Seca no Rio Tapajós: FIEPA cobra dragagem para evitar crise logística | G1
Diante do cenário, a Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa) defende a realização urgente de uma dragagem de manutenção em trechos críticos do rio. A entidade afirma que mantém diálogo com o governo federal e associações do setor para evitar uma possível interrupção do tráfego de balsas.
Após 50 dias, navios com insumos para ZFM começam a chegar em Manaus. — Foto: Divulgação
“Hoje nós temos ainda um risco muito real de acontecer, mais uma vez, uma interrupção da navegabilidade. Prevenir sempre é melhor do que remediar. Estamos diante de um problema iminente”, alerta o presidente da Fiepa, Alex Carvalho.
O Governo Federal, porém, afirmou em nota enviado ao g1, que decidiu não realizar, neste momento, a dragagem no trecho entre Itaituba e Santarém. Segundo o governo, a decisão levou em consideração aspectos logísticos, ambientais e sociais, além dos cenários hidrológicos previstos para os próximos meses.
O governo também informou que a decisão ocorreu após diálogo entre os órgãos envolvidos e escuta de povos indígenas e comunidades tradicionais da região.
O peso do Arco Norte na economia
Última seca severa afetou cerca 150 mil pessoas no Oeste do Pará — Foto: Reprodução/TV Globo
A preocupação do setor produtivo se dá em meio ao crescimento expressivo da região. Em 2025, os portos e corredores do Arco Norte movimentaram 58,6 milhões de toneladas, volume 59% superior ao registrado em 2021.
Atualmente, a rota já responde por:
- quase 40% dos embarques nacionais de grãos;
- 48% das exportações brasileiras de milho;
- cerca de 60% do escoamento de grãos pelo Norte ocorre pelos rios Tapajós e Madeira, que movimentaram juntos aproximadamente 34 milhões de toneladas em 2025.
A rota paraense também é competitiva: transportar uma tonelada de grãos por Barcarena (PA) custa 10,87% menos do que pelo Porto de Santos (SP). No entanto, essa vantagem depende da manutenção das condições de navegabilidade dos rios.
Na seca, as embarcações podem precisar reduzir a quantidade de carga transportada para conseguir navegar em trechos de menor profundidade. Em 2024, a navegação ficou interrompida por cerca de 45 dias no período crítico da estiagem. Em 2025, foram aproximadamente 28 dias de paralisação.
Governo afirma que navegação local poderá ser mantida
Apesar dos alertas feitos pelo setor produtivo, o Governo Federal afirma que as avaliações técnicas realizadas até o momento indicam que a navegação local poderá ser mantida mesmo em um cenário de redução do nível das águas.
Segundo o governo, o transporte na região é feito predominantemente por embarcações de menor porte e menor calado, que poderiam continuar operando durante a estiagem, garantindo o abastecimento das comunidades ribeirinhas.
Para cargas de maior porte, o governo aponta o transporte rodoviário como alternativa logística já utilizada na região.
Ainda segundo a nota, há fluxo rodoviário regular e os planos de contingência preveem intervenções nas rodovias para um eventual aumento no número de caminhões.
Semas diz que condições do rio ainda são de normalidade
A Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade (Semas) informou ao g1 por meio de nota que o Plano Anual de Dragagem de Manutenção Aquaviária (Padma) é um programa do Governo Federal executado pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT).
Segundo a Semas, não há, neste momento, demanda do DNIT para uma atividade de dragagem de manutenção no rio Tapajós em análise pela secretaria.
O órgão estadual afirmou ainda que acompanha diariamente as condições atmosféricas e hidrometeorológicas e elabora boletins voltados ao período de estiagem, com o objetivo de subsidiar o planejamento de ações preventivas e de enfrentamento aos impactos relacionados ao fenômeno climático El Niño.
Com base no monitoramento diário do nível do rio na estação de Santarém, a Semas informou que as condições ainda são de normalidade no regime hídrico.
Risco de desabastecimento e alta de preços
A Fiepa adverte que os impactos de uma eventual redução da navegabilidade vão além do agronegócio. Para a entidade, uma paralisação do rio Tapajós pode encarecer o custo de vida das populações locais.
