Foucault: sonho libertário com LSD foi soterrado por Trump - 17/10/2026 - Ilustríssima - Folha
[RESUMO] Repórter percorre itinerário de Michel Foucault em viagem de 1975 ao Vale da Morte, onde tomou LSD pela primeira vez. Meio século depois do fim de semana relatado no livro "Foucault na Califórnia", psicodélicos estão de volta, não como elixir da contracultura dos anos 1960, mas desprovidos do ímpeto emancipador, diluídos como lenitivo para a infelicidade individual no deserto do realismo capitalista.
Michel Foucault, cujo centenário de nascimento foi celebrado na quinta-feira (15), tem uma obra estabelecida. Nem sempre, porém, seu pensamento abrasador, mais presente em outros tempos, é lembrado por uma passagem singular de sua biografia: o fim de semana, em maio de 1975, em que ele tomou LSD num deserto da Califórnia e viveu momentos transformadores. Em abril passado, fui buscar ecos daquela experiência em dois dias de viagem solitária de carro pela paisagem de outro mundo.
"Foi uma grande experiência, uma das mais importantes da minha vida. E não me refiro apenas à noite no Zabriskie Point, mas ao nosso encontro e aos dois dias que passamos juntos", escreveu Foucault dias depois a Simeon Wade, o anfitrião.
A carta está no livro "Foucault na Califórnia: Filosofia e LSD no Vale da Morte" (288 págs., editoras Elefante/Grafatório), que reúne o relato de Wade e comentários de Heather Dundas, Júlio Delmanto, Felipe Melhado, Antonio Pele e Tony Hara.
Ao lado de Michael Stoneman, Wade recebera Foucault em Claremont, cidadezinha onde dava aulas na escola de pós-graduação local após doutorar-se em história na Universidade Harvard.
Aficionado pela obra do francês, teve um "delírio de grandeza" e o convidou para um experimento em que seria o alquimista e relator, com a fórmula Michel Foucault + Pedra Filosofal + Vale da Morte + Michael Stoneman. Foucault topou.
A Califórnia ocupava amplo território na geografia mental dos três psiconautas. Simeon cruzara os EUA como refugiado de Harvard, movido pelo impacto que lhe causara o filme "Zabriskie Point" (1970), de Michelangelo Antonioni. Em um clube gay conheceu Stoneman, com quem viveria até a morte do companheiro em 1998.
Foucault estava visitando a universidade estadual em Berkeley e cogitava mudar-se para o estado, que via como terra de liberdades e possibilidades. "O que eu particularmente gosto no Brasil, e também na Califórnia, nesse sentido, é que os garotos não são orgulhosos nem arrogantes", disse aos novos amigos, segundo Wade.
"Ao contrário da Europa, eles não ficam se achando; estão à vontade com o próprio corpo. São acessíveis. Um pouco como na Grécia Antiga." E mais: "Tenho a impressão de que a Califórnia se afastou do continente e está flutuando em direção à Ásia. Agora entendo por que as pessoas que vivem aqui, quando viajam para fora, dizem que são mais da Califórnia do que dos Estados Unidos. [...] A Califórnia e os Estados Unidos não são a mesma coisa."
Meio século separa esse otimismo solar da Califórnia de hoje, epítome dos EUA onde reinam as big techs, a herança da contracultura se resume a jeans rasgados e megastores de cannabis, com ex-hippies a circular em carros autônomos Waymo ou viajando para o Burning Man com seus Teslas.
Em 1975 a ingenuidade fazia algum sentido, embora o filme de Antonioni, a que Foucault só assistira pela TV, já prenunciasse a domesticação da rebeldia que o neoliberalismo viria a impor.
Antonioni não fora a única motivação para a viagem do trio. A locação já tinha sido destino de incursões lisérgicas de Wade e Stoneman, de resto bem escolhida por eles e pelo cineasta italiano. Poucos lugares do planeta têm horizontes tão largos e eloquência geológica comparável.
Ao repetir o percurso de Foucault ao Vale da Morte, exatos 51 anos depois dele, anotei no caderno de repórter viajante e sóbrio: "O deserto parece coisa de Yayoi Kusama, tufos de vegetação pontilhando tudo que não é montanha e rocha", releio. "Tem algo de Patagônia e de caatinga, essa secura altiva, mas os espaços parecem maiores. O céu, nossa, como cabem ali tantas nuvens? Não espanta que Foucault tenha preferido ficar calado em parte do trajeto, é de tornar humilde qualquer (não) cristão."
Segundo conta Wade de sua tagarelice filosofante, silêncio foi uma reação comum do pensador que quatro anos antes havia entrado para o Collège de France. As conversas triviais por vezes lançavam migalhas ao apetite do norte-americano, como na confissão de Foucault de que frequentara festas na França em que havia LSD, mas seu namorado recusava pelos dois.
"Talvez ele resista aos alucinógenos porque tenha uma maneira peculiar de se relacionar com o próprio corpo. Afinal de contas, nós somos nosso corpo". Após uma pausa: "E algo mais". Sua primeira vontade foi experimentar meia dose, mas a dupla da Califórnia o convenceu a enfiar o pé na jaca lisérgica.
