"Se o Volta acabar fico sem nada": há quem viva das garrafas que Lisboa deita fora
O que para uns é lixo, para David, Jorge, António, Maria e Rasham é, muitas vezes, a diferença entre comer e não comer. O Volta criou uma nova forma de rendimento para quem vive em situação de sem-abrigo, mas também trouxe conflitos, lixo espalhado e máquinas que nem sempre funcionam. Entre quem recolhe, quem limpa e quem recebe as embalagens, este é o retrato de uma cidade onde cada garrafa vale dez cêntimos
São 200, às vezes 300. David Costa sabe de trás para a frente quantas garrafas e latas precisa de recolher para poder dar o dia por terminado. Tem 36 anos, vive na rua e passa "seis ou sete horas" a percorrer Lisboa à procura de embalagens de plástico. Quando tem sorte, conta, quatro ou cinco horas chegam. Quando não tem, continua.
O percurso muda, mas a rotina é quase sempre a mesma: procurar nos caixotes, espreitar as papeleiras, perguntar nos restaurantes, carregar os sacos e, no fim, enfrentar uma máquina que transforma aquilo que alguém deitou fora em dez cêntimos. Há lugares onde já sabe que vale a pena procurar e outros onde perde tempo. "Consigo fazer sempre 20 a 30 euros por dia", explica.
Pintor de profissão, David está desempregado e não recebe qualquer subsídio. A viver na rua, encontrou nas garrafas uma forma de conseguir dinheiro sem pedir diretamente às pessoas.
"É algo que faço todos os dias [procurar garrafas Volta] porque acho que é melhor do que pedir ou fazer mal às pessoas, como alguns que moram na rua como eu fazem", afirma. "Pedir não consigo, roubar também não e, com isto do Volta, desde que a gente queira andar e procurar, consegue fazer dinheiro todos os dias. Às vezes mais, às vezes menos".
A mesma conta é feita algumas ruas mais acima. Jorge vive num albergue e recebe o rendimento mínimo. Todos os dias sai por volta das 10:00 e recolhe embalagens até às 16:00, sobretudo na zona da Mouraria. Quando a CNN Portugal se cruza com ele no Martim Moniz, pelas 13:30, leva cerca de 20 garrafas consigo e tem no bolso um talão de 5,30 euros.
"Já cheguei a fazer 43,30 euros num dia", conta. "Normalmente faço 15, 20. Dá para comprar tabaco e alguma coisa para comer. A polícia até já me disse que é bom, assim o pessoal escusa de andar aí a roubar.”
Aos 57 anos, Jorge sente dificuldade em encontrar trabalho e o Volta é uma forma de se "desenrascar". "Eu acho que [o sistema] é bom. O pessoal deixa de andar a fazer porcaria. Está bem que há uns que espalham o lixo todo, mas para mim, que não faço nada disso, é bom", afirma.
No entanto, há uma parte do percurso que nem sempre corre tão bem: a entrega. Jorge explica que, seja em que supermercado for, tem encontrado, vez após vez, problemas com as máquinas. Quando a CNN Portugal lhe pergunta por que motivo isto acontece, responde: "Não sei se avariam ou se são os funcionários que põem aquilo como avariado para não ter lá as pessoas todas a ir…"
É uma suspeita de Jorge que a CNN Portugal não conseguiu confirmar. Mas, nos três supermercados visitados nas redondezas - de marcas diferentes - as máquinas Volta estavam, de facto, fora de serviço, com avisos a indicar essa situação.
David também já teve de virar costas sem conseguir entregar as embalagens, apesar das horas passadas a recolhê-las. Num supermercado do Rossio, conta, esteve "mais de uma hora" na fila até que um homem à sua frente começou a causar problemas depois de a máquina parar. Segundo David, o homem, também em situação de sem-abrigo, estava visivelmente alcoolizado e tinha dificuldade em colocar as garrafas corretamente.
"Chegou a um ponto em que o segurança começou a empurrá-lo para ir para a rua. Ele queria bater-lhe e, nessa altura, desligaram a máquina", descreve. O segurança, conta, virou-se para as pessoas que estavam à espera e disse: “peço desculpa, mas por uns pagam outros.”
A CNN Portugal esteve no supermercado em questão, onde uma funcionária confirmou que, naquele dia, a máquina não estava a funcionar. Segundo explica, o problema era a capacidade: “nós neste momento não temos como descer as escadas porque aquilo está cheio de sacos de embalagens da máquina Volta por todo o lado. Tem sido complicado.”
