Seis pilares, 17 medidas e um timing que até calhou bem: movimento Unum apresenta propostas para reforma da arbitragem
Sala cheia, várias caras conhecidas de diferentes movimentos que estiveram nos dois últimos atos eleitorais (de quase todas as listas que foram a votos no derradeiro sufrágio), outros elementos mais conhecidos de diferentes áreas da sociedade, o Benfica como ponto comum de união entre todos. O movimento Unum deu o pontapé de saída para o primeiro de vários encontros de debate abertos a todos os sócios e adeptos encarnados tendo como tema central a arbitragem, “um dos temas centrais para a credibilidade do futebol português”. E foi nesse sentido que, com presenças a convite do ex-árbitro Pedro Henrique, do ex-jogador Paulo Sérgio e do diretor do jornal Marca, Juan Ignacio Gallardo, além das participações com vídeos dos antigos internacionais ingleses Steven Gerard e Alan Shearer, foram apresentados os primeiros contributos.
“O Benfica é dos sócios, por isso pensamo-lo em conjunto”, anunciava o vídeo de apresentação antes da primeira de várias intervenções, neste caso do advogado e ex-secretário de Estado, José Eduardo Martins. “O que somos será aquilo que fizermos. Mais do que uma tertúlia, esta é uma casa de ideias onde podemos estar lado a lado sem nenhum tipo de reserva mental. Aqui queremos escutar, estudar, comparar, rever e entregar. Só queremos ser isso, um contributo. Não nos compete decidir, não estamos cá para isso”, começou por dizer, antes de abordar um timing da apresentação que para todos naquela sala era tudo menos inocente.
“Tivemos essa sorte com o dia, com a FPF e o Benfica a falarem das propostas que tinham. Ótimo, a nós não interessa quem chega primeiro a uma boa ideia. Desde que o movimento foi apresentado tivemos mais de 1.000 registos e mais de 100 contributos. Mas reforço, quem decide são os nossos dirigentes, eleitos e bem eleitos”, acrescentou José Eduardo Martins, antes de passar a palavra ao gestor António Mexia.
“Tive a sorte de liderar as maiores instituições e de poder ajudar a que se tornassem ainda maiores. O Benfica é o 19.º clube mais rico do mundo, o primeiro a aparecer fora das Big Five, o primeiro a nível de rendimentos dos jogadores que forma. A nível de número de sócios, mais ninguém é como nós. Perante isso, temos de crescer e nenhuma organização cresce só a olhar para dentro, tem de olhar também para fora. Ser o maior de Portugal é só um ponto de partida e não um ponto de chegada. Para isso, temos de perceber tudo o que está a mudar, a todos os níveis”, destacou Mexia nessa segunda parte da apresentação.
Era vez de entrar em ação António Simões, o Magriço que foi campeão europeu pelo Benfica e se mantém como uma das maiores figuras da história do clube. Quando ele fala, todos ouvem. Quando ele conta uma história, há silêncio. Quando ele termina, ouvem-se sempre palmas. “Hoje já não vejo muitos jogos de futebol mas aquilo que vejo é que os jogadores não têm respeito por si, pelos árbitros, pelos adversários, até pelo público porque não respeitam o jogo. Acham que tenho algum gosto em ganhar um jogo sem jogar bem ou com um erro do árbitro, mesmo que seja razoável? Não tenho e aprendi isso no Benfica, quando me fiz um homenzinho. Em quase 1.000 jogos, como jogador e treinador, nunca fui expulso. Para mim, isso é mais do que um prémio. Não podemos aceitar os discursos dos dirigentes, nunca. Houve algo que aprendi nos Estados Unidos, quando lá vivia: ganhar não é tudo mas é a única coisa”, começou por referir.
“Agora no último Mundial houve paragens para hidratação. Mas o que é isso? Chamemos os nomes certos, foi um timeout. Isso é chamar patetas a todos os que gostam do jogo. Uma sugestão: façam timeouts, dois por treinador por parte que não podem ser acumulados, mas que fiquem sem eles quando faltarem ao respeito. Numa época de VAR, porque é que um treinador não pode fazer uma paragem também e, se não tiver razão, perde um desses timeouts. Hoje os jogadores empurram o árbitro para o erro, espreitam depois da queda e ainda ficam a discutir. É na formação, nos mais novos, que temos de mudar isso”, acrescentou.
Seguiu-se o momento de apresentação das 17 propostas agregadas em seis grandes pilares, com Jaime Cancella de Abreu a explicar como foram reunidas as ideias que, após terem sido discutidas entre os sócios e adeptos dos encarnados, passaram também por antigos árbitros portugueses e internacionais antes de serem devidamente amadurecidas e apresentadas, seguindo-se uma conversa aberta sobre as principais medidas, incluindo a criação de uma estrutura operacional autónoma para a arbitragem ou a implementação do fora de jogo semiautomático em todos os estádios da Primeira Liga, numa dotação de seis milhões.
