Seinfeld e os cancelamentos: qual é a política do humor?
Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Sejam muito bem-vindos a mais um "PopUp", o vosso termómetro para as coisas da cultura popular. Aqui estão eles, Bruno Vieira Amaral, Pedro Buchinho Mendes e também a Susana Romana, no lugar da Maria Ramos Silva, que também tem direito à vida, não são só os outros. Olá, Susana.
Olá, tudo bem?
Muito obrigado por estares aqui mais uma vez. Já que falamos em termómetro, nada é por acaso, como sabem. Esta semana nada esteve mais quente do que Seinfeld e os eventos em volta de um festival de humor. O americano é o nome grande do campeonato internacional do Comédia à la carte, o festival que acontece entre 29 de outubro e 1 de novembro, em diferentes salas de Lisboa, e foi também a causa, mais assumida por uns, menos por outros, do cancelamento de vários nomes em cartaz, entre bandas, cantores e comediantes, cancelamentos que aconteceram entre sexta e sábado da semana passada. Susana Romana, isto é a atualidade a funcionar e nós em cima da atualidade, até porque é isto que as pessoas esperam de nós.
Mas é uma atualidade estranha, se olharmos para o calendário.
Exato. Entre esta questão houve, obviamente, e como é legítimo, pessoas a concordar com o cancelamento, a achar muito bem, pessoas a não achar muito bem, etc. Mas houve uma questão que gerou algum acordo em relação a esta atitude e que foi a dúvida sobre o timing. O por que agora, quando os nomes estão confirmados há vários meses, e essa questão é que se calhar uniu algumas pessoas nas dúvidas, não foi?
Sim.
Não sei se também uniu a ti.
Soube-se que o Seinfeld vinha em abril, que foi quando o festival foi anunciado, e o festival foi anunciado já associado desde o início ao nome do Seinfeld, porque é o nome grande, é o nome que ia vender, é o primeiro ano daquele festival, ia legitimar como um festival que se está a firmar. Por isso, desde abril que se sabe que o Seinfeld vem e as ideias que o Seinfeld tem e os eventos da IDF a que ele vai são públicos desde sempre, não é uma coisa que eles escondem.
Exato.
Portanto, de facto, desde abril até agora, o que muda é simplesmente que começa a haver uma pressão, começa a haver uma organização para haver boicote. Ou seja, começa a haver algum burburinho de algumas páginas em redes sociais a tentar pressionar o boicote. E já agora, eu tenho só que dizer isto: eu fui, por uma questão de ser uma pessoa que se prepara muitíssimo bem, ver os boicotes ao longo dos anos, as histórias dos boicotes que funcionam ou não funcionam. E não vou trazer nenhum destes dados.
Estava aguçada.
Não vou trazer nenhum destes dados, vou só trazer este: chama-se boicote por causa de um senhor irlandês do final do século XIX que se chamava Charles Boycott.
Não é nada.
Eu só queria vos dizer que Charles Boycott existe.
O Pedro está a acenar como quem diz que já sabia.
O Pedro sabe estas coisas. Já a pessoa a quem eu votava que saberia estas coisas.
Sim, sim.
Aquela pessoa que eu sabia que sabia quem era o-
Mas era com Y, mas era com Y, não era?
Com Y, sim, com T, os dois T.
E, portanto, ele tomou uma atitude destas e ficou-
Não, houve boicote contra ele.
Muito bem.
Houve boicote contra ele, por causa de questões agrícolas que eu não vos vou agora chatear com isso, até porque eu própria não percebi muito bem.
Mas é claro, agrícolas, daí o boicote.
Boicote.
Está ótimo.
Pronto, está incrível.
Esta foi boa.
Eu a tentar trazer conhecimento e às-
Ainda sou convidado para o Comédia à la carte.
Podes ir, acho que há vagas. Pode ser um festival que há vagas.
Se me pagarem bem, eu vou.
Já agora, uma informação a quem nos ouve. Nós estamos a gravar este programa numa altura em que ainda não sabemos bem-
O que é que vai acontecer.
Não, há várias hipóteses em cima da mesa, o festival ser cancelado e ficar só o espetáculo do Seinfeld, haver nomes que substituem os, se não me engano, oito cancelamentos de espetáculos que já desistiram. Por isso, acho que ainda não se sabe muito bem. Há a hipótese de as pessoas que resolveram cancelar os seus espetáculos serem ou não processadas, porque obviamente há contratos a borbulho.
Pois, há essa questão também.
Há aqui uma teia legal para urdir isto tudo. O que acontece é: isto é anunciado em abril, o espetáculo é em novembro. Eu não tenho noção se o espetáculo está a vender bem ou não. Eu fui ver, por curiosidade, o preço dos bilhetes oscilam entre os €70 e os €230.
