TAP virou TAC: veja aqui o retrato da Transportadora Aérea da Capital

🗓️ 2026-10-15 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Companhia caiu para o terceiro lugar no Porto e é invisível em Faro

Em 1990, a TAP lançou voos diretos do Porto para Basileia e Bordéus. Trinta e seis anos depois, as duas rotas continuam a existir. Quem as voa é a easyJet. É um bom resumo do que aconteceu à TAP fora de Lisboa. Os destinos ganharam procura e há mais passageiros no mercado. Em contraciclo, a TAP encolheu. 

No segundo trimestre deste ano, no Porto, a TAP apenas transportou 10% dos passageiros. A Ryanair transportou 35%, a easyJet 14%. Os números da Autoridade Nacional da Aviação Civil (ANAC), regulador da aviação, há muito que mostram que a TAP foi ultrapassada por aquelas companhias, maiores responsáveis pelo “boom” turístico do Porto. 

Nos aeroportos regionais, a companhia aérea portuguesa encontra-se em desgaste permanente. Em 2006, era líder no Porto, com cerca de 59% dos passageiros. No final de 2021, ainda detinha 13% do tráfego do segundo maior aeroporto do país. A TAP, há muito ultrapassada pela Ryanair e pela easyJet, está agora ameaçada pela Transavia, com quem concorre diretamente na ligação a Paris.  

Goleada no Porto, irrelevante em Faro

Num dia normal de setembro, das 156 partidas comerciais do aeroporto Francisco Sá Carneiro, só 17 eram da TAP. Destas, oito iam para Lisboa. A conta foi apresentada por Rui Moreira, embaixador de Portugal na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), em artigo de opinião publicado no jornal SOL. “Não, os turistas não vêm – nem virão – a Portugal porque existe a TAP. A TAP, como as outras companhias, transporta turistas porque eles querem vir a Portugal”, concluiu o antigo presidente da Câmara do Porto. 

A grande novidade prometida para o Porto, um voo direto para Telavive a partir de outubro, já foi adiada. Os horários publicados apontam agora para março de 2027. Desde o verão, e pelo menos até dezembro, a TAP deixou de voar entre o Porto e o Luxemburgo, um dos principais destinos da emigração portuguesa. Um estudo do consultor em aviação comercial Pedro Castro, a que a CNN teve acesso, mostra que as rotas para Genebra, Paris Orly e Zurique sofreram fortes reduções nos últimos cinco anos, na casa dos 70% dos lugares disponíveis.  

Em Faro, a TAP nem entra na estatística das dez maiores companhias em passageiros, publicada pela ANAC. A décima, a British Airways, tem 2%. A TAP não aparece na lista porque atrai ainda menos clientes. No final de 2021, ainda tinha 5%. Do Algarve, a companhia de bandeira voa para dois destinos: Lisboa e Funchal. Tudo o resto implica mudar de avião na Portela. 

Num horário da TAP de 1987, que Pedro Castro exibiu na TVI, havia um voo de Faro para Toronto. Hoje, a ligação do principal destino turístico do país ao estrangeiro está entregue à Ryanair, à Jet2 e à easyJet. 

Ilhas têm de passar por Lisboa

No Funchal, a TAP mantém 18% dos passageiros, empatada com a easyJet. No final de 2021 tinha 23%. Mas voa apenas para Lisboa, Porto e Faro. A rota internacional que restava era Caracas, essencial para uma das maiores comunidades madeirenses no estrangeiro. Teve operação regular até 2015, regressou em 2024 como rota de verão e foi suspensa em novembro de 2025. Em abril deste ano, a TAP anunciou o regresso a 2 de julho. Hoje, não há bilhetes à venda. 

Em Ponta Delgada, a TAP tem 17% dos passageiros, longe dos 74% somados pelas duas companhias do grupo SATA. Voa para um único destino: Lisboa. No verão, fez seis voos da ilha Terceira para São Francisco. Nos Açores, isso é tudo, no que respeita a ligações internacionais da companhia de bandeira. 

Nem sempre foi assim. Em julho de 2020, a TAP inaugurou Ponta Delgada - Boston, a porta de entrada de uma das maiores comunidades açorianas. Estavam previstos cinco voos por semana. Operou dois. O último voo programado foi a 30 de outubro de 2021. Toronto acabou dois dias antes. A ligação entre Ponta Delgada e o Porto terminou em março de 2023. Para Boston, os açorianos voam hoje na Azores Airlines. 

Privatização não devolve custo para os contribuintes

Entre 2020 e 2024, o Estado injetou 3.178 milhões de euros na TAP. Somando os 55 milhões pagos a David Neeleman para sair, são 3.233 milhões. A preços de hoje, cerca de 3,8 mil milhões. 

A Lufthansa paga até 1.201 milhões pela primeira fase, com fecho previsto para 2028. Fica uma opção para comprar o resto: 1.351 milhões, dos quais 863 em dinheiro e 488 em ações da própria Lufthansa, cerca de 5% do grupo alemão. 

Mesmo no cenário mais otimista, com a venda total e ao preço proposto, o Estado recebe 2.552 milhões. Ficam a faltar cerca de 680 milhões. Atualizando pela inflação, o prejuízo para os contribuintes ronda os 1,26 mil milhões. Só com a primeira fase, e dando à metade que fica no Estado o mesmo valor por ação, o buraco é de quase 900 milhões. 

A “recuperação total” só chega com uma valorização futura impossível de garantir. O Governo conta lá chegar em 2040, somando os dividendos e a valorização das ações que o Estado português venha a deter no grupo Lufthansa. Na TVI, o ministro Miguel Pinto Luz admitiu que só por essa via os contribuintes poderão vir a ser plenamente ressarcidos. 

Garrote ao turismo de Lisboa

O estudo de Pedro Castro defende que a TAP não saiu do Porto, de Faro e das ilhas por falta de aviões: desde 2006, a frota subiu de 64 para 104 unidades. Retirou-se dos aeroportos regionais porque decidiu concentrar quase toda a sua operação em Lisboa. Foi uma estratégia consciente, aprovada por sucessivos governos e paga pelos contribuintes de todo o país. 

Hoje, num dia normal, quase metade das partidas da TAP no Porto serve para levar passageiros a Lisboa, onde apanham a ligação para o resto do mundo. “Temos cerca de 1 milhão de passageiros a fazer Porto - Lisboa apenas com a intenção de trocarem de avião”, calcula Pedro Castro. Sucede que ocupam espaço num aeroporto que recusa ‘slots’ a companhias aéreas que querem trazer mais turistas à Grande Lisboa. “O Governo tem em mãos o problema, mas também a solução. Se o aeroporto da Portela está congestionado, porque é que a TAP não volta a ser uma companhia nacional, a ter mais operações nos outros aeroportos, libertando Lisboa, não só de aviões, mas também de passageiros?”, pergunta o perito em aviação comercial. A CNN Portugal dirigiu, há dois meses, essa pergunta ao ministro Miguel Pinto Luz e ao diretor executivo da TAP, Luís Rodrigues. Não recebemos resposta.