As propostas apresentadas para a reforma estrutural da arbitragem no futebol português
Pilar 1. Independência
Quem decide, quem executa, quem avalia e quem fiscaliza passam a estar separados e identificáveis
- Estrutura operacional autónoma: uma unidade com direção, orçamento e prestação de contas próprios organiza a arbitragem profissional, com instalações próprias, incluindo o centro do VAR, fora do perímetro da FPF. Implementação em duas fases. Responsáveis: FPF e Liga entre uma a três épocas
- Governação, nomeações e fiscalização: seleção por competência, mandatos protegidos, incompatibilidade com cargos em clubes, declaração de interesses e fiscalização independente. Nomeações com critérios públicos e rasto auditável. Os árbitros ganham representação consultiva. Responsável: FPF, entre uma a duas épocas
Pilar 2. Profissionalização
A arbitragem de elite passa a ser exercida como profissão, com carreira e escola próprias
- Elite integralmente profissional: contrato, remuneração estável com componente fixa relevante e equipa de suporte para árbitros, assistentes e vídeo-árbitros da Primeira Liga. Transição faseada, com prazo máximo definido. Responsáveis: FPF e Liga, entre uma a duas épocas
- Carreira, intercâmbio e especialização VAR: Escola Nacional de Arbitragem, base de recrutamento alargada, formação acelerada de antigos futebolistas, intercâmbio recíproco com federações europeias, certificação VAR e regras de pós-carreira. Responsável: FPF, entre uma e duas épocas
Pilar 3. Transparência e responsabilização
Avaliar com critérios conhecidos, medir com independência e explicar a tempo
- Metodologia de avaliação pública: critérios, pesos e o peso dos erros na classificação publicados no início de cada época, com contraditório para o árbitro e um relatório anual de dados abertos da arbitragem. Responsável: Conselho de Arbitragem, antes da próxima época
- Painel independente de incidentes-chave: um painel externo e plural avalia as decisões relevantes, publica a fundamentação e cria uma referência comum de acerto e erro. Não tem poder disciplinar. Responsável: FPF, antes da próxima época
- Responsabilização proporcional e proteção: respostas ajustadas a quatro categorias de falha, do erro de julgamento à infração ética. As medidas aplicadas são comunicadas com fundamento e duração. Protocolo contra ameaças e abuso. Responsável: FPF, numa época
- Comunicação de erro em 24 horas: nota preliminar em 24 horas quando há erro material reconhecido e análise técnica completa até à véspera da jornada seguinte ou em cinco dias úteis. Responsável: Conselho de Arbitragem, no imediato
Pilar 4. VAR
O vídeo-árbitro anunciado, publicado, estável e auditado
- Anúncio da decisão no estádio: o árbitro anuncia a decisão e a infração pelo sistema sonoro; estádio e transmissão mostram a imagem decisiva, quando existam direitos e condições técnicas. Responsáveis: FPF e Liga, numa época
- Publicação das comunicações do VAR: áudio e imagem das revisões no monitor, das alterações de decisão, dos checks demorados e dos incidentes selecionados publicados em 48 a 72 horas, com explicação técnica. Responsáveis: FPF e Liga, numa época
- Doutrina pública de intervenção: um caderno com casos reais, publicado no início de cada época, explica quando o vídeo deve intervir. Formação igual para árbitros, treinadores e capitães. Responsável: Conselho de Arbitragem, antes da próxima época
- Auditoria técnica externa anual: um auditor independente, escolhido por concurso, examina o sistema, a imagem, os tempos de revisão e o cumprimento do protocolo, com relatório público e plano de correção. Responsáveis: FPF e Liga, numa época
Pilar 5. Critérios e tecnologia
Os mesmos critérios e os mesmos meios em todos os estádios
- Caderno público de critérios de jogo: orientação estável, com exemplos, sobre penálti, mão na bola, uso dos braços, faltas táticas e disciplina, publicada antes da primeira jornada. Responsável: Conselho de Arbitragem, antes da próxima época
- Fora de jogo semiautomático: sistema certificado em todos os estádios da Primeira Liga, a funcionar em simultâneo, com dotação de planeamento de seis milhões de euros integralmente suportada pela FPF e sujeita a concurso. Responsáveis: FPF com Liga, até à segunda época
- Padrão uniforme de imagem e operação: câmaras, frequência de imagem, sincronização, redundância e contingência definidas no regulamento das competições e verificadas antes da homologação de cada estádio. Responsáveis: Liga com FPF, entre uma a duas épocas
Pilar 6. Integridade e relação com os clubes
Prevenir, detetar e investigar, e dar aos clubes uma via formal
- Programa de integridade da arbitragem: monitorização das apostas em todos os jogos da Primeira Liga, proibição de apostar, canal protegido para reportar abordagens e protocolos de investigação com o Ministério Público. Responsável: FPF, numa época (protocolos, uma a duas)
- Reclamação técnica dos clubes: após cada jornada, cada clube pode submeter reclamações técnicas fundamentadas. A resposta chega até à véspera da jornada seguinte ou em cinco dias úteis e é publicada com a reclamação. Responsável: Liga com FPF, antes da próxima época
[Pela primeira vez em doze anos, Annie regressa finalmente a Lisboa. A revolução está nas ruas e Fernando Silva Pais está preso em Caxias. A filha vai fazer tudo para o tentar libertar, mas também vai aproveitar para festejar — e não só. Já pode ouvir “Uma ‘deusa’ no 25 de Abril”, o quarto episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]