Seinfeld.
Para ver o Seinfeld. Isso é outra questão, que é: isto é um festival, isto não é como ires a um live em que se tu compras um passe que te vai valer para todos os concertos daquele dia, e são os tipos de quem tu não gostas nada, eles estão misturados com as bandas que tu gostas e tu pagaste de igual maneira para todos. Aqui é bilhete a bilhete.
É à la carte.
Exatamente. Ou seja, tu podes não querer ir ver o Seinfeld. Eu, por exemplo, não tinha vontade de ir ver o Seinfeld, e não contribuis financeiramente para a 59ª piscina do Seinfeld, e ir ver outra coisa. Também é possível tu, no teu espetáculo, dizeres o que muito bem entendes. Portanto, tu podias sempre subir ao palco e falar da Palestina e falar das questões que tu entendes, porque são eventos absolutamente separados. Isto é um festival que une-
E dizer que o Seinfeld é um palerma, por exemplo.
Podes dizer, absolutamente, porque é um festival que tem um fio condutor, mas que une datas diferentes, em locais diferentes da cidade. Portanto, não é bem de eles vão estar a partilhar um espaço físico e vão estar a partilhar o mesmo palco e vão ter que privar uns com os outros. Seinfeld, como é óbvio, não vai falar nem dois segundos com nenhum comediante português. E aquilo que acontece, que é o que estranho neste timing, é, de repente, de abril até setembro, como começa a haver algum zonzão nas redes sociais, há cancelamentos, nem toda a gente diz porque é que está a cancelar, algumas pessoas dizem, e isto potencialmente até empapa um bocado um discurso e uma discussão que, em última análise, até pode ser interessante, mas está muito empapada de início por haver coisas que não são muito claras, por haver timings que não são muito claros.
Pode causar ruído até no propósito.
Eu acho que sim. E já agora, eu já tinha recomendado este livro uma das vezes que cá estive.
A Susana começa e deixa logo sugestões.
Sugestões. É um livro da Claire Dederer que se chama "Monster", em português traduziram para "O Dilema de uma Fã". No original é "What to Do with Good Art by Bad People", que é uma discussão sobre isto, sobre separar a arte e o artista, e é um livro ótimo, porque é um livro que fala disto de várias perspectivas, todas elas muito diferentes, e que podemos eventualmente estar a ter uma discussão interessante com isto, mas acabamos por não estar.
Pedro Buchinho Mendes, tu que sabes tudo-
Sabia que era Charles Boycott, a partir daí...
Exato Surpreenderam-te estes acontecimentos, os cancelamentos, as pessoas que estão contra, as pessoas que estão a favor, o barulho, etc? Ou ficarias mais surpreendido se nada tivesse acontecido?
Surpreendeu-me porque do ponto de vista estrito de quem cancelou, imagina eu sou o artista e eu cancelei, é uma boa medida. Porque levam agora com algum estresse das pessoas que são contra os cancelamentos.
Sim, claro, é inevitável.
"Já sabia e só agora cancelou." Mas poupam-se a, nos próximos tempos, meses, anos, dizerem: "Mas o Tiago Pereira apoia Israel ou Palestina." Não sei, um deles. Portanto, este passo cauteloso faz sentido do ponto de vista da gestão das carreiras deles. Tanto que Carolina Deslandes depois do cancelamento, embora ela não tenha dito qual foi o motivo, estava na festa do Avante. Portanto, imagino eu que se tivesse aceitado, não estaria em próximas festas do Avante. Ou em autarquias ligadas a partidos de esquerda. Estou a conjeturar, mas eu acho que é possível. Portugal é muito pequeno para se ter princípios. Eu vou repetir, Portugal é muito pequeno para se ter princípios.
Isto é uma frase para uma t-shirt.
Pois, e por isso é que tantas pessoas têm opiniões tão consensuais e tão, como nós costumamos dizer, politicamente corretas. Nós temos pouco capital social e a nossa coesão social, cultural, política, é muito feita através de consensos que são os evidentes. Eu lembro-me a esse propósito, o enorme afã com que nós cancelamos a Indonésia a partir de 1991, não sei se vocês se lembram do massacre de Santa Cruz.
Não comprar ténis feitos na Indonésia.
Estou a ver se é agora nessa altura em que o Pedro vai lembrar que vem um livro sobre os anos 90.
No livro dos anos 90 que vai sair no fim deste mês, falo inclusivamente de uma posição de força da malta das fronteiras, malta aduaneira, que se recusavam sequer a considerar a hipótese de processar qualquer tipo de encomenda que eventualmente tivesse passado em águas indonésias. Portanto, não foi uma coisa leve.
