Tiros, detenções e um alegado rapto: o que se sabe sobre o confronto entre os serviços secretos de Zelensky por causa de um russo

🗓️ 2026-09-03 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

SBU e GUR trocaram tiros nas ruas de Kiev durante uma operação relacionada com um alegado plano russo para assassinar um dirigente da oposição a Putin. Três pessoas ficaram feridas num episódio que aparentemente estará ligado ao desaparecimento do vice-comandante do Corpo de Voluntários Russos. Zelensky classificou o caso como "absolutamente vergonhoso" e exigiu uma investigação

O caso começou com uma operação do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) em Kiev, que acabou por colocar frente a frente duas das principais estruturas de informações do país: o próprio SBU e a Direção Principal de Informações do Ministério da Defesa (GUR).

Na manhã desta quarta-feira, elementos do SBU deslocaram-se a um edifício da capital para realizar uma busca no âmbito de uma investigação. Segundo o serviço de segurança, os seus agentes estavam a tentar impedir um alegado plano russo para matar "um dos líderes do movimento político da oposição russa".

Durante a operação, um grupo de homens armados terá tentado impedir a passagem dos agentes e bloquear as diligências. O SBU afirmou que os indivíduos abriram fogo contra a equipa de investigação.

Os homens acabariam por ser identificados como pertencentes a uma unidade das forças de defesa ucranianas. Dmytro Lytvyn, conselheiro de comunicação de Volodymyr Zelensky, fez saber posteriormente aos jornalistas que os elementos envolvidos pertenciam ao GUR.

A unidade especial "Alpha", do SBU, foi mobilizada e abriu fogo, tendo três pessoas ficado feridas. Os elementos envolvidos acabaram também por ser detidos.

Кадри кульмінації конфлікту між співробітниками СБУ та ГУР
 

На відео видно, як сторони сперечаються на підвищених тонах. Згодом лунає постріл, після чого бійці «Альфи» відкривають вогонь по розвідниках.

 

Хто саме стріляв першим - за цими кадрами встановити не вдалося.

 

Унаслідок… pic.twitter.com/YVIhbcNGbE

— Київ Оперативний (@KyivOperativ) September 2, 2026

Imagens captadas depois do confronto mostram militares fortemente armados nas ruas de Kiev. A zona onde ocorreu o tiroteio foi isolada e os residentes foram impedidos de entrar.

O envolvimento de Stepan Kaplunov

O nome que surge no centro do episódio é o de Stepan Kaplunov, vice-comandante do Corpo de Voluntários Russos, uma unidade constituída por cidadãos russos dissidentes que combatem ao lado da Ucrânia.

Na terça-feira, o grupo anunciou que Kaplunov tinha sido "raptado" dias antes por indivíduos desconhecidos junto à sua residência.

Aleksandr Fortuna, chefe de Estado-Maior do Corpo de Voluntários Russos, afirmou que o vice-comandante tinha desaparecido sem que tivesse sido dada qualquer informação sobre as acusações que lhe eram imputadas.

Os responsáveis da unidade pediram ajuda tanto ao SBU como ao GUR, duas estruturas com funções diferentes dentro do aparelho de segurança ucraniano.

O SBU é responsável pelas informações internas e pelo combate ao terrorismo, enquanto o GUR pertence à estrutura militar e está focado nas informações externas.

A situação tornou-se ainda mais confusa quando, no dia seguinte, o SBU anunciou que tinha impedido um alegado plano russo para assassinar "um dos líderes do movimento político da oposição russa". Meios de comunicação social ucranianos identificaram Kaplunov como o possível alvo.

O SBU afirmou que a operação estava relacionada com uma alegada conspiração da Rússia para matar esse dirigente, mas não confirmou oficialmente a identidade do alvo.

O paradeiro de Kaplunov continua por esclarecer. O SBU também não confirmou a sua detenção nem comentou as acusações que possam existir contra ele.

SBU e GUR apresentam versões diferentes

As primeiras informações divulgadas pelo SBU contribuíram para aumentar a confusão em torno do episódio. Inicialmente, o serviço de segurança afirmou que tinha trabalhado com o GUR para impedir um alegado "ataque terrorista" russo. Mais tarde, apresentou uma versão diferente, explicando que a sua equipa de investigação tinha sido atacada enquanto tentava realizar uma busca.

