Trabalhadores da televisão pública neerlandesa pedem retirada dos Países Baixos do Festival Eurovisão 2027
A edição de 2027 está prevista para maio, na cidade de Burgas, na Bulgária
Cerca de 400 trabalhadores de vários órgãos de comunicação social públicos dos Países Baixos pediram à radiotelevisão pública neerlandesa (NPO) que reverta a decisão de regressar ao Festival Eurovisão em 2027, em protesto contra a participação de Israel e a forma como foi decidido o regresso do país.
Os trabalhadores enviaram uma carta intitulada "Não é a minha Eurovisão" à direção e ao conselho de administração da NPO, a organização que coordena o sistema público de rádio e televisão dos Países Baixos.
Os signatários afirmam não poder aceitar "que o desejo de participar num programa de entretenimento tenha mais peso do que as inúmeras vidas de pessoas que estão a ser assassinadas" e lamentam que os canais públicos e os seus trabalhadores estejam a ser arrastados para a "normalização do genocídio".
O protesto surge três semanas depois de a NPO ter anunciado que os Países Baixos voltarão a participar na Eurovisão em 2027, após a ausência na edição de 2026.
A decisão de regressar desencadeou uma disputa no seio da radiotelevisão pública. A Avrotros, a estação que tradicionalmente organizava a participação neerlandesa, decidiu em agosto não participar em 2027, devolvendo à NPO a responsabilidade pela presença do país no concurso.
A Avrotros justificou a retirada com o argumento de que a Eurovisão já não podia ser considerada neutra enquanto um dos participantes continuasse envolvido num "conflito militar de grande escala". A estação referiu ainda o "grave sofrimento humanitário em Gaza" e as restrições à liberdade de imprensa.
"A Eurovisão foi originalmente criada para unir pessoas e países", afirmou então o diretor-geral da Avrotros, Taco Zimmerman, que sublinhou que os conflitos internacionais têm influenciado cada vez mais o festival, transformando-o num "palco de divisão".
Apesar da retirada da Avrotros, a NPO anunciou, no final de setembro, que apresentaria uma candidatura neerlandesa à edição de 2027. A organização informou também que um grupo independente de especialistas supervisionaria o processo, enquanto a NOS, o principal serviço público de informação do país, asseguraria a transmissão e os comentários das semifinais e da final.
Na altura, a NPO defendeu que a União Europeia de Radiodifusão (UER), responsável pela organização da Eurovisão, tinha dado "passos importantes" para alterar as regras do concurso. Segundo a organização, essas mudanças permitiram chegar a um acordo para que "o objetivo original do festival volte a ocupar um lugar central".
Os trabalhadores contestam essa conclusão e criticam o processo que levou à decisão.
"Das conversas, depreende-se que as próprias direções dos canais não participaram nesta decisão de grande importância", refere a carta. Os signatários consideram "inaceitável que uma decisão com consequências sociais de tal dimensão seja tomada desta forma".
Os trabalhadores exigem que a NPO retire a candidatura dos Países Baixos à edição de 2027 e promova "um diálogo alargado, transparente e ponderado" com os diferentes canais antes de decidir sobre uma eventual participação a partir de 2028.
"Estamos e continuaremos a falar com todos", afirmou um porta-voz da NPO à agência neerlandesa ANP.
A edição de 2027 está prevista para maio, na cidade de Burgas, na Bulgária.