Exato.
Foi uma coisa mesmo de força, porque as imagens do massacre de Santa Cruz apareceram nas televisões. Podem ler no livro como é que isso aconteceu. A revolta foi tão grande que nós, sociedade civil, a forma como reagimos foi boicotando a Indonésia. Na minha vida profissional, eu tenho me deparado com muitos boicotes. "Ontem vi uma coisa no canal, nunca mais vou..." Porque é uma forma de boicotar e legítima. Mas desta vez parecem-me ser boicotes de gestão de carreira. E isso pra mim é uma coisa nova, na minha leitura, e se calhar smart do ponto de vista deles. Agora, o que eu sugiro a essas pessoas, e eu conheço algumas dessas pessoas, não é bem sugiro, é o que eu comento enquanto peço mais um imperial e estou a beber um imperial com eles, é: há fake news, com certeza, por parte dos israelitas e dos trumpistas, mas também há fake news dos outros lados. Não há só uma parte do mundo que manipula e fake news. Enfim, estou a ver se todas as outras partes fazem isso.
Bruno Vieira Amaral, agora é a parte em que eu puxo do outro lado, que é: não podemos nós aceitar que qualquer momento é válido pra tomar uma decisão dessas, seja na altura, seja seis meses depois.
Seja cinco minutos antes.
Cinco minutos antes. Que as pessoas podem ser influenciadas por vários fatores ou que podem precisar de tempo pra seja o que for.
Podem ser influenciadas, desde logo, pelo fator que é da decisão dos outros. Eu não sei se isto foi concertado.
Contágio.
Não sei se isto foi organizado, se eles falaram antes, os artistas.
Mas até isso faz parte da natureza humana, não é?
Claro, faz parte.
Quando se sente.
Desculpem, só uma artista justificou, não é?
Sim, diretamente.
Diretamente. Sim.
Os outros, no limite, podem estar doentes ou tinham um médico marcado pra esse dia.
Nos Boalémops era uma imagem de uma lancea.
O Boalémop tinha o símbolo da Palestina.
Nós sabemos por quê. Por que houve esta decisão? Eu não sei, eu não faço ideia se houve, de fato, esta concertação. Acredito que, a não ter havido concertação, a explicação seja este fenômeno de contágio, que é um contágio positivo. Ou seja, é positivo porque não é uma doença.
Não é negativo.
Mas há uma pressão. A partir do momento em que alguém cancela, por esses motivos ou por outros políticos, obriga os outros todos a tomar uma posição, porque quem ficar lá está a pactuar.
Ou seja, é como se a porta estivesse aberta e, portanto, menino está na hora de escolher. Mais ou menos isso.
Claro, a partir do momento em que houver uma pessoa a dizer: "Eu cancelo a minha participação neste evento, porque está lá o Seinfeld, ou porque está lá o fulano qualquer, ou porque está lá Israel, ou porque não sei o quê da festa do Avante e apoiam os terroristas." A partir desse momento, isso cria uma fasquia.
Aliás, desculpe interromper, mas houve uma questão semelhante e que começou assim, que foi quando foi o Festival da Canção, a última edição este ano, em que houve um intérprete ou dois, já não me lembro, que no início disseram: "Nós vamos a concurso, se ganharmos, não vamos à Eurovisão em protesto contra..." E depois houve uma série de pessoas que decidiram fazer o mesmo e outras que não.
E tiveste o caso quando veio cá o Kanye West, que a própria embaixada de Israel também pediu o boicote à presença do Kanye West no Algarve.
É verdade, sim, senhora.
Cria uma fasquia moral a que os outros, de uma maneira ou de outra, independentemente de serem mais ou menos conhecidos, independentemente da questão de gestão de carreira, têm de responder, porque mesmo a não resposta ou o silêncio, a simples participação vai acabar por pô-los num campo ou noutro do combate, porque isto acaba por ser um combate. Agora, estas decisões, quanto a mim, de cancelar por estes motivos, neste contexto em particular, não têm nenhum custo para as pessoas que cancelaram. Não têm nenhum custo e aliás, por isso é que tomam essa decisão. Porque se fosse outro tipo de questões, mas sendo Israel, sendo uma crítica a alguém que defende as posições de Israel em Portugal, no meio artístico, isso não tem qualquer custo para estas pessoas. Pelo contrário, o custo era muito maior se não tomassem uma atitude.
Ou seja, o eventual custo são críticas pontuais e efémeras.
Não interessa.
Exato. Anónimas.
E não são o público destas pessoas e não são pessoas do meio em que esses artistas convivem e do qual fazem parte.
