Ser-se híbrido ou não sê-lo: é esta a questão

🗓️ 2026-09-18 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

A situação de hibridez ocupa, nestes que são os nossos tempos, um lugar de enorme saliência, a roçar a hegemonia.

É a ela que nos referimos com tanta frequência  no domínio estritamente militar, e quando falamos de uma eventual ´invasão` de um país por outro, é já pensando numa contribuição de fatores cibernéticos e meios de software para levar a cabo uma qualquer ação ofensiva: uma paralisação de infraestruturas em setores básicos constitutivos da soberania nacional, por exemplo, poderá significar um sensível enfraquecimento das capacidades de defesa e contra-ataque contra um putativo inimigo. Se os equipamentos militares clássicos convencionais – que entretanto adquiriram, também eles, uma óbvia sofisticação gerada pelas suas novas faculdades digitais – permanecem atuais e insubstituíveis, já não representam contudo a exclusividade dos atributos que acabam por ser determinantes na gestão de um conflito.

Mais no interior da normalidade do nosso dia-a-dia em tempo de paz, e representando uma série tentativa de resposta alternativa ao perigoso agravamento das condições climáticas produzido pelas chamadas energias fósseis – vide as emissões de carbono derivadas da produção e distribuição de petróleo e seus derivados – verifica-se nomeadamente uma profunda transformação na indústria automóvel, com a introdução do modelo de consumo híbrido, ou seja, a possibilidade de se conduzir um veículo recorrendo igualmente à capacidade elétrica : é um sistema que oferece aos cidadãos automobilistas  uma solução intermédia entre o passado e o futuro, ao mesmo tempo que garante, no caso de uma qualquer avaria ou escassez de produto, uma possível superação dos problemas e limites que o acesso a uma só fonte normalmente implica.

E depois, impõe-se a mais relevante de todas as formas híbridas, que ocorre num contexto bem preciso, a saber, o da nossa perceção sobre o mundo que habitamos: numa ocasião histórica marcada por tantas ruturas e medos, geradoras de uma generalizada confusão das gentes, afigura-se normal que uma tendência generalizada vestida de prudência venha a caracterizar os gestos e opções do cidadão comum.

Esta atitude pavloviana, bem conhecida dos estudiosos das ciências do comportamento, surge assim como o resultado lógico daquela instabilidade, e parece sugerir-nos uma clara vitória do bom-senso:  é por isso nosso dever, acolhermo-la sem qualquer tipo de reservas mentais.

Mas, isso dito, não haverá nenhum esqueleto escondido no armário? Porventura valerá a pena admitirmos que essa realidade possa conter sinais de preocupante e contraproducente passividade.

A postura «six-seven» – terminologia utilizada pela geração Z para traduzir uma sensação de indiferença e indefinição – vai objetivamente ao encontro de uma perspetiva que prefere não se enfeudar a uma ou outra realidade , quedando-se assim num território minado de restos de frases ou conceitos retirados do campo da argumentação veiculada inclusive por atitudes diametralmente contrárias: a concórdia, dizem, constrói-se pacientemente através de uma desejável aproximação progressiva entre versões supostamente incompatíveis sobre o caminho a percorrer-se, e num primeiro momento, é já assaz satisfatório confirmar-se o consenso relativo a questões parcelares que merecem uma comum aceitação.

Mas, pergunta-se, quando e como se chegará à etapa em que se formularão os grandes compromissos e correspondentes concessões por parte das ideologias em confronto? Parece claro que uma persistente prorrogação de uma situação de impasse por ausência de vontade coletiva em resolver as vigentes dificuldades, não só alimenta uma sensação de insatisfação- mesmo se apenas larvar- derivada de um indesejável ´empate técnico`, como contribui eventualmente para o agravamento do status quo: não custa a crer que esse esticar excessivo de uma paz podre desencadeará uma acrescida animosidade em relação ao adversário que será acusado de responsável pela paralisante realidade instalada. Relembra-se que o homem, diferentemente do caranguejo, tem como vocação andar para a frente.

Uma das constatações-básicas neste desolador cenário, consiste na observação de que, neste contexto de incrível progresso e sucesso do puro obstrucionismo e polarização, pouco é o espaço consagrado à aglutinadora noção de bem-comum, e que tal dinâmica representa um triste retrocesso civilizacional.

É por isso fundamental – em especial tendo em conta a enormidade dos desafios a exigirem um esforço de todos e cada um com vista a contrariarmos, quanto possível, a tóxica evolução global em curso – que se ponha cobro a este ´estado de sítio`de tendência suicidária. Alguns malabaristas das palavras já vieram a terreiro, para qualificarem este instante histórico de véspera de uma ´IApocalipse`, mas de facto o mal que vemos e sentimos vai muito além das desventuras provocáveis pela dita ´Inteligência Artificial`.

É no homem confiante e competente que tudo começa, mas também pode ser ele, esquecido de muitas passadas desgraças, o primeiro responsável por criar as condições para o seu próprio aniquilamento. A quase cegueira desencadeada por um desproporcionado orgulho nascido dos êxitos económico-tecnológicos verificados desde 1945, marginalizou ao mesmo tempo princípios e valores morais sem os quais é impossível um desenvolvimento económico maduro e coletivo: a figura do ´Homo Deus` foi já objeto de múltiplas reflexões, e inclusive título de obra do famoso historiador e filósofo israelita Hariri. Tudo indica, contudo, que tais estudos e análises não constem nas bibliotecas particulares de muitos dos atuais dirigentes, alguns deles iluminados pela imaginada beleza e imponência do seu umbigo, que tudo o resto dispensa.

A hibridez convida a uma certa preguiça, e para uma sociedade mergulhada na ilusão da felicidade consumista, ao mesmo tempo mantendo-se alheia de qualquer palco onde se fale e cante o futuro, é fácil abandonar-se ao imediatismo e ao´ bom carteiro` das redes sociais que lhe dá notícias todos os dias e a qualquer hora, sem que tal corrupio informativo transforme  o grau de apatia que se habituou a ter como companhia: em vez do slogan que durante décadas se popularizou , o ´do it yourself`, escolheu agora acatar sem rebuço – entregando a poderosos titãs, com um sorriso nos lábios, o seu presente e futuro -, a arrepiante ideia-de-ordem apregoando a prioridade do gozo e sossego próprios de um vegetativo quotidiano.

Já depois de dar por finda esta prosa, fui consultar um dicionário. E então li que a palavra-conceito de hibridez tinha também como sinónimos, os seguintes vocábulos: anomalia, desvio, irregularidade.