Sem palavras

🗓️ 2026-07-18 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

Das profundíssimas transformações produzidas pela revolução tecnológica da inteligência artificial, uma podemos apontar com nota de evidência. Se as anteriores revoluções industriais e tecnológicas nos trouxeram um exponencial desenvolvimento do trabalho físico – tornando os humanos mais fortes, mais rápidos, mais fisicamente resistentes -, desta vez a novidade é o desenvolvimento do trabalho mental. Daqui decorre a democratização do acesso a um conjunto de competências e execução de tarefas que até agora estava reservado às pessoas com mais recursos. Por exemplo, nem todos dispõem de um consultor fiscal. Com a inteligência artificial todos disporão dessa competência. O número de exemplos é imenso.

Independentemente do carácter dos exemplos, o que temos diante de nós é a substituição do desenvolvimento especializado do trabalho mental pela máquina – uma máquina que, presumimos, será barata, tal como o telefone portátil se tornou barato, democrática e dócil, isto é, infalivelmente obediente. Se é de substituição que estamos a falar, então temos de admitir que, para um número significativo de actividades mentais especializadas, o desenvolvimento humano dessas competências terminará. Essa é a consequência óbvia da substituição.

Mas, em termos gerais, onde houver substituição da actividade mental humana, haverá bloqueio do desenvolvimento das faculdades que secularmente sustentaram essas actividades e, em última análise, atrofiamento delas. Um caso actualmente em estudo é o do uso da memória, faculdade que exige um exercício constante e que enfraquece sem ele. Hoje, espanta as nossas pequenas almas saber que Soljenitsin, escravo do totalitarismo comunista no Gulag, todas as manhãs recapitulava interiormente o que tinha pensado e escrito na sua memória no dia anterior. E foi assim que trouxe do horror do Gulag volumes inteiros que seriam mais tarde publicados. Ou saber que Cícero memorizava palavra por palavra discursos de 3 horas, prática que não era desconhecida dos parlamentares do século XIX. Agora, os auxílios extraordinários da nossa memória, contidos nos telemóveis ligados à internet, já substituem esse exercício que fortalecia. Os americanos até cunharam um termo para este fenómeno: cognitive offloading, ou o ajustamento do cérebro a identificar os lugares externos de repositórios das memórias (factos, teses, etc.) em detrimento de fixar os conteúdos a ser retidos e recordados.

A discussão nos meios literários virou-se, entretanto, para a hipótese de que esta revolução tecnológica está a criar uma “sociedade pós-letrada”. Quer isto dizer, uma sociedade em que a leitura de livros tenha desaparecido como hábito da população, permanecendo fiel a esse arcaísmo apenas uma ínfima minoria. Que uma sociedade desse tipo vem a caminho, parece ser apenas uma questão de tempo. Em Portugal, sabemos que o progresso nas qualificações académicas da população correu nos últimos 25 anos na direcção contrária aos hábitos de leitura como actividade de lazer. Nos Estados Unidos, em 2022, menos de metade das pessoas tinham lido um livro no ano anterior. Em 2004, 28 por cento dos americanos dizia que lia um livro, uma revista ou um jornal por prazer. Já em 2024, esse número tinha caído para 16%. Em contrapartida, em 2025, 57 por cento dos americanos fizera pelo menos uma aposta, actividade crescentemente popular em todo o mundo. É provável que desde então estes números se tenham deteriorado. Tiveram certamente impacto no modo como se escreve na comunicação social e no mercado do livro: artigos curtos, frases simples, vocabulário reduzido.

A previsão da ascensão (ou descida) de uma sociedade pós-letrada não é nova. Está connosco desde os anos 60 e fundamentalmente pelas mesmas razões que temos hoje. Primeiro, a televisão; depois, a comunicação electrónica. É certo que não sabemos o que o futuro nos trará, mas não podemos esquecer que a nossa sociedade, em particular a civilização Ocidental onde esta ainda está enraizada, foi construída por livros e desenvolvida pela leitura de livros. Taxas de alfabetização democráticas abençoaram os primeiros países europeus (e na América do Norte) apenas no final do século XIX e, em muitos casos em que se inclui Portugal, na segunda metade do século XX. Isso pode querer dizer que a sociedade pós-letrada não é apenas determinada pela percentagem de pessoas que lê – foi durante séculos também minoritária na civilização livresca ocidental. Os nossos cérebros, porém, treinados nos últimos séculos para a actividade própria da leitura (e da escrita) ajustar-se-ão no sentido do que agora é proporcionado pelas novas tecnologias e continuará a ajustar-se à pura substituição da leitura por máquinas que essencialmente lêem por nós. Mas as glórias civilizacionais que justamente ainda recebem a nossa admiração e enchem de beleza e densidade as nossas vidas seriam impossíveis sem esse hábito e sem essa actividade que ameaça tornar-se um exclusivo de um pequeno grupo.

E este grupo? Será visto pela restante sociedade como pária ou como agradavelmente excêntrico? Como arcaico ou como protector? Como consciência clarividente ou como estéreis tradicionalistas? Qual será no futuro a actividade que consiga prometer com a mesma eficácia que a leitura a emancipação interior de cada um? E sem essa emancipação interior que restará a nós todos – leitores e não leitores?