Desculpa, deixa-me só acrescentar uma coisa que vai muito para lá destas questões de Israel e da Palestina, que é: eu acho que o Bruno tem tendencialmente razão, mas em Portugal o meio do humor é muito pequeno e o meio do humor é muito sacana um para o outro. É um meio que tem um ambiente complicado. Portanto, as críticas dentro dos humoristas e as fações dentro dos humoristas são tramadas e tu colocaste-te numa facção, vai te inviabilizar com outra. Ou seja, eu acho que para os humoristas propriamente ditos, há aqui depois algumas questões que não têm a ver com a Palestina, têm a ver com tu tramaste eu não sei quanto.
E que nós, comuns mortais, se calhar não estamos tanto a par.
Pois, e há aqui a questão de isto ser organizado.
É que nós somos escritores, no fundo.
É um pouco como na poesia. A poesia talvez tenha mais essas fações, mas isto é organizado por um humorista, o César Mourão.
E tem humoristas que vêm e humoristas que não vão.
Mas eu acho que se expande, vai mais para além do meio do humor. E aqui há uns tempos eu falei aqui de um livro, "Porque é que os Intelectuais se Enganam?" E uma das explicações do Fito ZZ, o autor do livro, para porque é que os intelectuais se enganam, era precisamente essa: é porque os erros que eles cometem acabam por lhes trazer benefícios dentro do grupo no qual estão inseridos. E é a mesma coisa aqui, isto não vai ter consequência nenhuma para estas pessoas, porque se tivesse, elas não tomavam esta atitude.
Mas também não vai ter necessariamente consequências para quem não cancelou. Ou achas que pode?
O Herman não vai, o Herman não cancelou. O Herman não lhe vai acontecer rigorosamente nada.
Sim, não vai ter, mas o Herman já está num patamar que é um bocado imune a isso. Mas não vai ter consequências dentro desse grupo, dentro dessa esfera. Não tem consequências para essas pessoas. Aliás, as consequências que podem daí advir até são positivas, porque reforçam o prestígio dentro daquele meio. Tem um aro, uma atitude, por uns vai ser lido como corajosa, que eu honestamente, não acho que haja coragem nenhuma. Não digo que seja uma questão de gestão de carreira, porque também não sei se isto terá um impacto na carreira. Tem um impacto na forma como são vistos dentro deste ecossistema.
E se calhar muito especificamente.
Desculpa, não é que eu discorde do Bruno, mas só chamar a atenção para este ponto. O mercado da contratação de humor, os festivais de humor, eles são bastante bem pagos, alguns. Lembro que só têm que levar um microfone e uma T-shirt, portanto, não têm que levar uma carrinha com músicos.
E até podem não levar T-shirt.
Pronto, esperem. E portanto, eu insisto nisto, do ponto de vista estrito da gestão de carreira, eles fizeram bem em cancelar as suas presenças. Eu não estou a dizer que foi essa a motivação, mas é melhor, como acho que é o que o Bruno estava a dizer, é melhor não irem, do ponto de vista da carreira deles, do que irem e assim ficarem com esse anátema, durante ou pode ser um mês ou pode ser 10 anos.
Certo. Rapaziada, afinal-
Não querias dizer que eu concordo ou discordo. Já posso dar a minha posição na segunda parte.
Bem sei. Chegamos ao final da primeira parte do "PopUp". Voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao "PopUp" com o Bruno Vera Amaral, o Pedro Bush Mendes e esta semana também com a Susana Romana, que está sempre pronta para ir a jogo. Estamos a discutir os recentes acontecimentos em volta do Festival Comédia à la carte, nomeadamente os cancelamentos e a participação de Jerry Seinfeld. Susana Romana, há bocadinho estavas a falar aqui do ecossistema dos humoristas. Uma coisa que eu tenho alguma curiosidade é aquilo que vemos em palco, e sabemos disso, de histórias de vidas reais, muitas vezes aquilo que vemos em palco não tem nada a ver com a pessoa, com a vida real, com aquilo que se passa na sua casa, etc. Entre as várias características que um humorista deve ter, é aconselhável ter uma boa carapaça resistente, já que é aquela pessoa que se calhar vai dizer coisas que vão magoar, vai dizer coisas que vão ser polémicas, vai ter que levar com algum backlash.
Ou seja, que o próprio comediante deve ser livre quando cria o seu material, sabendo que tudo o que diz pode eventualmente ser-
E, portanto, se calhar, é preciso ter ali estofo.
Sim. A tua pergunta vai no sentido do que o Seinfeld sentiria em relação a isto ou o que os outros humoristas acham?
Não, geralmente, porque parece-me que o Seinfeld não deve estar muito preocupado.
Para começar, o material do Seinfeld não tem nada a ver com estas questões e o Seinfeld está absolutamente a marinhar para tudo isto. Em teoria, sim, um comediante deve ter uma carapaça dura.
