Sente que descobriu o sexo tarde demais? Há esperança

🗓️ 2026-09-26 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Segundo os terapeutas, as pessoas com mais experiência não têm necessariamente uma vida sexual melhor

Ian Kerner é terapeuta de casais e família, escritor e colaborador da CNN em matéria de relacionamentos. O seu livro mais recente é um guia para casais. Intitula-se o “Tell Me About the Last Time You Had Sex” [Fale-me sobre a última vez que fez sexo]

Quem é que quer ir a encontros hoje em dia? Os meus pacientes dizem-me que as aplicações transformaram a descoberta de um parceiro num mercado competitivo, marcado por rápidas e fáceis rejeições. Ao mesmo tempo, as redes sociais dão a ideia de que todos têm uma vida amorosa perfeita.

E, para aumentar a ansiedade, há mais pessoas, sobretudo da Geração Z [nascidos entre 1997 e 2002], a dizer-me que se estão a desenvolver sexualmente de uma forma tardia. Sentem que têm pouca experiência sexual quando fazem a comparação com aquilo que consideram ser o típico para a sua idade.

Estes pacientes acreditam que não têm as competências necessárias para serem bons amantes. "Não será algo óbvio quando eu estiver na cama com alguém que tem experiência, que sabe o que está a fazer e o que esperar?". Há muitos a mostrar-se preocupados. Muitos dos que descobrem o sexo numa fase tardia sentem que estão "condenados", que nunca conseguirão chegar a outras pessoas.

A minha experiência diz-me que estas crenças negativas sobre nós acabam, muitas vezes, por se transformar em profecias que se concretizam por si próprias, a menos que haja um confronto direto.

Quando se fala de ser um bom parceiro sexual, até que ponto a experiência importa mesmo? Pode alguém que descubra essa faceta mais tarde compensar o tempo perdido? Pode destacar-se como parceiro sexual? Para obter algumas respostas, recorri a colegas meus em todo o país [Estados Unidos da América] - e não só.

Ter muita experiência sexual torna-nos automaticamente melhores amantes do que alguém com pouca ou nenhuma experiência?

A resposta é não. Os meus colegas concordam que quantidade não é sinónimo de qualidade.

“Ter muita experiência sexual não significa, automaticamente, que sejamos melhores amantes”, explica Justin Lehmiller, investigador do The Kinsey Institute da Universidade de Indiana, em Bloomington. “Ser bom na cama não tem tanto a ver com a quantidade de sexo que já teve, antes com o quão comunicativo e recetivo é com o seu parceiro”.

“Não há ninguém que já tenha ‘visto tudo’, de uma forma que possa ser considera significativa, porque cada parceiro é diferente”, acrescenta Rachel Needle, codiretora do Modern Sex Therapy Institute [Instituto de Terapia Sexual Moderna] em West Palm Beach, Florida. “Cada novo relacionamento sexual é uma oportunidade para ouvir, para se adaptar, para aprender. Estas qualidades são muito melhores indicadores de um sexo satisfatório do que o número de parceiros sexuais que alguém já teve”.

O que é considerado mais tardio do que a média para a primeira experiência sexual?

Os terapeutas não têm uma resposta simples. "Em média, as pessoas nos Estados Unidos têm a sua primeira experiência sexual por volta dos 17 ou 18 anos, mas este número tem vindo a aumentar nos últimos anos. Há um número crescente de pessoas está a chegar à idade adulta sem ter tido relações sexuais", diz Lehmiller.

Num inquérito recente, que foi levaco a cabo por Lehmiller e pelos seus colegas do The Kinsey Institute, 22% dos adultos solteiros entre os 18 e os 91 anos revelaram que ainda não tinham tido uma experiência sexual com um parceiro. "O que faz com que alguém seja considerado 'tardio' tem mais a ver com a sua sensação subjetiva de ter começado tarde do que com a sua idade”, nota Lehmiller.

