Subida de preços à vista: Europa enfrenta escassez de batata após ondas de calor destruírem 3,1 milhões de toneladas

🗓️ 2026-09-17 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

A Europa está a caminhar para uma escassez de batata que poderá traduzir-se em batatas fritas mais pequenas e mais caras, depois de uma sucessão de ondas de calor durante o verão ter castigado os campos, travado o crescimento das plantas e reduzido drasticamente as colheitas. O problema surge apenas um ano depois de uma produção excecionalmente elevada ter provocado um excesso de oferta e levado os preços a mínimos históricos em algumas regiões.

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O cenário é traçado pelo Financial Times (FT), que cita uma análise da organização sem fins lucrativos Energy and Climate Intelligence Unit (ECIU) segundo a qual o clima extremo terá destruído cerca de 3,1 milhões de toneladas de batata, avaliadas entre 400 e 620 milhões de euros. A quebra junta-se a aproximadamente 3,6 milhões de toneladas que não chegaram sequer a ser cultivadas este ano, depois da produção excecional registada em 2025.

“Passámos de um máximo histórico para um mínimo histórico num só ano, se as estimativas se confirmarem”, afirmou Craig Elliott, analista de mercado para a Europa, Médio Oriente e África da empresa de informação sobre preços de matérias-primas Expana, que resumiu a dimensão da situação com uma expressão: “É um drama da batata”.

A produção nos principais países produtores europeus — Alemanha, França, Bélgica e Países Baixos — deverá cair de um recorde de 27,3 milhões de toneladas em 2025 para entre 19,5 e 20,5 milhões de toneladas este ano, segundo as estimativas da ECIU.

Do excesso de batata à escassez em apenas um ano
A situação representa uma inversão particularmente brusca num mercado habituado a oscilações acentuadas entre períodos de excesso e falta de oferta. A abundância da colheita do ano passado fez os preços cair e levou produtores a desfazerem-se de batatas que não conseguiam vender.

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Em algumas situações, os agricultores chegaram a deitar fora batatas excedentárias, oferecê-las, queimá-las ou utilizá-las para alimentar o gado. Um dos preços de referência da batata na Bélgica chegou então a aproximar-se de zero.

A pressão sobre o setor europeu foi agravada por outros fatores. Uma nova tarifa norte-americana e o aumento da concorrência asiática reduziram a capacidade de exportação europeia de batatas fritas congeladas, contribuindo para que os agricultores plantassem menos.

Foi nesse contexto que o verão trouxe um cenário que ninguém esperava.

“O que ninguém viu chegar foi uma série de cinco ondas de calor brutais”, afirmou Craig Elliott. O impacto, acrescentou, atingiu tanto a quantidade como a qualidade da produção: “Os volumes das colheitas foram afetados. A qualidade das colheitas foi afetada.”

França regista uma das piores colheitas das últimas décadas
Em França, um dos principais produtores europeus, os rendimentos deverão ser os mais baixos dos últimos 30 anos, com uma exceção: 2022, ano marcado por uma forte seca.

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A vulnerabilidade da cultura perante condições de calor e falta de água é particularmente elevada. Tom Lancaster, analista de terrenos, alimentação e agricultura da ECIU, considera que, sendo a batata uma das culturas europeias com maior necessidade de água, seria inevitável que a colheita fosse fortemente afetada.

“Como uma das culturas mais sedentas da Europa, era inevitável que a colheita de batata fosse fortemente afetada, e estamos a começar a ver isso agora nas estimativas de rendimento da indústria, que em alguns casos apontam para uma redução de 20%”, afirmou Lancaster.

Para o analista, os produtores estão entre os que enfrentam diretamente os efeitos das alterações climáticas. “Para os produtores de batata na linha da frente das alterações climáticas, as coisas estão mesmo a correr mal”, afirmou, recorrendo a um trocadilho com a expressão inglesa associada às batatas fritas.

Agricultores enfrentam campos secos e batatas demasiado pequenas
A situação é particularmente evidente em explorações do norte de França. Jean-Paul Dallene, agricultor numa propriedade situada perto de Arras, não registou chuva entre 10 de junho e 25 de agosto.

Em agosto, as temperaturas permaneceram acima dos 30 graus Celsius durante quase uma semana. Foi então que, segundo o agricultor, as batatas “pararam de crescer”.

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Dallene dedica 65 dos seus 340 hectares ao cultivo de batata. Nas áreas que dispõem de rega, estima que os rendimentos fiquem cerca de 10% abaixo do normal. Já alguns campos próximos que não são irrigados poderão produzir apenas 20 toneladas por hectare, contra as habituais 45 a 50 toneladas.

Mas o problema não se limita à quantidade produzida. Uma parte significativa das batatas que conseguiram crescer não atingiu o tamanho necessário para a indústria de transformação.

