Tive um enfarte agudo do miocárdio. E agora? Não é o fim, mas o princípio
"Tive um enfarte agudo do miocárdio. E agora? Não é o fim, mas o princípio de uma nova jornada. O objetivo é prolongar a vida e dar-lhe qualidade enquanto evitamos novos eventos. Estamos a falar de prevenção secundária.
A terapêutica farmacológica é fundamental para controle de fatores de risco. Para tal, devemos baixar o colesterol LDL para níveis recomendados, controlar rigorosamente a tensão arterial, e tratar adequadamente a diabetes quando existe.
Por grandes estudos clínicos sabemos que estas intervenções têm consequências concretas: a redução de colesterol LDL para níveis inferiores a 55 mg/dL está diretamente associada a uma diminuição significativa na mortalidade cardiovascular e em novos eventos graves, como enfartes e acidentes vasculares cerebrais (estima-se que cada redução de cerca de 40 mg/dL no colesterol LDL está associada a 20 a 25% menos eventos cardiovasculares major); uma redução de 10 mmHg na pressão arterial sistólica associa-se a cerca de 20% menos eventos cardiovasculares major; deixar de fumar esteve associado a cerca de 39% menos mortalidade cardiovascular.
É fundamental também alterar comportamentos e estilos de vida. Mais importante, mudar a bons hábitos e mantê-los ao longo do tempo: abandonar o tabaco, fazer exercício físico, e comer de forma mais saudável são intervenções destinadas a reduzir o risco de um novo evento cardiovascular.
Recentemente surgiram novas diretrizes de reabilitação cardiovascular da Sociedade Europeia de Cardiologia. Estabelecem que a reabilitação cardíaca no pós enfarte é fortemente recomendada e deve ser prescrita a todos os pacientes e iniciada o mais precocemente possível.
Nos programas de reabilitação a abordagem deve ser personalizada e multidisciplinar: Exercício físico, suporte psicológico, optimização de medicamentos, educação em saúde e controle nutricional.
A mensagem essencial é simples: o primeiro enfarte pode ser um ponto de viragem. A sobrevivência ao episódio agudo abre uma oportunidade para controlar de forma muito mais rigorosa a parte do risco que pode ser modificado.
Tomar a medicação todos os dias, atingir e manter objetivos de LDL e pressão arterial definidos pela equipa médica, controlar a diabetes, deixar de fumar, praticar atividade física, adotar alimentação cardioprotetora e comparecer às consultas de acompanhamento são formas concretas de proteger o coração.
Portugal já conseguiu reduzir significativamente a mortalidade e a morbilidade associadas às doenças cardiovasculares. O próximo passo é garantir que cada pessoa que sobrevive a um enfarte consegue transformar essa sobrevivência em mais anos de vida e mais anos de vida com qualidade.
Sobreviver a um enfarte não é voltar simplesmente à vida que existia antes. É começar uma nova relação com o coração baseada no tratamento, na vigilância e na prevenção."
Leia Também: Hábito comum para lidar com stress pode prejudicar a saúde do coração