como cupinzeiros.

Calçadas de casinhas, comércios que te atendem pelo nome, vizinhança amigável e lojinhas viraram calçadas sem alma viva de grandes condomínios e seguranças mal-encarados. Sumiram árvores, quintais, maritacas, gaviões, bem-te-vis, periquitos e pardais. Sabiás pararam de nos acordar ao amanhecer, e gatos pararam de se amar nos telhados.

São Paulo sempre foi uma cidade peculiar. A muralha que a separa do oceano a isolou por séculos. Paulista não era um sujeito ligado ao mar, mas ao mato. Portugueses que aqui chegaram só puderam subir a serra com a permissão de Tibiriçá.

Foram os jesuítas que tiveram a ideia de se instalarem na planície em Piratininga, entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú. Enquanto a maioria dos portugueses ia à caça de ouro e prata, pedras preciosas e índios para escravizar, Anchieta queria terra fértil e índios para catequizar.

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Foi por séculos considerada a região mais pobre da colônia. Era um entreposto de uma maioria de mulheres —já que os homens, sertanejos, estavam no interior—, que usavam flores nos cabelos e eram gentis com viajantes, como dom Pedro 1º.

O naturalista Saint-Hilaire escreveu em "Viagem à Província de São Paulo" que, em 1820, a cidade tinha 23.760 habitantes, três paróquias, dois recolhimentos para mulheres e três conventos para homens, um asilo, a escola dos jesuítas, muitas chácaras, hospedarias e gente hospitaleira.

"Lindas casas estão espalhadas de todos os lados. Araucárias e palmeiras se destacam. A cidade é encantadora. E é puro o ar que se respira. As ruas são amplas. A maioria é calçada. E há várias praças públicas. Faz-se notar um aspecto de alegria e limpeza, e de pontes modernas sobre os rios."

As janelas eram largas, diferentemente do Rio de Janeiro, e as casas bem decoradas, com paredes coloridas. A quantidade de escravizados era menor do que no Rio e Minas. Mas a maldição do pelourinho existia no largo da Sé.

Com a Calçada do Lorena, a primeira estrada pavimentada entre São Paulo e Santos, e depois o trem, desceu o café, e chegaram os imigrantes e a industrialização. Os rios "atrapalhavam o progresso". O que fazer?

Em 1930, o urbanista Saturnino Rodrigues propôs respeitar a geografia da cidade: preservar os rios, criar grandes parques lineares com lagos às margens dos rios Anhangabaú, Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, e várzeas cercadas por parques de lazer.

Os bairros Barra Funda, Bom Retiro, Casa Verde, Freguesia, Limão, Jaguaré, Butantã, Vila Leopoldina, Ipiranga seriam grandes parques, como décadas depois fizeram com o Parque Ecológico do Tietê.

Mas vingou o projeto de Prestes Maia, com a criação do sistema radial-perimetral de avenidas, preparando a cidade para automóveis, retificando grandes rios e enterrando outros.

Deu tudo errado: o verde sumiu, a água da chuva não tem para onde escoar, rios apodreceram. Era um projeto corrompido, apoiado por construtoras: margens aterradas virariam terrenos lucrativos, novos bairros.

A cidade apodrece. Parques somem, como o dom Pedro, ou são terceirizados. Ganham cercas, grades e tapumes. Bairros são descaracterizados. O metrô anda a passos de tatu.

Consumidores compraram apês em bairros boêmios, reclamaram do barulho, e aos poucos seus prédios acabam com a boemia. Compraram apês em bairros arborizados e tranquilos, mas seus empreendimentos acabaram com o bairro.

São Paulo virou um retrato triste da ganância. O lucro é dissimulado, o dinheiro mente, é cúmplice da desumanização.

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