"Não gosto do termo ‘tardio' quando se trata de experiência sexual", reage Lily Hetzler, que é terapeuta sexual em Nova Iorque. "Isso sugere que há um momento 'certo' para ter relações sexuais, que tem em conta a diversidade de fatores que influenciam a expressão da nossa sexualidade".

Em vez de se perguntar quantas relações sexuais devia ter tido até agora, pergunte-se antes se está a fazer escolhas que lhe parecem certas, aconselha Needle. “Os marcos sexuais não são conquistas que têm de ser desbloqueadas num cronograma”, diz. “O que importa não é se o seu tempo coincide com o de outra pessoa — é se as suas experiências são consensuais, significativas e alinhadas com os seus próprios valores”.

“O termo ‘descoberta tardia’ implica que fazer sexo o mais cedo possível é melhor, privilegiando experiências sexuais precoces de uma maneira que pode ser prejudicial”, junta a terapeuta sexual e psicoterapeuta Rebecca Sokoll, a trabalhar na cidade de Nova Iorque.

Na verdade, começar demasiado cedo costuma ter mais desvantagens do que ir com calma. Muitos dos meus pacientes dizem-me que se arrependem das suas primeiras experiências sexuais, que gostavam de ter esperado até estarem mais “emocionalmente prontos”, para poderem valorizar melhor as recordações.

Quais são os motivos pelos quais alguém espera para ter relações sexuais pela primeira vez?

Segundo um especialista, há menos jovens adultos em relações ou a consumir álcool, o que conduz a menos sexo (Carol Yepes/Moment RF/Getty Images)

Há uma série de motivos para que as pessoas esperem. O sexo pode não ser uma prioridade. Podem ter fortes crenças religiosas, medos ou ansiedade em relação ao assunto.

"Hoje, podemos estar a assistir a mais jovens a descobrir o sexo numa fase mais tardia, porque pura e simplesmente têm menos oportunidades para o praticar”, junta Lehmiller.

Há muitos a viver até mais tarde com os pais. E, como consequência, têm menos privacidade e independência. "Adiar o sexo não tem de significar necessariamente que não o desejem. Podem ser as suas circunstâncias a tornar mais difícil a procura por sexo”.

Nicole McNichols, que é professora da área da sexualidade humana na Universidade de Washington, explica que este cenário faz parte de uma mudança geracional mais ampla. Embora a pandemia de Covid-19, as redes sociais e outros fatores venham sendo apontados como os culpados pelo declínio da atividade sexual entre os jovens adultos, esta especialista observa que os dados apontam para uma razão mais prosaica: há menos jovens adultos em relacionamentos e a consumir álcool.

“A verdadeira questão é: serão coisas necessariamente más? Talvez muito daquilo que, antes, era considerado atividade sexual juvenil envolvesse o álcool de formas que nem sempre eram saudáveis, desejadas ou totalmente consensuais”, nota. “Este declínio pode dizer-nos mais sobre o facto de as jovens mulheres estabelecerem limites do que sobre alguém que perde algo valioso”.

E para os homens gays, o tempo para descobrir o sexo é diferente?

Pode ser. "A maioria dos homens gays, de certa forma, são ‘tardios’ no que respeita ao sexo", diz Amos Wolff, terapeuta de casais e família a trabalhar em Nova Iorque e Nova Jérsia. "Somos considerados heterossexuais até prova em contrário. A atração costuma surgir muito antes de termos a linguagem ou a permissão para a expressar. Definiria a ‘descoberta’ como a primeira experiência sexual em que a alegria supera a vergonha".

"Muitas pessoas queer são estereotipadas pela sociedade como 'viciadas em sexo', hipersexualizadas ou indiscriminadas nos seus desejos sexuais", acrescenta Scott Duquette, terapeuta sexual e de relacionamentos, supervisor da divisão de terapia sexual do Institute for Contemporary Psychotherapy, em Nova Iorque. “Estes estereótipos podem sobrecarregá-las indevidamente com pressões para que estejam conforme as expectativas sociais, apesar dos verdadeiros desejos”.