Em algum ponto da Artist’s Palette, circuito de mão única ao longo de escarpas multicoloridas por um verde improvável, Foucault "lambeu a ponta do dedo e pressionou a substância em seus dentes inferiores", perguntando quanto demoraria para fazer efeito.
Stoneman explicou que o acelerariam com maconha e Grand Marnier (licor francês). Dali se deslocaram para Zabriskie Point, belvedere cercado de monumentos como Telescope Peak e Manley Beacon, com rochas listradas pela profundidade do tempo geológico, dunas congeladas e uma planície de sal no fundo que motivou Wade a compor um quase haicai: "O lago seco não é mais que uma enchente esquecida".
Chegaram lá no crepúsculo e ficaram até o amanhecer. Foi na alvorada também que pude contemplar o Sol tingindo lentamente os cumes de rosa. Não estava só como eles, às 6h, como havia imaginado em desaviso; ao menos duas dezenas de veículos já enchiam o estacionamento.
Sentei-me num dos poucos lugares restantes na mureta e tomei café da manhã com goles discretos na garrafinha de Chardonnay, na impossibilidade de elixir californiano mais apropriado.
A brisa virava as páginas do volume com a capa rosa-choque em que o filósofo careca se acomoda sobre a mesma mureta, sorridente, com a blusa de gola rolê e os óculos de sol de moldura grossa, ambos de um branco marcante.
Lembrei-me da cena em que o vento folheou o Evangelho que repousava sobre o caixão do papa João Paulo 2º na praça São Pedro em outro abril, o de 2005.
Foucault não foi o último a ter uma epifania no local e sob influência de LSD, embora o cenário propício deva ter contribuído para amplificá-la até o ponto de mutação. "O céu explodiu e as estrelas estão chovendo sobre mim. Eu sei que isso não é de verdade, mas é a Verdade", disse o filósofo enquanto ouvia Elisabeth Schwarzkopf cantar "As Últimas Quatro Canções" de Richard Strauss, como narra Wade.
O jovem lhe pergunta se haveria possibilidade de toda a humanidade tomar a substância e experienciar algo como o que viviam naquela noite. "Eu gostaria que fosse possível", Foucault responde, segundo Wade com melancolia. "A única coisa na minha vida que posso comparar com essa experiência é fazer sexo com um estranho. O contato com um corpo estranho provoca uma experiência de verdade similar à que estou sentindo agora."
Foucault morreu em 1984, com Aids. Os temas de liberdade, militância, prazer e morte já tinham ocupado o centro do filme "Zabriskie Point", que começa com um debate estudantil em Los Angeles sobre usar ou não violência contra a classe dominante e sua polícia.
Mark discute com militantes negros radicais, deixa a reunião depois de declarar-se disposto a morrer, compra uma arma, vai preso, deixa a cadeia, furta um avião e sai voando sobre o deserto.
Daria viaja em direção a Phoenix para encontrar o chefe e amante, Lee, e também está em busca de um lugar tranquilo para meditação. Seu carro velho passa a ser perseguido por Mark com voos rasantes.
Ele pousa, e o flerte motorizado termina com os dois estranhos fazendo sexo em Zabriskie Point, cena que evolui para a multiplicação surreal de parelhas e grupos copulando, uma orgia luminosa sobre areia e rochas.
Depois Mark e Daria pintam juntos o avião roubado com motivos psicodélicos e frases como "No War" (sem guerra) e "No Words" (sem palavras). Daria segue viagem, e Mark retorna a Los Angeles, onde é assassinado pela polícia.
Daria chega à mansão de Lee em Phoenix, fica sabendo da morte de Mark e abandona a casa. Dirige algumas centenas de metros e, ao descer do carro, contempla a mansão e testemunha (ou imagina) de vários ângulos a explosão da propriedade que lança ao ar, em câmera lenta, ícones do consumismo: roupas, TV, geladeira de frutas e frangos, uma caixa de cereal Kellogg’s, móveis, revistas —tudo sob os urros da guitarra de Pink Floyd em "Come in Number 51, Your Time is up" (apresente-se, número 51, seu tempo acabou).
Atores amadores, os dois também se chamavam Daria (Halprin) e Mark (Frechette), eram amantes e tomavam drogas juntos na comunidade Fort Hill. Após ser condenado por assalto de seu grupo radical a um banco de Boston, Frechette morreu aos 27 anos, na prisão, por asfixia sob o peso de um haltere. Halprin faria ainda alguns filmes, mas deixou a carreira de atriz e se tornou terapeuta corporal.
O livro de Wade, em contraste, trata pouco do levante político da contracultura. O tema emerge quando o professor de Claremont descreve debates de Foucault com estudantes após a conferência que servira de pretexto para a visita.
