Stress térmico. Porque é que 34ºC podem ser mais perigosos do que 40ºC? A ciência já não mede o calor da mesma maneira
É por isso que duas cidades com exatamente os mesmos 34ºC podem representar riscos completamente diferentes. Num ambiente seco, com alguma brisa e à sombra, o suor evapora rapidamente e ajuda a arrefecer o corpo. Mas se o ar estiver húmido, praticamente imóvel e rodeado de superfícies que continuam a irradiar calor horas depois do pôr do sol, esse mecanismo perde eficácia. O número no termómetro não mudou, mas o esforço que o organismo faz para sobreviver mudou completamente.
Para medir essa diferença, os investigadores recorreram ao Universal Thermal Climate Index (UTCI), atualmente considerado o indicador biometeorológico mais completo para avaliar a forma como o ambiente afeta o corpo humano. Ao contrário de um termómetro convencional, o UTCI combina cinco variáveis: temperatura do ar, humidade, velocidade do vento, radiação solar e radiação emitida pelas superfícies à nossa volta. E já não vale a pena ver “quantos graus estão?”, mas sim perceber quanto calor está realmente a sentir uma pessoa. Foi quando leram as respostas a essa pergunta que os investigadores perceberam que o assunto era mais preocupante do que parecia.
Um exemplo teórico: imagine os mesmos dias de verão, em que a previsão aponta os tais 34ºC. Mas um é em Évora, com ar seco, alguma brisa e uma descida acentuada da temperatura ao anoitecer e o outro é em Lisboa, depois de vários dias de calor, com humidade elevada, pouco vento e uma noite tropical pela frente. A previsão parece exatamente a mesma, mas em Lisboa o suor evapora mais lentamente, o organismo perde menos calor e chega ao fim do dia mais desgastado. E se durante a madrugada a temperatura continuar acima dos 20ºC, o corpo recupera menos e acumula esse esforço no dia seguinte. Em Évora, apesar de a temperatura poder até ser superior noutras situações, o ar mais seco e um arrefecimento noturno mais rápido ajudam normalmente a dissipar o calor. É precisamente essa diferença — que um simples termómetro não consegue mostrar — que o Universal Thermal Climate Index (UTCI) procura medir.
Noites tropicais cada vez mais frequentes
A primeira conclusão forte do estudo nem sequer aparece nas temperaturas máximas, aparece nas mínimas, durante a noite, que estão cada vez mais altas. E quando os investigadores analisaram sete décadas de dados, perceberam que as noites estão a aquecer mais depressa do que os dias: desde 1950, as temperaturas mínimas aumentaram, em média, 0,32ºC por década, enquanto as máximas subiram cerca de 0,27ºC no mesmo período. A diferença parece pequena, mas não é.
É durante a noite que o organismo consegue recuperar do calor acumulado ao longo do dia. A temperatura corporal desce, o ritmo cardíaco abranda e o sistema cardiovascular deixa de estar sob tanta pressão. Mas quando essa pausa desaparece, o desgaste deixa de terminar ao pôr do sol e prolonga-se pela madrugada. “O calor durante a noite está a tornar-se uma parte cada vez mais importante desta história porque as noites quentes reduzem a oportunidade de o corpo humano recuperar do calor acumulado durante o dia”, explica Rebecca Emerton.