Contudo, estes desafios não se limitam aos homens gays. “Os meus clientes homens têm muito mais dificuldades quando são o parceiro com menos experiência sexual”, conta a terapeuta sexual e psicoterapeuta Eva Dillon, a trabalhar na cidade de Nova Iorque. “Está bem viva a expectativa cultural de que os homens heterossexuais têm de ser sexualmente habilidosos e ter tido muitas parceiras”.

A falta de experiência significa que alguém está sexualmente condenado ao fracasso? E todos os outros estão em vantagem competitiva?

Quando se trata de falta de experiência sexual, o maior obstáculo costuma ser a insegurança, não a ausência de experiência em si, diz McNichols. “Preocupar-se com o seu desempenho acabar por afastá-lo do momento presente, fazendo com que se desligue do seu corpo, com que fique preso nos seus pensamentos. Esta reação tem mais a ver com ansiedade do que com qualquer outra coisa. Não tem nada a ver com a falta de algum superpoder”.

Na verdade, as pessoas que iniciam a sua vida sexual mais tarde costumam trazer verdadeiros pontos fortes, incluindo a maturidade emocional, uma noção mais clara dos seus próprios valores e uma melhor compreensão do que desejam mesmo de um parceiro, descreve Needle. Estas qualidades tendem a moldar muito mais um relacionamento sexual satisfatório do que uma alegada vantagem inicial. A única desvantagem real vem do facto de alguém acreditar que está em desvantagem”.

Não é algo negativo que alguém tenha relações sexuais mais tarde do que a idade média, insiste Dillon. "Saborear o processo de se tornar um ser sexual — bem como a antecipação de se tornar sexualmente ativo — pode, em última instância, levar a que se aprecie mais profundamente os prazeres do sexo quando este começar”.

Nunca é tarde para ganhar experiência nem para aprender novas competências sexuais. "Trabalhei com clientes na casa dos 70 anos que queriam explorar novas formas de se ligarem à sua sexualidade", exemplifica Hetzler.

Se acha que é ‘tardio’ no que respeita ao sexo, deve dizê-lo a um potencial parceiro?

Não necessariamente. Não deve a ninguém um relato completo do seu historial sexual, vinca McNichols. "Há uma diferença entre alguém ser honesto e alguém sentir que tem de revelar o número de parceiros que já teve”.

Se o assunto surgir naturalmente, ou se quiser que o seu parceiro saiba, uma abordagem breve e objetiva funciona bem: "Gostava que soubesses que não tenho muita experiência”. Não é necessária uma revelação completa não é necessária. Só não finja ser alguém que não é.

Há muito mais probabilidades de o parceiro certo respeitar a sua honestidade do que julgá-lo pela sua experiência.

"Se um parceiro perde o interesse porque, puta e simplesmente, o outro não teve muitas experiências sexuais, provavelmente não é o tipo de parceiro que vá criar uma relação segura, comunicativa e de apoio, que é algo que leva a um ótimo sexo", nota Needle. "Quando uma relação se torna íntima, a forma como as pessoas se tratam importa muito mais do que o seu currículo sexual”.

Há muitas pessoas com um longo historial sexual que têm más experiências. O que estão a fazer de errado? E o que pode alguém com um arranque ‘tardio’ fazer corretamente perante este exemplo?

Ter muita experiência na cama não é sinónimo de se ser um bom amante, afirma a psicóloga Leonor de Oliveira, a trabalhar em Lisboa.

“Um longo historial sexual não se traduz necessariamente na capacidade de alguém perceber e se adaptar às expressões únicas de resposta e prazer sexual do parceiro em cada encontro”, diz. “Alguém que começou a sua vida sexual mais tarde pode estar particularmente atento a esses sinais sexuais específicos e mais aberto ao feedback do parceiro”.