Mas, por exemplo, desculpa, só para explicar melhor Quem cancelou teve que levar com críticas de não sei quem, insultar este e aquele. Quem não cancelou, leva do outro lado e portanto, estão ali no meio, estão em um ringue. Não é só piada, também há muita coisa séria depois a envolver esta atividade.
Eu diria que a maior parte das pessoas que fazem parte deste meio sabem que, como é a expressão, "comes with the job".
Também vão apanhar.
Eu recebi, na rádio em que trabalho, ameaças de morte por causa de um texto sobre Broa de Avintes.
Pois é, porque estás a brincar com coisas sérias.
Pronto. Eu própria não sei muito bem justificar. Até recebi uma vez ameaças de morte por causa de um texto sobre Barbies.
Mas diziam como é que te iam violentar?
O senhor que está à porta da rádio fez questão de não me dar muitos detalhes. Ou seja, a partir do momento em que tudo é um problema, nada é um problema. A partir do momento em que tudo o que tu dizes é esmifrado, analisado e recontextualizado em loop, isso dessensibiliza um bocado para tudo que é.
Banaliza tudo.
Se eu vou ter um problema a falar de Broa de Avintes, de facto, se calhar mais vou falar da Palestina. Problema por problema, ao menos de facto estamos a falar de coisas sérias. A sensação que eu tenho é que a maior parte dos humoristas, pelo menos cá em Portugal, têm carapaça para as grandes críticas, não têm carapaça para as pequenas críticas. Ou seja, dizerem coisas como: "Porque tu falaste não sei o quê, não devias" ou "porque a tua opinião é não sei o quê", estão-se absolutamente a marimbar.
Porque isso não é humor.
E é o trabalho deles, às vezes é serem polêmicos ou é: "eu estou aqui para ser livre naquilo que é a criação do meu trabalho", e acho muitíssimo bem. Quando às vezes eles ficam magoados é: "Mas tinhas uma t-shirt feia". A sensação que eu tenho é que os humoristas em Portugal não se magoam com as grandes coisas, mas são muito sensíveis. Porque, na verdade, ninguém sobe a um palco por outra coisa que não seja ama-me, gosta de mim, seja um comediante, seja um músico, seja o que for. O subtexto, mesmo que os próprios não admitam, é sempre: "Por favor, adorem-me, por favor, amem-me." Ainda por cima, a comédia em que tu tens uma reação imediata e óbvia se as pessoas estão a gostar ou não, que é o riso.
E ainda bem que assim é, porque isso depois alimenta o espetáculo e a criatividade.
Obviamente. Por isso a sensação que eu tenho, estas grandes questões e cancelaste e fizeste e não sei o quê, as pessoas têm orgulho nas suas posições e não magoa a crítica a essas posições. Às vezes as pequenas coisas é que sinto que as pessoas são, se calhar, um bocadinho mais sensíveis.
Pedro Boucher Mendes, tenho a sensação que os humoristas estão mais na moda do que nunca, que são mais famosos do que nunca, pelo menos em Portugal, e que por isso também estão muito mais sujeitos a estas situações, sobretudo estas que sejam mais políticas ou morais, ou que envolvam uma espécie de dever social ou responsabilidade social.
Os humoristas, alguns deles são autênticas rockstars neste momento. Ganham mesmo muito dinheiro. Significa que fazem um trabalho que as pessoas gostam e que as marcas comerciais, como se costuma dizer, adoram. Uma pessoa que trabalhe numa marca poder dizer ao seu colega ou ao seu namorado ou à sua amiga que conseguiu contratar o humorista A, B ou C, é um power move. Como é que se diz?
Uma jogada.
Sim. Antigamente, quando eu comecei na Síndica Radical, nós tínhamos programas de humor, nenhuma dessas marcas ligava pedido ao humor. Tem sido um processo, é uma indústria deste século XXI. Nós tínhamos o Herman José por junto e depois o conto de formação, que sempre foi um tipo de humor político, que não tinha muita audiência, mas tinha muita influência e peso. Depois os políticos fingiam que gostavam das caricaturas.
E abraçavam os nomes, às vezes.
Exatamente, e adoravam e diziam que adoravam. Só para tu veres, e como poderás ler no livro sobre os anos 90, o Presidente Jorge Sampaio considerou o conto de informação a figura nacional do ano em 97, uma coisa assim. Os humoristas hoje em dia têm muito poder, mas também têm uma vidinha. Têm que a ganhar. Apesar da palavra vidinha, não é uma crítica, é: tem que gerir a carreira. Uma das coisas que foi pouco dito a respeito desta coisa da Joana Marques e dos anjos, mas que eu disse e que portanto pensa que estou a puxar a brasa para a minha sardinha.
