Ser nacionalista em 2026

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O nacionalismo não é fácil de definir enquanto conceito abrangente, pois pode assumir várias modalidades. Por exemplo, pode ser religioso (como o nacionalismo hindu), cultural (como os movimentos de promoção da língua basca) ou económico (como as políticas protecionistas adotadas pelas administrações Trump e Biden). A maioria dos nacionalismos não é expansionista nem iliberal (como o foram a Alemanha Nazi ou movimentos de esquerda radical revolucionários ou anticoloniais), mas antes pacífica e perfeitamente compatível com uma democracia liberal. Porém, o termo “nacionalismo” é empregue no discurso político e mediático quase exclusivamente num sentido pejorativo, associado a ideias supremacistas ou extremistas, fruto dos fantasmas do etnonacionalismo racial alemão e do nacionalismo autoritário italiano das primeiras décadas do século XX. Talvez isso ajude a explicar a frase proferida por Emmanuel Macron nas comemorações do 14 de Julho deste ano: “Patriotismo, sim; nacionalismo, jamais.”

Porém, esta simplificação é redutora e equivocada. O nacionalismo tout court mais não é do que a visão política de que importa preservar a soberania e a identidade nacional e promover os interesses da nação acima de tudo. No fundo, é a ideologia que corresponde ao sentimento de patriotismo: a ideia de que devemos amar o nosso país e defender aquilo que o define. Que incompatibilidade existe entre esta linha de pensamento e a preservação das instituições democráticas e das liberdades fundamentais? Talvez devêssemos perguntar a Marcelo Rebelo de Sousa, que afirmou, em 2017, no discurso comemorativo do 25 de Abril, que “a nossa maneira de amar a nação é um nacionalismo patriótico” e já dez anos antes, enquanto comentador televisivo, se tinha definido como “uma pessoa de direita e nacionalista.”

Apesar da dissonância gritante entre as elites políticas e mediáticas e os cidadãos comuns relativamente àquilo que é considerado “bom” e “mau”, o nacionalismo já não pode ser encarado como uma corrente minoritária ou radical, mas antes como uma posição largamente consensual entre as populações ocidentais. Os indivíduos que as compõem reconhecem-se como parte de algo maior do que eles próprias e veem a sua identidade nacional e o seu sentido de pertença ameaçados por uma conceção radical do cosmopolitismo, que encara nacionais e estrangeiros como intercambiáveis, como se a nacionalidade se resumisse à atribuição de um documento de identificação e não também à herança de uma língua, uma história, uma geografia, de valores e práticas distintivas.

Com a conivência da esquerda e da direita, unidas por uma visão liberal da economia levada até às últimas consequências, o globalismo conduziu, por um lado, à adoção de políticas de imigração permissivas e irresponsáveis por parte de países com populações historicamente estáveis e demograficamente coesas; por outro, à renúncia ao modelo da assimilação em prol do do multiculturalismo. Ora, se o maior obstáculo a uma integração harmoniosa reside na entrada súbita e massiva de imigrantes num mesmo território – por favorecer a formação de comunidades paralelas, onde se pode viver convenientemente sem abandonar a língua e as normas sociais do país de origem, muitas vezes contrárias aos costumes locais -, outro resulta da perceção, alimentada pelo moralismo woke, de que exigir um processo de aculturação aos princípios fundamentais do país de acolhimento constitui uma forma de discriminação. Assim, os requisitos ditados pelo mais elementar bom senso para uma integração bem-sucedida (por exemplo, a exigência de igualdade de tratamento independentemente do género, orientação sexual ou religião) passaram a ser apresentados como manifestações de hegemonia cultural. A integração passou a ser entendida como um processo que envolve direitos sem deveres recíprocos, o que resultou na descaracterização de bairros e comunidades inteiras e em dinâmicas de separatismo etnosocial.

Perante isto, ser nacionalista em 2026 surge como uma inevitável reação popular contra a progressiva erosão da identidade civilizacional das sociedades ocidentais. Paremos, por isso, de culpabilizar quem emprega um nacionalismo cívico e democrático para defesa da sua herança cultural, sobretudo quando o faz através dos instrumentos próprios de um Estado de Direito, como o debate público e as eleições. É precisamente isso que se tem verificado na Europa, onde um número crescente de eleitores tem optado por partidos que defendem uma agenda nacional-conservadora. E os que hoje governam, como em Itália, ou participam em soluções de governo, como na Suécia, demonstram que a defesa da identidade nacional e o controlo da imigração não é incompatível com a democracia representativa, a separação de poderes, a economia de mercado ou o Estado social. A avaliação dos movimentos nacionalistas deve assentar menos nos rótulos que lhes são atribuídos e mais nas preocupações das pessoas a quem dão voz.