Sobrevivente de massacre de Utoya diz que sociedade não cumpriu promessas
No dia 22 de Julho de 2011, Magnus Håkonsen era um dos cerca de 600 participantes num acampamento da juventude trabalhista norueguesa, quando Anders Breivik desembarcou na pequena ilha de Utøya e atirou a matar sobre quem encontrou.
Breivik punha assim em prática os seus ideais de extrema-direita, anti-Islão e anti-imigração.
Hoje com 33 anos, Magnus vê no seu trabalho como professor e enquanto membro de um grupo de apoio às vítimas, um meio de preservação da memória dos atentados e de luta contra as ideias que o inspiraram.
"Temos que ensinar o 22 de Julho para que os alunos saibam o que é o extremismo em todas as suas facetas", diz. "É uma forma de os mantermos afastados dessas ideias. Temo que muitos deles não valorizem a democracia como deveriam. Quando existe apatia e cansaço em relação à democracia, começamos a ver algumas pessoas a ser atraídas por ideias extremistas", sublinha.
As convicções por detrás dos atentados de 2011 podem ser lidas no manifesto de Breivik. No texto de cerca de 1500 páginas, o terrorista justificou o uso de violência para salvar a cultura cristã ocidental, para além de defender que a elite política europeia e o mundo islâmico têm um acordo secreto para que o Islão tome o poder na Europa. O partido trabalhista, que faria parte desse plano, era descrito como traidor da pátria.
A ilha de Utøya, a cerca de 32 km de Oslo, é anualmente palco do acampamento da juventude trabalhista norueguesa. Em 2011, Magnus era um jovem politicamente activo: fazia parte da direcção regional da juventude do partido trabalhista norueguês e era candidato às eleições municipais.
Depois do atentado, continuou o seu envolvimento político, uma tarefa dificultada pelas ameaças que passou a receber.
"Recebi muitas ameaças quando estava na política. Coisas do género 'Quem me dera que o terrorista tivesse melhor pontaria, para que também tu tivesses morrido'. Foi horrível", recorda.
A experiência de Magnus não é única. Um artigo de 2023, publicado no contexto de um largo estudo apelidado "Estudo Utøya" e liderado pelo Centro Norueguês para o Estudo da Violência e do Stress Traumático, revela que muitos dos sobreviventes que continuaram politicamente activos reportaram receber ameaças com menções a Utøya.
Hoje, Magnus é professor e pai de uma menina de um ano. Diz estar a passar uma fase boa, mas o caminho até aqui não foi fácil.
"Quando aconteceu [o ataque], foquei-me na minha carreira. Estava no último ano do secundário, queria acabar o ano, começar os estudos superiores e arranjar emprego", diz. "Mas seis ou sete meses depois de arranjar trabalho, comecei a ter ataques de pânico graves, porque eu nunca tinha falado com ninguém sobre o que vivi".
Magnus conta ainda que nessa altura não dormia mais do que duas ou três horas por noite, uma experiência partilhada por outros dos que viveram o atentado de perto, como o comprova um estudo de 2021 da Universidade de Oslo.
De acordo com o "Estudo Utøya", o atentado deixou um longo lastro psicológico nos que o viveram directa ou indirectamente.
Stress pós-traumático, ira, tristeza, ansiedade, problemas de sono, dores de cabeça e fatiga são alguns dos efeitos identificados pelo estudo, não só entre os sobreviventes, mas também entre os pais. Estes efeitos, dizem, criaram obstáculos a estes jovens no momento de entrada na idade adulta.
"Não existia nenhum modelo predefinido de como a sociedade norueguesa devia proceder. Acho que em momento algum terá sido fácil saber o que fazer", diz Magnus sobre o rescaldo dos atentados.
"A união e os encontros nas ruas foram importantes. Mas depois de estes encontros terminarem, não creio que tenhamos sido capazes de cumprir a promessa de que teríamos mais democracia e abertura, mas nunca ingenuidade", diz referindo-se ao lema usado pelo primeiro-ministro de então, Jens Stotenberg.
"Penso que não cumprimos as promessas que fizemos enquanto sociedade, porque não demorou muito até que outros partidos começassem a acusar o Partido Trabalhista de utilizar o seu "cartão Utøya" como argumento nos debates políticos", critica.
Para Magnus Håkonsen, no rescaldo dos ataques, o Estado e a sociedade estiveram presentes para as necessidades imediatas. Mas, diz, esse apoio não se manteve. "Acho que não estavam cientes de que os efeitos a longo prazo seriam tão severos como foram para muitas pessoas. Quando se trata de questões de saúde, ser capaz de manter um emprego, ter liberdade financeira, ter uma visão otimista do futuro, muitas pessoas [sobreviventes] não têm isso".
"Precisamos que nos oiçam, para que o Governo esteja mais preparado caso algo do género volte a acontecer. E uso a palavra 'devia', embora devesse usar 'quando', porque sabemos que nem sempre é possível estar 100% preparado. Acreditamos que temos a competência necessária para que o governo nos ouça e utilize como especialistas", conclui.
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