E que estará no teu livro sobre os anos 2020, em breve.
Foi a coragem. A Joana Marques, gostamos ou não do estilo, digamos assim, tem coragem, coragem objetiva. Não sei se outros humoristas teriam tido essa coragem, mas será que eu estou a exigir que deviam ter? Não, não estou. Estou apenas a dizer que ela teve a coragem. Tanto que depois fez um espetáculo ao vivo baseado na situação.
E vai ter agora um especial na Amazon sobre isso.
E haverá um documentário.
Imagino que já lhe tenham pago o suficiente pra ela ter aceitado, mas o que estou a dizer é: a Joana não se encolheu. Eu não sei se ela se considera humorista, digamos assim. Acho que é uma palavra que, à falta de melhor, a define, mas não sei se ela se considera humorista, como Ricardo Araújo Pereira. Não sei se eles se consideram: "Olhe, boa tarde, eu sou humorista." São autores. São pessoas que intervêm no espaço público, claro, que usam o humor, usam a sátira e usam a graça. Mas a verdade é que os humoristas hoje em dia, alguns pelo menos, talvez uns quatro ou cinco, são agentes culturais muito importantes e muito fortes. Basta ver no Instagram as stories e as histórias que nós vemos de humoristas a fazer nos bancos, nas seguradoras, a beber uma Coca-Cola, a testar uma coisa qualquer
Também tem a sua vidinha e tem que alimentar.
E a fazer muitas entrevistas.
Sim, mas talvez menos do que pareça. Foram muitos podcasts. Porque, finalmente, para acabar, desculpa, os espetáculos ao vivo são uma grande fonte de rendimento.
Claro.
Pronto. Mas certos humoristas não entram em certos teatros. Portugal tem uma rede de pequenos teatros que é bastante bons. Imagina, o teatro de Hadas Ferreira, eu não sei se existe, estou a inventar o nome de uma terra. Se calhar existe, mas como não gosta daquele humorista, porque se calhar não o acha suficientemente de esquerda, isto já sou eu a dizer, esse não entra. Portanto, dá jeito ter também um pensamento de centro-esquerda no humor e nas causas. Quer dizer, em caso de dúvida, mais vale ser a favor da Palestina do que de Israel, se quiseres continuar a atuar ao vivo. No fundo, é isto que eu estou a dizer.
Bruno Vera Amaral, a expressão, e agora entre aspas, "política a mais em cima do palco", isto te faz algum sentido? Existe tal coisa?
Tudo depende, meu amigo. O que é que queres que eu te responda?
Tudo depende.
Vou falar da minha posição enquanto espetador.
É meu amigo, é só isso que eu quero.
Eu acho que pode haver política a mais em palco, no sentido em que o artista, seja ele um humorista, um músico ou um ator, a certo momento pode deixar de estar a utilizar a política como matéria-prima das suas piadas ou até das suas canções, e se torna excessivamente preachy. Ou seja, começa a dar sermões.
E tu queres ouvir as canções e tens que estar ali.
E as canções até podem ter marcadamente um caráter político, e isso não me chateia, não me aborrece, sobretudo se a canção for boa.
O Bruce Springsteen, por exemplo.
Bruce Springsteen, os Manic Street Preachers, eu gosto muito. Muitas canções da banda, algumas e muitas marcadamente políticas.
Para aí 90%.
Sim. Mas se for ver um concerto, por acaso nunca fui ver um concerto deles, mas se for ver um concerto e a certa altura estiver ali num comício político em que parece que só se podem sentir bem as pessoas que forem ou do Partido Comunista ou do Bloco de Esquerda, isso incomoda-me. Mesma coisa se for do outro espectro partidário. Isso incomoda-me. Eu aqui há uns tempos fui ver uma peça de teatro, uma peça de um senhor conhecido, relativamente conhecido, o Shakespeare. O Bill Shakespeare, em que a dada altura, há sempre esta coisa das atualizações e das referências ao presente, a certa altura havia ali uma referência ao Chega. Percebes? E isso aborrece-me. Com certeza que me aborrece enquanto espetador. Claro que para a maior parte do público percebeu, e aquilo era para perceber, era para toda a gente perceber e para toda a gente partilhar ali daquele sentimento. Agora vamos criticar o Chega, como todos nós temos uma aversão, todos nós que estamos aqui temos uma aversão pelo Chega, agora esta referência todos vão perceber e vamos estar todos unidos no mesmo espírito. Eu acho que isso é barato, é fácil.
Mas dito isso, que há um golo fácil, é um golo fácil.
É fácil e incomoda.
Chateia?