Mas surge de maneira oblíqua, com Foucault expondo o conceito de arqueologia, como ao escavar as fundações mitológicas do sistema de poder oferecidas pela normalização disciplinadora, sob constante vigilância no modelo panóptico de Jeremy Bentham para prisões e manicômios.
"Acho que nossa sociedade e o que somos têm uma dimensão histórica profunda, e nesse espaço histórico os eventos discursivos que aconteceram séculos atrás, ou anos atrás, são muito importantes", responde o pensador, que se define como jornalista. "Estou interessado no presente. Uso a história para entender o que está acontecendo conosco agora."
Sobre o trabalho intelectual, o filósofo recorre à metáfora pirotécnica para afirmar que não basta construir "ferramentas bonitas, úteis ou divertidas", mas sim bombas: "Eu gostaria de escrever livros-bombas", arremessou como que um petardo à plateia. "Tempos depois, os historiadores poderiam relatar que tal ou tal livro foi útil como uma bomba e bonito como fogos de artifício."
O clarão admirável de seu pensamento esmaeceu, verdade. Cabe agora a historiadores —ou jornalistas— recuperar o que ele iluminava nos idos de 1975. O aluvião contestador da contracultura já se sedimentava, então, no deserto de sal em acumulação pelo neoliberalismo, ou no que Mark Fisher chamaria de realismo capitalista.
O princípio de realidade, em versão individualista, se impôs ao princípio do prazer, sobretudo na acepção de gozo coletivo e libertador vislumbrado na mobilização pacifista, no orgulho gay, na consciência ecológica e na comunidade psicodélica.
Fechava-se assim a via emancipadora sonhada por Foucault sob efeito do LSD e de dois dias na companhia helênica de Wade e Stoneman.
"Acho que esses encontros não fazem sentido se não derem a todos nós um prazer intenso e recíproco e ao mesmo tempo serenidade", escreveu-lhes por carta logo após. "Temos de encontrar um jeito de fazer do princípio de prazer um princípio de realidade. Isso, penso eu, é um problema ético e político a ser resolvido nos tempos atuais."
O desafio permanece, meio século depois. Embora alguns enxerguem na "virada ética" de Foucault uma despolitização após a viagem californiana, quando destruiu o que já havia escrito para a continuação da "História da Sexualidade", reorientando-a para o uso dos prazeres e o cuidado de si, carece decerto de ressuscitação o empuxo coletivo daquela maré montante psicodélica e contracultural.
O sonho acabou, ou só está esquecido? Há como revivê-lo, talvez com a promessa de "comunismo lisérgico" vislumbrado por Mark Fisher, ou não há de fato alternativa ao recapitalismo selvagem sob Donald Trump?
Não parece bom augúrio que o autor britânico do blog k-punk tenha recorrido ao suicídio em 2017, uma semana antes de o presidente dos EUA assumir seu primeiro mandato.
Fato é que o renascimento psicodélico no século 21 procede em sentido oposto ao da contracultura. Nada tem de renascentista —e duplamente.
O impulso psicodelicista nunca deixou de existir, apenas se refugiou na clandestinidade sob o tacão proibicionista dos anos 1970; e o que ressurge nos anos 2000 não é o horizonte de nova consciência e gozo comunitário à Woodstock, mas o confinamento do LSD e quetais na moldura de panaceias individuais para a infelicidade em escala industrial —depressão, ansiedade, estresse pós-traumático, abuso de substâncias, ludopatia— no panóptico das redes sociais patrulhadas pelos robôs que tudo veem desde a torre da inteligência artificial.
Na introdução inacabada sobre comunismo lisérgico para o livro que nunca escreveria, Fisher ainda soava otimista: "Apesar de todo o misticismo e pseudo-espiritualismo que sempre pairou sobre a cultura psicodélica, havia realmente uma dimensão desmistificatória e materialista nisso", escreveu (tradução de Amauri Gonzo para a revista Jacobina).
"Experimentos generalizados com a consciência prometiam nada menos do que uma democratização da própria neurologia –uma consciência, recentemente difundida, do papel desempenhado pelo cérebro em produzir o que é experimentado como realidade. Aqueles viajando de ácido estavam externalizando o funcionamento de seu próprio cérebro e potencialmente aprendendo a usar seu cérebro de maneira diferente."
A morte evitou que Fisher visse Trump tomar posse não uma, mas duas vezes. Também foi poupado de assistir ao presidente dos EUA cercado por Robert Kennedy Jr., Joe Rogan e Brian Hubbard na assinatura da ordem executiva mandando acelerar pesquisas psicodélicas.
Na mira dos conservadores não se acha a emancipação lisérgica, antes a mitigação do sofrimento mental de veteranos das muitas guerras imperialistas, ex-combatentes que seguem a porta de saída eleita por Fisher, à taxa de 18 suicídios por dia.
Jair Bolsonaro, preso, não pode se candidatar. Seu espectro ronda o país reencarnado como assombração no filho 01, que promete entregar o Brasil a Cristo, a Trump e à estética evangélica de magnatas da Flórida, não a das comunas psicodélicas da velha Califórnia.