Tarifas dos EUA: setores cobram firmeza do governo - 23/07/2026 - Economia - Folha
Os setores afetados interpretam a decisão do governo Donald Trump de impor uma nova tarifa ao Brasil como mais um golpe à competitividade das exportações aos Estados Unidos, que tende a aprofundar a retração do comércio entre os dois países.
"A medida também poderá elevar custos para empresas e consumidores norte-americanos, fragilizar cadeias produtivas integradas entre os dois países e afetar os investimentos bilaterais", diz a Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio para o Brasil).
Anunciada nesta quinta-feira (23), a nova tarifa de 12,5% foi aplicada com base na Seção 301 da Lei do Comércio, em uma em uma investigação sobre supostas falhas no combate à importação de produtos feitos com o uso de trabalho forçado, e começará a ser aplicada a partir da 01h01 desta sexta-feira (horário de Brasília).
Para alguns produtos, a tarifa deve se somar às sobretaxas de 25%, chanceladas na semana passada e em vigor desde terça (21).
Nos cálculos da Amcham, a nova fase do tarifaço deve alcançar cerca de 3.000 produtos brasileiros, que correspondem a US$ 12,5 bilhões em exportações anuais aos Estados Unidos. Para 85,3% desses itens, equivalentes a US$ 10,7 bilhões, a tarifa de 12,5% se somará à de 25%, resultando em sobretaxas de 37,5%.
"A nova tarifa amplia os impactos negativos sobre as exportações brasileiras, com diversos setores sujeitos a sobretaxas expressivas de 37,5%", afirma Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil.
Essa também é a visão de José Velloso, presidente-executivo da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos). O setor foi afetado pelas duas tarifas e está sujeito a uma sobretaxa cumulativa de 37,5%.
"Isso tira ainda mais nossa competitividade contra produtos, máquinas e equipamentos fabricados nos Estados Unidos. Prevemos uma queda entre 10% e 11% nas nossas exportações para o país", afirma.
Velloso avalia que a motivação do governo norte-americano nesta nova leva de tarifas é de cunho político. "Foi uma resposta da Suprema Corte norte-americana que, lá em fevereiro, proibiu o governo Trump de taxar produtos sem uma motivação clara. Agora tem uma, e é o suposto trabalho forçado."
O presidente-executivo da Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados), Haroldo Ferreira, afirma que a medida aumentará a diferença entre as taxas cobradas do Brasil e de outros países fornecedores do produto, como Indonésia e Camboja. "Perderemos ainda mais mercado para esses concorrentes", afirmou em comunicado.
No início da semana, a indústria de calçados já havia revisado sua projeção de queda nas exportações totais, de 3,6% para 7,1%.
A Abimaq e a Amcham defendem que o governo brasileiro não adote medidas de reciprocidade, em coro a outros segmentos com quem o Executivo se reuniu no início da semana.
O ministro da Indústria, Márcio Elias Rosa, e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) escutaram as demandas empresariais na terça-feira e pediram estimativas de impacto do tarifaço, mas não indicaram em detalhes quais políticas de mitigação o governo adotará, tampouco que uso farão da Lei da Reciprocidade.
As entidades defendem a retomada das negociações entre os dois países, visando um entendimento bilateral. "As medidas de reciprocidade apresentam elevado risco de provocar uma escalada política e comercial, agravando os impactos econômicos para empresas, trabalhadores e consumidores brasileiros", diz a Amcham.
A FIEMG (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais) também aposta na intensificação das negociações diplomáticas como via principal para reduzir o tarifaço, mas cobra do governo Lula (PT) "atuação firme, técnica e coordenada".
"O Brasil precisa agir com firmeza, rapidez e capacidade técnica para evitar que essa nova tarifa comprometa ainda mais a competitividade da indústria nacional. A prioridade deve ser ampliar as exceções, garantir previsibilidade às empresas e construir uma solução negociada que preserve contratos, investimentos e empregos", disse a coordenadora de Negócios Internacionais da FIEMG, Verônica Winter.
Isso, segundo a federação, sem abrir mão dos instrumentos de defesa dos interesses nacionais, como a Lei da Reciprocidade. Mas a "prioridade deve ser a construção de uma solução negociada que preserve o espaço dos produtos brasileiros no mercado dos Estados Unidos e assegure condições mais equilibradas de competição".
A Lei da Reciprocidade permite ao Brasil adotar contramedidas comerciais e diplomáticas proporcionais quando países ou blocos econômicos impuserem barreiras injustificadas aos produtos brasileiros. O texto também prevê consultas diplomáticas coordenadas pelo Ministério das Relações Exteriores, possibilitando a resolução de conflitos de forma negociada antes da aplicação de contramedidas.
Em nota nesta quinta, o governo Lula rechaçou a nova tarifa. "Na ausência de base legal interna para sustentar sua política comercial protecionista, o USTR (Escritório do Representante do Comércio dos EUA) optou por manipular tema caro aos direitos humanos e à luta dos trabalhadores e trabalhadoras em todo o mundo para acusar 59 países e a União Europeia de práticas desleais", diz a nota oficial.
Assim como na nota emitida pelo governo na aplicação das últimas tarifas, a gestão voltou a falar em acionar os mecanismos da Lei da Reciprocidade, além de recorrer à OMC (Organização Mundial do Comércio).
"Tendo em vista o caráter completamente arbitrário e injustificado das tarifas anunciadas contra o Brasil, iniciaremos imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, e levaremos o tema ao mecanismo de solução de controvérsias da OMC."
O presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria), Ricardo Alban, disse à imprensa ter recebido do ministro Márcio Elias Rosa a garantia de que o Brasil continuará na mesa de negociação com os EUA.
"Saímos daqui muito satisfeitos com a afirmação categórica do ministro de que o Brasil vai continuar negociando."
Folha Mercado
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A CNI propôs ao Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) que crie uma "missão" sobre internacionalização dentro da Nova Indústria Brasil, a política de industrialização capitaneada pelo governo federal.
O Mdic teria, segundo Alban, concordado em constituir grupos de trabalho sobre o tema. Questionado sobre a nota do governo que fala em acionar "imediatamente" os trâmites da Lei de Reciprocidade após a aplicação da nova tarifa de 12,5%, Alban disse não esperar que o governo vá, de fato, recorrer à lei.
"O que eu estou entendendo da palavra acionar é fazer o estudo de qual opção acionar. Não significa usar. Acionar não significa implantar."