Segundo o SBU, homens armados bloquearam a passagem dos agentes e tentaram impedir as diligências. A agência afirmou que os indivíduos pertenciam a uma das unidades das forças armadas ucranianas.

A unidade "Alpha" foi então chamada ao local e interveio contra os homens que, segundo o SBU, resistiam à operação.

Do lado do Corpo de Voluntários Russos, a versão apresentada é também diferente. O advogado de Kaplunov, Taras Brovsky, afirmou que o seu cliente tinha sido detido pelo SBU no final de agosto e levado de volta para o seu apartamento para que fosse realizada uma busca.

Foi nesse momento, segundo o advogado, que elementos do GUR tentaram impedir a entrada dos agentes do SBU no apartamento.

O caso acabou por transformar uma operação das forças de segurança ucranianas num confronto armado entre estruturas do próprio aparelho de informações do país.

O que aconteceu aos envolvidos?

O confronto provocou feridos entre os elementos envolvidos. O SBU afirmou que várias pessoas ficaram feridas "entre aqueles que resistiram" e que três pessoas foram detidas.

As autoridades não esclareceram todas as circunstâncias em que ocorreram os disparos, nem todas as responsabilidades individuais pelo uso das armas.

A rua onde ocorreu o confronto permaneceu isolada na manhã de quarta-feira. Vídeos divulgados após o incidente mostram homens fortemente armados a controlar os acessos e a impedir que os moradores passassem. O Estado ucraniano abriu uma investigação para esclarecer o sucedido.

Kyrylo Budanov, antigo chefe do GUR e atual chefe de gabinete de Zelensky, defendeu uma investigação "exaustiva e imparcial". "Ninguém tem o direito de raptar militares impunemente, abrir fogo nas ruas das nossas cidades, dar e executar ordens criminosas", sublinhou.

Zelensky exige responsabilidades

O confronto levou Volodymyr Zelensky a intervir diretamente. No seu discurso de quarta-feira, o presidente ucraniano classificou o episódio como um "incidente absolutamente vergonhoso" envolvendo unidades do SBU e do GUR.

"Na Ucrânia, as únicas pessoas contra quem alguém deve disparar são os ocupantes russos, na defesa da Ucrânia. Nenhuma outra troca de tiros será alguma vez tratada pelo nosso Estado como algo que alguém tenha autorização para fazer", referiu.

Zelensky ordenou uma investigação por parte dos procuradores e exigiu também investigações internas nos dois serviços. "Tem de haver responsabilização, incluindo decisões relativas aos elementos envolvidos por parte dos chefes dos serviços de informações e de segurança, e ambos os serviços devem realizar investigações internas", afirmou.

O líder do país determinou ainda que as duas agências expliquem publicamente as causas do incidente.

Mas tensão entre o SBU e o GUR não é nova. Em 2023, quando liderava o GUR, Kyrylo Budanov acusou o SBU de ter matado Denys Kireyev, um banqueiro que trabalhava com a sua agência e que era apontado como responsável pela obtenção de informações sobre os planos iniciais de Moscovo para tomar Kiev.

Kireyev foi baleado na cabeça e posteriormente retirado de uma carrinha no centro da capital. Sobre ele recaíam acusações de ser um agente duplo.

Duas estruturas no centro da guerra contra a Rússia

Tanto o SBU como o GUR têm participado em várias frentes da guerra contra a Rússia. As duas estruturas estão envolvidas em operações que vão desde combates na linha da frente a ataques com drones de longo alcance e ações de sabotagem.

O conflito alterou também a imagem do SBU. A agência, que conta com mais de 40 mil funcionários, era anteriormente descrita como uma organização marcada pela corrupção e necessitada de reformas.

Desde o início da invasão russa em grande escala, tornou-se numa das forças de combate mais eficazes da Ucrânia. É neste cenário que acontece o confronto de Kiev: duas estruturas centrais para a estratégia ucraniana contra a Rússia acabaram envolvidas num tiroteio nas ruas da própria capital.