São Tomé. Vitória de Nito será "lição para elite que vive à custa do Estado" e "à traição" do PR diz ex-PM
"Não se pode premiar Vila Nova, foi a maior deceção, estou mesmo envergonhado da escolha que fiz", lamentou Trovoada, que em 2021 se empenhou na eleição do atual chefe de Estado - com o apoio da Ação Democrática Independente (ADI), partido no poder e que liderava -, mas que acabou por ser exonerado por decreto presidencial.
Fora do país, por telefone, o ex-primeiro-ministro disse à Lusa que está na altura de dar lugar às gerações mais novas e que o povo que conhece revê-se em Nito d`Abreu.
Explicou que está a caminho dos 65 anos e que, se não fez "todas as guerras possíveis para ser Presidente", é porque acredita na renovação política, caso contrário "teria travado uma guerra que ele [Vila Nova] não conseguiria vencer".
Ainda assim, afirmou nada descartar. Seja uma nova corrida para primeiro-ministro, seja uma eleição para presidente da Assembleia Nacional, num parlamento e num cenário político "em que são precisos consensos".
Trovoada defendeu que a eleição presidencial é "um primeiro passo de clarificação institucional", que cabe ao povo decidir, mas lembrou que Vila Nova traiu a obrigação de assumir "o papel de árbitro", pelo que a vitória de Nito d`Abreu seria também uma vitória "contra práticas próprias de um regime presidencialista".
As eleições presidenciais de domingo em São Tomé e Príncipe têm como pano de fundo uma série de disputas políticas e jurídicas que têm adicionado tensão à campanha eleitoral que termina esta sexta-feira.
As principais passam pela exoneração, em janeiro de 2025, do Governo liderado por Patrice Trovoada, pela mão do chefe de Estado, que alegou ausências prolongadas de Trovoada no estrangeiro e deslealdade institucional.
O Tribunal Constitucional veio muito mais tarde declarar a inconstitucionalidade do decreto presidencial, mas sem efeitos retroativos.
No parlamento, dois blocos de deputados reivindicam a presidência da Assembleia Nacional. Abnildo d`Oliveira foi eleito, em fevereiro deste ano, por uma nova maioria de deputados apoiantes do atual Governo. Já Celmira Sacramento, a primeira mulher eleita para o cargo e uma fiel à ala histórica da ADI de Patrice Trovoada, acabou destituída num polémico processo, mas considera-se a legítima líder do parlamento, tendo procurado suporte numa decisão judicial.
Outra disputa jurídica e política tem como palco a Ação Democrática Independente (ADI), com duas alas do partido também a reivindicarem a liderança. De um lado, o atual primeiro-ministro, Américo Ramos, escolhido por Carlos Vila Nova após a exoneração do Governo em 2025. Do outro, o próprio Patrice Trovoada.
Os apoios aos candidatos a Presidente também vieram baralhar a corrida presidencial. Em 2021, a ADI apoiou Carlos Vila Nova. Este ano, o apoio oficial foi para Nito d`Abreu, o líder parlamentar. Já Vila Nova conta agora com o apoio do Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe, o outro principal partido são-tomense.
O Tribunal Constitucional são-tomense admitiu cinco candidatos às presidenciais de 19 de julho: Eugénio Rodrigues da Trindade Tiny, Nito de Sousa Viegas D`Abreu, Miques João do Nascimento de Jesus Bonfim, Carlos Manuel Vila Nova, que se recandidata ao cargo, e Jorge Bom Jesus, que anunciou a sua desistência já fora do prazo legal.
Segundo a Comissão Eleitoral Nacional (CEN), os dados definitivos do recenseamento eleitoral automático registaram 142.191 eleitores, dos quais 121.670 estão em São Tomé e Príncipe e 20.521 na diáspora, nomeadamente 15.917 em cinco países da Europa, e 5.324 em quatro países de África.