Sofia morreu em Almada após 8h em carro pessoal de funcionária de creche
Sofia, de 18 meses, morreu ontem, em Almada, após passar oito horas ao calor, num Peugeot 5008. Morreu à espera. À espera que alguém se lembrasse que tinha sido entregue pela família à funcionária do Colégio Mestre Cuco - que fazia o transporte das crianças - e que devia ter dado entrada no berçário, localizado na zona do Pragal.
Só quando a mãe a tentou ir buscar, já perto das 16h, é que os funcionários da creche, que frequentava há cerca de um ano, perceberam que algo de errado tinha acontecido. Após alguns momentos de atrapalhação, encontraram a menina, mas era tarde demais. Tinha ficado esquecida dentro do SUV cinzento, junto a outro polo da instituição, localizado na Avenida do Cristo Rei.
Ainda foram mobilizados bombeiros e INEM e efetuadas manobras de reanimação, mas sem sucesso. O óbito da bebé foi declarado no local.
Menina transportada em viatura pessoal da funcionária?
A morte da pequena Sofia, na quinta-feira, 23 de julho, espoletou várias questões que ainda não têm resposta. Alegadamente, segundo vários meios de comunicação social, entre os quais a SIC Notícias, o veículo que fazia o transporte dos bebés e crianças do colégio Mestre Cuco era pessoal.
A carrinha não tem qualquer referência ao colégio. A única evidência de que é usada para transportar crianças é o dístico que assinala as viaturas usadas no transporte de menores até aos 16 anos e que obriga os condutores dos mesmos a ter uma certificação especial para transporte de crianças.
Outra das questões que tem surgido é o facto de ninguém ter reparado na menina no interior do veículo, num local onde passam, por dia, centenas de turistas para visitar o Cristo Rei.
A justificação pode estar no facto de o lugar onde o carro estava estacionado levar com o sol direto o dia inteiro e este ter os vidros escuros e fechados.
Viagem durava cerca de 10 minutos
Já de acordo com o Observador, a viagem da casa da menina até ao infantário onde ontem devia ter sido entregue em segurança demora cerca de 10 minutos. São 3,7 km entre a residência onde vive a família e o Colégio Mestre Cuco.
O que se passou para Sofia ter sido esquecida numa viagem tão curta não se percebe. Pelo menos por enquanto. O que se sabe é que houve uma série de "procedimentos que falharam", como realçou a diretora técnica da Associação para Promoção da Segurança Infantil (APSI) à Renascença.
Para Sandra Nascimento, a atuação do condutor do veículo e da suposta auxiliar que acompanhava as crianças não obedeceu a um conjunto de regras elementares.
"Na nossa perspetiva, há um conjunto de procedimentos que falharam. Há uma verificação que deve ser feita sempre no final de cada viagem, para garantir que não ficou nenhuma criança esquecida. Também contar as crianças à saída ou ter uma lista das crianças que entraram [no autocarro] e as que foram deixadas", explicou, apelando ao aumento da segurança do transporte escolar e revisão das medidas.
"Há aqui dois pontos que poderão reforçar a segurança das crianças. A formação dos vigilantes, por um lado, e o aumento do número de vigilantes nos pesados de passageiros e a obrigatoriedade de vigilantes nalgumas situações, como nas carrinhas de nove lugares, pelo menos, até ao final do 1.ª ciclo", evidenciou, lembrando que nos autocarros escolares a lei só prevê um vigilante por 30 crianças.
PJ a investigar. Porquê?
Entretanto, a Polícia Judiciária (PJ) revelou à agência Lusa que está a investigar o caso. À SIC Notícias, um ex-inspetor chefe desta polícia, explicou porquê.
Segundo César Afonso, é necessário "averiguar se existiu alguma violação nos deveres objetivos dos cuidados", não devendo limitar-se o caso a uma "questão de negligência".
O antigo inspetor defende que é preciso estudar e analisar todas as "questões subjacentes", desde averiguar quem conduz e utiliza a viatura escolar e em que condições se encontrava o veículo. O Ministério Público (MP) pode, por isso, ter decidido transferir o caso para a alçada da PJJ por questões de recolha de prova ou até de meios laboratoriais mais eficazes.
"Fazer exames para saber quais são as temperaturas que a viatura atingiu durante o dia, quais são as condições internas. É preciso compreender em que circunstâncias aconteceu o facto", frisou.
Ainda não era noite quando o Peugeot 5008 onde morreu a pequena Sofia foi recolhido para ser analisado por especialistas forenses da PJ.
Já o corpo da bebé foi transportado para o Instituto de Medicina Legal (IML), onde será agora submetido a autópsia para determinar as causas da morte.
A investigação permitirá concluir a hora da morte ou até se existiam outras questões de saúde que podiam ter influenciado o desfecho. Também será averiguado o papel de todos os intervenientes no esquecimento da criança, desde quem seguia na viatura até aos responsáveis por cumprir os protocolos de contagem na chegada e saída das crianças à creche.
Para já não há detenções.
Temperaturas dentro do carro sobem 10ºC em 10 min
Em Almada, as temperaturas atingiram na quinta-feira à tarde valores próximos dos 30ºC, ou seja, dentro do veículo a temperatura seria muito superior.
Especialistas defendem que a temperatura no interior de um carro estacionado ao sol pode subir 10 ºC em apenas 10 minutos. Ou seja, o habitáculo atinge facilmente entre 60 ºC e 80 ºC num dia de calor.
São vários os casos já reportados no nosso país de incidentes semelhantes, de crianças que morreram após terem sido esquecidas dentro de veículos.
Em maio de 2021, uma mãe esqueceu-se da filha de dois anos no carro, na Avenida Miguel Bombarda, em Lisboa. Em setembro de 2023, um pai esqueceu-se da filha de 10 meses no veículo estacionado no Campus da Faculdade de Ciências e Tecnologia, no Monte da Caparica, Almada. Ambas acabaram por ser encontradas já mortas.
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