“O combustível é o principal insumo que, se tiver uma interrupção de abastecimento, certamente terá o preço elevado”, explica Alex Carvalho.
Segundo a federação, sem o transporte fluvial, uma das alternativas seria o transporte rodoviário, considerado mais caro e sujeito às condições das estradas da região. O transporte de alimentos e outros produtos para municípios ribeirinhos também poderia ser afetado.
O Governo Federal, entretanto, afirma que o transporte rodoviário já constitui uma alternativa efetivamente utilizada na região e que medidas de contingência estão previstas para um eventual aumento da demanda.
Prejuízo milionário em impostos
A paralisação do fluxo de cargas também pode atingir os cofres públicos. Segundo cálculos apresentados pela Fiepa, períodos anteriores de interrupção da navegação provocaram perdas fiscais.
A entidade cita:
- cerca de R$ 30 milhões em ICMS que deixaram de ser arrecadados pelo Estado do Pará;
- aproximadamente R$ 7,6 milhões em PIS/Cofins para a União;
- cerca de R$ 7,8 milhões em ISS para municípios que integram a cadeia logística, como Itaituba, Santarém e Barcarena, além de Santana, no Amapá.
Segundo a Fiepa, os valores podem ser maiores caso uma eventual interrupção se prolongue.
Dragagem com recurso privado
Para a Fiepa, a solução não exigiria dinheiro público. A entidade afirma que a dragagem proposta seria pontual, em trechos específicos ao longo do rio, e que empresas do setor já teriam disponibilizado recursos para a realização do serviço.
“Não haveria necessidade de recursos públicos. Empresas privadas já aportaram recursos para fazer esse processo de dragagem. A nossa cobrança é para que o governo federal autorize a mobilização dos equipamentos”, afirma Alex Carvalho.
O Governo Federal, contudo, decidiu não realizar a intervenção neste momento. Segundo a União, a decisão foi tomada após avaliação das informações técnicas disponíveis, diálogo entre os órgãos envolvidos e escuta de povos indígenas e comunidades tradicionais.
Debate ambiental e social
A dragagem do Tapajós também envolve discussões ambientais e sociais. A Fiepa argumenta que a intervenção defendida pelo setor seria uma dragagem de manutenção de calado, e não a criação de uma nova hidrovia.
Sobre possíveis impactos relacionados ao mercúrio, a federação afirma que as áreas tradicionais de garimpo de ouro estão localizadas a cerca de 175 quilômetros dos pontos previstos para a dragagem.
“O futuro da Amazônia não está em repelir a atividade econômica, e sim em fazê-la coexistir de forma harmônica”, defende Carvalho.
O Governo Federal afirma que os aspectos ambientais e sociais foram considerados na decisão de não realizar a dragagem neste momento, além dos cenários hidrológicos previstos para os próximos meses.
Risco de “apagão logístico”
Especialistas alertam que a falta de investimentos preventivos pode aumentar a vulnerabilidade da logística amazônica. O professor Hito Braga, da Universidade Federal do Pará (UFPA), destaca que obras de infraestrutura e processos de licenciamento ambiental demandam tempo e que as ações precisam ser planejadas antes que a demanda ultrapasse a capacidade disponível.
O alerta ocorre em um momento de expansão do Arco Norte. A região movimentou 58,6 milhões de toneladas em 2025 e pode ampliar ainda mais sua participação no transporte de grãos e outras cargas.
Para a Fiepa, garantir a navegabilidade do Tapajós é uma medida necessária para preservar a competitividade do corredor e evitar impactos econômicos e sociais.
Já o Governo Federal afirma que, diante das avaliações atuais, a navegação local poderá ser mantida durante a estiagem e que, para cargas de maior porte, o transporte rodoviário poderá ser utilizado como alternativa.
Enquanto o setor produtivo defende uma intervenção preventiva, os órgãos públicos afirmam que, neste momento, as condições hidrológicas ainda são de normalidade em Santarém e não há dragagem do Tapajós em análise pela Semas e a demanda ultrapasse a capacidade dos rios.