Chateia, para mim, na minha opinião, mesmo que tu concordes com as ideias políticas que estão ali a ser declaradas.
Dito isso, que haja total liberdade para poderem fazê-lo.
Óbvio. Se querem fazer, eu acho que fazem em prejuízo próprio e da arte, mas quer dizer, óbvio, são livres de fazer o que bem entenderem.
Sora Romaina, também sobre liberdade para ter graça ou não, e agora de forma mais específica, já que aqui estamos. Porque há umas semanas, não sei se foi quando este festival foi anunciado, outros dois jovens que aqui estão falaram sobre o assunto, mas tu acho que não estavas, que é a questão do até que ponto Seinfeld tem graça, se ainda tem, ou aquela questão muito importante que é: Seinfeld, a série, é uma coisa. E eu acho que tu já escreveste para esta firma observador.pt sobre especiais de humor que podem ser vistos no streaming de Seinfeld e nunca tiveste boa conclusão do resultado final.
Eu sou das pessoas que sustenta a teoria de que o Seinfeld, a série, é boa, agora olhando em retrospectiva, muito provavelmente pelos inputs do Larry David, porque ao ano de 2026, eu acho que o trabalho do Larry David é muitíssimo, é só, é muitíssimo mais interessante que o trabalho do Seinfeld. O Seinfeld, depois da série, a última coisa que eu vi dele era um telefilme da Netflix sobre um criador de seriados que era execrável. Era mau demais. Aquilo nem a um domingo à tarde na RTP em 1992 era bom.
Nem depois de um cozido carregado de vinho.
Sim. Eu por acaso dormi bastante a ver esse filme como se tivesse comido um cozido e um vinho. Eu acho que a carreira do Seinfeld pós-série não é muito interessante. Dito isto, o Seinfeld criou, não criou, mas mainstreamizou e consolidou uma maneira de fazer stand-up, um tipo de maneira de abordar o chamado humor de observação, os detalhezinhos do dia a dia, de ser capaz de olhar para uma situação do dia a dia que é óbvia para toda a gente e virá-lo ao contrário, porque reparas num detalhe em que ninguém repara. Ele era ótimo a fazer isso e ele, de alguma maneira, estruturou um modo de fazer isso que foi válido durante muitos anos e que ele o fazia muito bem. A série, eu não vejo Seinfeld há algum tempo. O humor não envelhece bem, regra geral. Regra geral, as séries que tu adoravas quando eras adolescente, séries de comédia, vais vê-las outra vez, e o humor tem esse problema de que não envelhece espetacularmente bem. Ainda no outro dia estava a fazer zapping e apanhei um daqueles canais agora, acho que se chama mesmo Vintage TV, em que estava a dar o Alf, isso tudo. Eu adorava aquilo, mas em 2026 eu não acho que aquilo tenha grande graça. Por isso eu acho que o Seinfeld fez um objeto de humor importantíssimo e que continua a ser importantíssimo. E eu consigo compreender que ainda haja pessoas que gostam do Seinfeld à pala das nove temporadas da série, que mudaram muito a maneira como se fazia humor em televisão. Mas eu acho que de facto, daí para a frente, a carreira dele oscila entre o desinteressante e o mau.
Pedro Balseiro Mendes, é possível achar piada a alguém com quem manifestamente discordamos?
Creio que sim. Desculpa. Seinfeld tem 72. É um judeu de Nova Iorque. Essa parte é importante. Tem também a coragem de defender com toda a frontalidade Israel vis-à-vis a questão palestiniana.
Que não é estranho para um judeu de Nova Iorque. Ou seja, não é bizarro.
Elogiando Joana Marques pela sua coragem, também devemos elogiar Seinfeld pela sua coragem. Ele teria muito mais a ganhar em estar calado ou ser vago a respeito do assunto.
No seu meio, acho que não.
Dito isto, de facto a série Seinfeld tinha o seu nome, que era uma sitcom. Sitcom, lembrando da outra vez, não de estar sentado, mas de ser situação. É uma das melhores da história, ainda é. Concordo obviamente com a Susana, acho que é uma tautologia dizer que o humor vai perdendo, depois vemos que ele tem gargalhadas enlatadas, pessoas estão vestidas com umas roupas um bocado bizarras. No Seinfeld o que se nota ainda mais é o facto de ele ser um péssimo ator comparado com os outros.
Ele não era ator, ao contrário do resto do cast.
Mas a série é absolutamente genial e nós agora tendemos a achar que é por causa de Larry David, que mantém uma carreira muito forte ao nível criativo, embora esta última coisa feita com os Obama seja muito má.
Mas a série anterior gostaste muito.
Que é melhor.
Recomendaste aqui várias vezes.