A terapeuta sexual Juliane Maxwald, em Nova Iorque, concorda. “Alguém pode ter tido muitos parceiros e, ainda assim, assentar a sua prática sexual sempre nas mesmas rotinas. Já alguém com menos experiência pode ser curioso, atento e mostrar-se disposto a aprender”, explica.

Ser um bom amante é algo que está relacionado tanto com o autoconhecimento sexual como com a experiência – ou seja, passa por compreender os seus próprios interesses, desejos, limites e aquilo lhe dá prazer, mantendo-se também curioso sobre a perspetiva do seu parceiro”.

Que conselhos daria a quem começa a ter relações sexuais mais tarde? Há formas de ganhar experiência que facilitem esta transição?

Há muita coisa que pode ser feita para construir confiança sexual - mas ter muito sexo casual não está na lista, sobretudo se se forçar a situações com as quais não se sente confortável. Em alternativa, concentre-se antes em aprender aquilo que lhe dá prazer. Não precisa de um parceiro para fazê-lo, nota Duquette.

“Há pessoas que têm muito sexo com parceiros e que têm dificuldade em identificar aquilo que lhes dá prazer”, explica. “Deixe que o prazer erótico seja uma verdadeira prioridade na sua vida. Se houver desejo, tome um banho de espuma; ouça música erótica; perceba quando o seu corpo está excitado e explore essa faceta; deixe-se levar pela sua imaginação. Seja o seu melhor amigo”

Needle recomenda que, quando alguém começa a ter relações sexuais, se deve permitir ser principiante. “Escolha parceiros que o façam sentir-se confortável o suficiente para fazer perguntas, para rir quando algo é embaraçoso, para comunicar abertamente e descobrir as coisas juntos”, aconselha. “O sexo é uma experiência, por isso, algumas coisas só podem ser aprendidas na prática. Ainda assim, não precisa de dezenas de parceiros para aprendê-las. Precisa antes de experiências em que se sinta seguro o suficiente para estar presente, curioso e honesto”.

Fica outro aviso de Sokoll: “Se alguém se depara com um novo parceiro acreditando que já sabe o que ele vai gostar, é provável que esteja enganado e venha a ter uma má experiência sexual. A qualidade do sexo é determinada por cada pessoa envolvida. Permita-se não saber, perguntar, ouvir e perceber em si o que é excitante, estimulante ou agradável”.

E o parceiro de alguém que começou a sua vida sexual mais tarde, o que faz?

Se está a namorar com alguém que se iniciou a sua vida sexual mais tarde, tente resistir à tentação de se ver como o professor dessa pessoa, aponta Needle. “Toda e qualquer relação implica que as pessoas aprendam uma sobre a outra, independentemente da experiência de cada uma. Em vez de se concentrar naquilo que a pessoa ainda não fez, concentre-se em criar um ambiente onde se sinta seguro o suficiente para fazer perguntas, para expressar preferências e ser honesto se algo lhe parecer estranho ou desconhecido. E deve sentir-se confortável a fazer o mesmo”.

Considere-se especial: alguém escolheu, de forma intencional, partilhar consigo as suas primeiras experiências sexuais. “Ter relações sexuais com alguém que se inicia mais tarde na vida sexual pode ser uma honra rara. É um presente envolto em autonomia e vulnerabilidade”, diz Leonor de Oliveira.

E lembre-se: é normal que as nossas preferências e desejos sexuais mudem com o tempo e consoante os diferentes parceiros. Estamos em constante evolução.

“O que uma pessoa deseja sexualmente quando é jovem costuma ser diferente daquilo que deseja aos 30, 60 ou mesmo aos 80 anos”, explica a terapeuta sexual Nanaho Sawano, a trabalhar em Nova Iorque e Nova Jérsia. “As pessoas passam por uma curva de aprendizagem ao longo da vida, independentemente do número de parceiros que possam ter tido em determinado momento”.