“Eles são os primeiros a estragarem a máquina. Ainda hoje esteve cá o técnico porque eles fazem e acontecem à máquina", afirma. Faz, no entanto, uma distinção entre as pessoas que aparecem para entregar as embalagens: “nem todos [os sem-abrigo] são maus, há um ou outro que é impecável, mas há outros desagradáveis. Temos tido situações mesmo muito desagradáveis aqui desde que isto começou. Todos os dias.”
António começou a recolha há poucos minutos quando a CNN Portugal o encontrou na Rua da Palma. Já leva consigo duas garrafas de litro e meio, sete latas e "para aí umas 12 garrafas de plástico de 33 e 25 cl", enumera. Não tem um horário fixo, mas repete o percurso três vezes por dia: de manhã, depois do almoço e à noite. A última recolha fica guardada para ser entregue na manhã seguinte.
"Neste momento estou um bocado debilitado", explica, enquanto arrasta as canadianas. Mesmo assim, num "dia bom", chega a fazer 30 euros. "Ali na Avenida da Liberdade e no Rossio, ali apanha-se muito mais, mas há também mais pessoas à procura".
Algumas embalagens estão no chão, mas é nas papeleiras instaladas nos postes de eletricidade que consegue encontrar mais. Os grandes caixotes de lixo doméstico ficam para trás sempre que pode. "Normalmente não vou muito àqueles caixotes grandes porque as garrafas estão muito sujas e as pessoas misturam ali tudo", explica.
O homem, de 50 anos, recebe um apoio da Santa Casa da Misericórdia, atribuído, segundo explica, devido à sua condição. As pessoas que o acompanham sabem que faz a recolha e, segundo conta, isso não interfere com o apoio. "As doutoras ali do refeitório que me ajudam com a alimentação sabem. Acha que os 180 euros que eles me dão, acha que dá para alguma coisa?".
Sobre a possibilidade de o sistema acabar, como tem defendido o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António não hesita: "é uma estupidez" e "ia lixar muita gente".
"Eu tenho 50 anos, já vivo em Lisboa há 30, e sempre vi lixo espalhado na rua, sempre. Não é de agora. Se o Carlos Moedas estivesse no terreno e visse com os olhos dele, talvez tivesse uma opinião diferente daquilo que lhe vão dizer", argumenta.
No Terreiro do Paço, Maria arrasta um saco que uma mulher que passou por si lhe ofereceu. Há quem, por já a conhecer, lhe dê garrafas; quando não dão, procura nos caixotes. Consegue fazer entre sete e dez euros, depois de uma ou duas horas na rua. "É uma forma de ganhar algum dinheirinho porque estou desempregada. São poucas moedas, mas já dá para comer".
Maria, de 60 anos, conta que já esteve três dias doente com dores "na zona dos rins" por andar constantemente curvada. A seguir, aponta para os pés, que diz terem ficado em carne viva. "Ainda se nota ali, está a ver? Está tudo em carne viva".
A recolha ocupa apenas uma parte do seu dia. Começa por volta das 15:00, "pela fresquinha", e fica, normalmente até às 18:00. O resto do tempo tenta dividi-lo entre outras formas de ganhar algum dinheiro: limpa casas, quando a chamam, e faz crochet. Naquele dia tinha acabado mais um naperon: "fiz hoje as franjas e vou tentar vender, mas ninguém quer", admite.
Para Maria, o dinheiro das embalagens dá para pouco, mas chega para o essencial. “Se trocar as garrafas, com todas juntas consigo uma refeição, mas tenho de estar aqui muitas horas. Se não fosse isto não tinha dinheiro para ir ali comer um hambúrguer”, conta, enquanto aponta para um restaurante. “Ontem passei por debaixo da mesa... Se o Volta acabar fico sem nada.”
Antes de ser abordada, Maria pára junto a um caixote, deita água lá dentro e começa a lavá-lo depois de retirar as garrafas. “Sabe porquê? Porque estão sujos. Quando há garrafas sem rótulo eu faço assim e lavo estes caixotes todos. Já que ninguém lava, lavo eu.” Mesmo quando está a recolher, diz que tenta não deixar os caixotes desorganizados. Sabe que há quem o faça, mas insiste que não é a sua forma de “trabalhar”. “Eu abro um bocadinho, tiro as garrafas que estão lá e depois volto a fechar”, explica.
É o que acontece depois de alguém abrir um caixote que faz João, assistente operacional da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, ver o Volta com outros olhos. "Nós limpamos, mas passado pouco tempo as pessoas vão ao lixo, tiram as garrafas, mexem e deitam tudo para o chão. Em vez de voltarem a meter o que não querem deitam tudo para o chão", justifica.
Já encontrou pessoas com "uma grande parte do corpo dentro" dos contentores, a tentar retirar embalagens, e conta que também é frequente pedirem para mexer nos carrinhos de limpeza quando sabem que os trabalhadores levam garrafas consigo. "Antes de eles mexerem nós dizemos sempre que o que mandarem para o chão vão apanhar."