"Curb Your Enthusiasm", que é melhor neste momento. Curiosamente, Larry David, que também é judeu, fez esta série com os Obama e tem tido posições anti-Trump. Isto é tudo um bocado estranho. Eu tenho a certeza que os nossos comportamentos típicos tendem a ir em busca da validação daquilo em que acreditamos. Portanto, eu vou ver uma banda com a qual me identifico, vou ver um humorista com o qual me identifico, vou ver uma peça de teatro com a qual me identifico. A arte, obviamente, é uma forma de fazer política também. A questão é muito antiga, não sou eu que vou abordá-la, porque tenho mais o que fazer.
Tens uma reunião a seguir?
Não tenho bateria para isso, não tenho bateria para isso. Ir ver humor ao vivo, por exemplo, já é uma coisa que me cansa. E em Portugal, já agora gostava de saber a opinião da Susana, não sei se ela vai muito, porque os portugueses acham graça a tudo.
É verdade. Ainda no outro dia estive num espetáculo, que por cima era de um comediante estrangeiro. Eu própria estava a dizer: "Vocês estão a bater palmas a tudo. É demasiado, não está a fazer sentido."
Levantaste-te e disseste: "Calem-se!"
Eu vi já espetáculos de humoristas portugueses. Também posso ser eu, que sou um cínico e um azedo.
Não diga isso.
Há essa hipótese. Mas as pessoas vão ver espetáculos de humor porque vão estar com os amigos e depois vão jantar, e depois vão não sei o quê, o que é ótimo, é absolutamente saudável. Ainda bem que assim é. Mas escusam de bater palmas a tudo o que a pessoa diz, desde o bom dia ou boa noite. "Como é que estão?"
Isso quando eles têm determinado estatuto. Ou seja, obviamente que o pobre coitado que está a fazer stand-up num bar no Cacém, isso não lhe está a acontecer.
Mas o estatuto é dado pelo facto de eu ter investido dinheiro no bilhete. Eu ofereci-te o bilhete. "Susana, olha, tenho uma surpresa para ti." "Vamos. Boa, não sei o quê. Onde é que vamos jantar antes?" Claro que a predisposição para achar graça a tudo. E esses humoristas contra a corrente normalmente não têm lugar no billing, portanto, não conseguem alugar essas salas ou não conseguem montar espetáculos a que nós possamos dizer: "Eu não vou." Só os comediantes que estão dentro do politicamente correto, e o politicamente correto é grande, é um território grande, é que de alguma forma conseguem, no fundo os mainstream, é que conseguem levar as pessoas à sala e as pessoas gostam. Ainda agora houve umas turnês de alguns humoristas conceituados em que toda a gente adorou, mas depois na conversa: "Não gostei muito e tal, mas para as redes sociais, genial, fantástico, incrível." E portanto, eu iria ver, interessa mais se um humorista tem piada ou não do que propriamente se eu concordo com as ideias dele ou não.
Bruno, para acabar e muito rapidamente, o consumo cultural entre nós, aqui entre nós.
Nós os quatro?
As pessoas que interessam.
Está dividido em fações, sempre esteve, faz parte ou é um exagero?
Uma parte é verdade. Se calhar podes concluir as orientações políticas de uma pessoa ou visão política do mundo que uma pessoa tem.
Uma certa personalidade político-social.
Se ela disser: "Eu gosto desta banda, e gosto deste realizador, e gosto deste ator, e gosto deste dramaturgo" enfim, ou deste escritor, é possível se calhar fazer essa leitura.
Mas isso não é bem uma fação.
Eu acho que as fações estão a nascer em resposta ao consumo. Ou seja, pega no caso de "A Odisseia". Até podes ir ver, apesar de ter havido muito debate antes de as pessoas irem ver.
Foi um filme.
Sim, mas depois de ires ver, a tua posição em relação ao filme diz muito mais, se calhar, do que tu pensas sobre o cinema, do que tu pensas sobre política. E aqui política num sentido muito lato, desta questão das guerras culturais. Há uma tendência hoje para transformar qualquer debate, um debate que até pode começar por ser artístico, num debate político, neste sentido mais amplo, ou seja, de levar tudo para as questões, e as leituras e as interpretações políticas. E nesse sentido, mesmo que não estejam lá à partida, criam-se fações a propósito de um humorista, a propósito de um anúncio, a propósito da postura de um pivô, de um apresentador de telejornal. E eu acho que isso é mais evidente hoje do que seria se calhar aqui há 20 anos.
Muito bem, final de mais um "Pop-Up". Já sabem que podem escrever-nos para [email protected] e podem seguir-nos nas plataformas de podcast. Nós voltamos na segunda-feira com as sugestões da semana. Até lá.