Os fabricantes procuram normalmente batatas com mais de 50 milímetros de diâmetro. Em alguns dos campos de Dallene, porém, a maioria das batatas ficou abaixo dos 40 milímetros. Perante a escassez de matéria-prima, os processadores começaram a flexibilizar as especificações relativas ao tamanho.

O resultado poderá chegar diretamente ao consumidor. “Vamos ter batatas fritas mais pequenas”, afirmou o agricultor francês.

Preços foram fixados antes da seca e agora deixam agricultores presos
A situação de Dallene revela também um dos problemas económicos provocados pela inversão repentina do mercado. Toda a produção da exploração francesa é vendida através de um contrato à McCain, grupo especializado em produtos alimentares congelados, a um preço estabelecido antes da seca que marcou o verão.

Esse preço tinha sido reduzido em 60 euros por tonelada, cerca de um quarto do valor anterior, devido ao excesso de oferta registado no ano passado.

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O agricultor enfrenta agora uma situação particularmente desfavorável: o preço foi fixado quando existia um excedente de batata, mas a colheita ocorre num momento de escassez. Se o contrato não for renegociado, Dallene terá simultaneamente menos toneladas para vender e um preço mais baixo por tonelada.

“Os preços foram definidos para um excedente, mas a colheita ocorre num cenário de escassez”, explicou, alertando para o impacto dessa diferença sobre os produtores.

O caso não é isolado. Segundo Craig Elliott, cerca de 80% das batatas destinadas à transformação industrial são atualmente comercializadas através de contratos, contra aproximadamente 50% a 60% nos anos anteriores.

Os agricultores que fixaram os preços antes de se perceber a dimensão do impacto das ondas de calor ficaram, assim, “presos” aos valores previamente acordados. “Esses são os preços a que estão presos”, afirmou o analista.

Mercado já está a reagir com uma forte subida dos preços
Enquanto muitos agricultores continuam sujeitos a contratos negociados antes da quebra da produção, o mercado livre já está a refletir a mudança radical entre a oferta e a procura.

As batatas destinadas à transformação provenientes da nova colheita estão a atingir valores de até 250 euros por tonelada em algumas zonas da Europa. Há apenas um ano, o preço rondava os 30 euros por tonelada.

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Também as batatas de mesa francesas registaram uma forte subida. A 3 de setembro, eram cotadas a 520 euros por tonelada, contra 310 euros no ano anterior.

A diferença evidencia a rapidez da inversão do mercado: em apenas um ano, a Europa passou de um excesso de produção que pressionava os agricultores e fazia os preços cair para uma situação em que a menor disponibilidade começa a provocar aumentos acentuados.

Stocks do ano passado podem adiar o problema até à Páscoa
Apesar da quebra na nova produção, ainda existem reservas da colheita excecional de 2025. Essas existências deverão ser suficientes para abastecer o mercado até ao Natal.

O stock disponível permitirá, por isso, adiar os efeitos mais visíveis da escassez, mas não deverá resolver o problema.

Cedric Porter, editor do serviço de informação World Potato Markets, considera que a pressão começará a tornar-se mais evidente nas prateleiras dos supermercados depois dessa fase, apontando para a Páscoa como um momento em que a escassez deverá começar a ser particularmente visível.

O problema poderá, assim, surgir de forma gradual para os consumidores. As reservas existentes permitem manter o abastecimento durante algum tempo, mas, à medida que essas existências forem desaparecendo, a redução da nova colheita deverá tornar-se mais evidente.

Batata está cada vez mais exposta a extremos climáticos
A atual crise insere-se num padrão de maior instabilidade que tem afetado a produção de batata no noroeste da Europa.

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Desde 2018, a região sofreu quatro colheitas de batata afetadas pela seca. Entre esses episódios, registaram-se invernos e primaveras demasiado húmidos, com campos tão encharcados que dificultaram ou impediram as plantações.

Os agricultores enfrentam, assim, um problema que se tornou cada vez mais difícil de gerir: água em excesso quando os campos precisam de estar secos para serem trabalhados e água insuficiente quando as culturas precisam dela para crescer.

“As condições meteorológicas estão a tornar-se mais extremas e desafiantes”, afirmou Cedric Porter.

A sucessão de extremos torna particularmente difícil planear as campanhas agrícolas. Depois de um ano de produção recorde que levou ao excesso de oferta, à destruição de batatas e ao colapso dos preços, os produtores deparam-se agora com uma combinação oposta: menos área cultivada, perdas provocadas pelo calor, rendimentos mais baixos e batatas que, em muitos casos, nem sequer atingem o tamanho exigido pela indústria.

O resultado é uma inversão particularmente rápida num dos mercados agrícolas mais importantes da Europa: depois de uma colheita recorde em 2025, a produção dos principais países produtores poderá cair para entre 19,5 e 20,5 milhões de toneladas este ano, enquanto os preços da nova colheita já atingem valores muito superiores aos registados há apenas 12 meses.

E, para os consumidores, a consequência poderá ser visível não apenas no preço, mas também no tamanho das batatas fritas.