"Em vez de só limparmos uma vez, estamos sempre a limpar. Antes dávamos uma volta, agora, em vez de darmos uma, temos de dar duas e mesmo assim não fica bem limpo porque eles estão sempre a mexer", acrescenta.
No entanto, quando a CNN Portugal lhe pergunta se a medida deve acabar, João responde: "é um impasse". "Para nós que limpamos se calhar devia acabar porque é muito mais lixo que temos de apanhar. Mas consigo perceber a perspetiva das pessoas que precisam. Mesmo que seja 4, 5 euros, já dá para se sustentarem por aqui."
O problema não fica pelos caixotes da rua. No Rossio, chega também às portas dos restaurantes.
“Estão toda a hora a mexer nos caixotes e a fazer estragos. Se as pessoas estão sentadas na mesa a consumir, querem a garrafa, vão pedir a garrafa. É uma grande confusão essa coisa do Volta", descreve um funcionário de um estabelecimento.
Desde que o sistema entrou em vigor, passou a existir uma nova função na rotina destes funcionários: controlar quem entra no restaurante à procura de garrafas. Durante o turno, um deles permanece no exterior para impedir que mexam nos caixotes da esplanada e interfiram com as refeições.
"É toda a hora, todos os dias desde que isto começou. Estou aqui fora por causa disso, para tentar controlar. Lá dentro já não vão, como eu estou aqui não passam. É necessário. Toda a hora estão a abrir caixotes com as pessoas a comerem ao lado", explica à CNN Portugal.
A poucos minutos dali, na Avenida da Liberdade, Eglissana Monteiro gere um quiosque onde passam regularmente pessoas sem-abrigo à procura de garrafas. Com uma delas, encontrou uma solução: “dou-lhe a chave [do caixote] e ele não desorganiza. Vai lá e tira o que quer.”
Reconhece, no entanto, que há momentos em que a situação se torna incómoda, sobretudo quando se aproximam da esplanada para pedir garrafas aos clientes ou deixam o conteúdo dos caixotes espalhado pelo chão.
“Eu da última vez tive de me chatear com um porque ele estava a tirar [o lixo para fora], mas depois voltou a pôr tudo no caixote de novo. A mim não me choca porque é uma forma de eles arranjarem algum dinheiro e não estão a roubar nem nada disso.”
A falta de pontos de entrega é, para Eglissana, a principal dificuldade associada ao sistema. “Eu acho que se houver mais máquinas… porque, por exemplo, nós aqui não temos nenhuma máquina perto. Se tiver mais perto, as próprias pessoas levam e põem. O problema é que não temos muitas máquinas na cidade. E, para ser sincera, a Câmara Municipal de Lisboa falha muito na recolha do lixo.”
Veio para Portugal à procura de uma vida melhor. A vida trocou-lhe as voltas
Quando precisa de dinheiro para comer ou comprar alguma coisa, Rasham sai à procura de garrafas. Tem 27 anos, veio do Nepal e acabou a viver nas ruas de Lisboa. É assim que, todos os dias, consegue algum dinheiro para viver. Num dia normal, junta cerca de 20 euros. Não tem outro rendimento, por isso, o número de horas que passa a caminhar por dia depende daquilo que encontra.
“Às vezes tenho de caminhar e procurar mesmo muito. Depende da sorte", descreve.
A polícia, segundo explica, não interfere com a recolha, desde que as embalagens não deixem lixo espalhado pelo chão. “Podemos tirar, apenas não podemos deixar lixo no chão. Se não fizermos isso eles não dizem nada porque entendem que as pessoas são da rua, têm necessidades, e que não estão a fazer nada de mal nem a magoar ninguém”.
“Eu acho que até é melhor para eles porque antes, para ganharem 5 ou 10 euros, as pessoas faziam coisas más por aqui. Então eu acho que este é o melhor programa que já fizeram. Eu acho que é bom", acrescenta.
Rasham sabe que há coisas a melhorar. Não põe de parte que se encontrem outras formas de evitar os problemas junto aos caixotes, mas não vê no fim do sistema a solução.
“Eu acho que isto é bom, mas se ele [Carlos Moedas] não acha, pode tentar arranjar formas de mudar o que não gosta nisto. Talvez tenha outra maneira de resolver essas questões. Mas proibir, eu acho que não é uma boa decisão.”
Para o jovem, a discussão não é apenas sobre garrafas ou alguns euros no fim do dia. É sobre o que esse dinheiro permite fazer. “Não é só bom para mim. Há muitas pessoas que dependem disto e que, por causa do Volta, voltaram a sorrir e a ser felizes.”