Treasury a 5% é o 'novo novo normal', diz JPMorgan; veja o que isso significa para o Brasil – Money Times

(Imagem: iStock/ designer491)
Os rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, os Treasuries, de longo prazo operam nos maiores níveis em mais de duas décadas.
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Na última quarta-feira (7), o rendimento do Treasury de 10 anos, referência global, operou na máxima desde abril de 2002; enquanto o yield do Treasury de 30 anos, referência para hipotecas de longo prazo, atingiu 5,7041% no maior nível desde maio do mesmo ano.
Para Marina Valentini, estrategista de mercados globais do JPMorgan Asset Management, os Treasuries no nível de 5% devem se tornar um “novo novo normal” nos mercados.
“No cenário atual, diferentemente do período pré-crise financeira, temos países mais endividados, produtividade mais alta e crescimento econômico mais forte, o que pressiona a parte longa da curva [de juros]”, disse Marina, em entrevista exclusiva ao Money Times.
Apesar da pressão sobre a ponta longa da curva norte-americana, a estrategista não vê os rendimentos caminhando para os níveis históricos pré-crise financeira, de 6,8% em média, e considera improvável uma disparada para acima de 6% no cenário-base.
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Por aqui, os Treasuries nas máximas também têm pressionado a curva de juros futuros, reduzindo o espaço para cortes da Selic, ainda que de forma limitada.
Já o câmbio tem ‘driblado’ o movimento externo: o dólar à vista tem desempenho negativo ante o real no acumulado do ano, de cerca de 4%, enquanto o DXY – que compara a divisa norte-americana a uma cesta de seis moedas fortes – já superou o nível de 100 pontos.
Segundo Marina, é o diferencial de juros entre Brasil e EUA, próximo de 10 pontos percentuais, que tem dando sustentação ao real, enquanto as eleições passam a ser um dos principais drivers dos ativos domésticos.

Confira os principais trechos da entrevista a seguir:
Money Times: Estamos vendo uma nova disparada dos Treasuries, com os títulos nas máximas históricas. O que está por trás desse movimento?
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Marina, JPMorgan: Esse movimento dos Treasuries é um salto que temos visto ao longo praticamente de todo o ano. Há diversos motivos. Um deles é a mudança nas expectativas de política monetária nos Estados Unidos. O mercado passou de precificar três cortes de juros neste ano para agora esperar entre altas de juros em 2026 e em 2027.
Também houve questões relacionadas ao conflito [no Oriente Médio], maiores emissões de dívida por parte das empresas de tecnologia nos Estados Unidos e preocupações fiscais e com a credibilidade, que pressionam principalmente a parte longa da curva.
Os preços do petróleo também continuam em alta, com o Brent ao redor de US$ 100 por barril. A incerteza em torno das negociações entre Estados Unidos e Irã continua mantendo os preços elevados, com maior foco na alta dos produtos refinados, como diesel e gasolina.
Money Times: O Treasury de 10 anos acima de 5% parece estar se tornando uma realidade mais frequente. Esse pode ser o novo normal? Podemos chegar a 6%?
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Marina: Temos observado uma tendência de aumento da parte longa dos títulos do Tesouro desde 2022. Naquele momento, o nosso time avaliou que estávamos entrando em um “novo novo normal”.
Isso porque já passamos por um período que muitos economistas chamaram de “novo normal”, depois da crise financeira de 2007-2008 até 2020. Foi um período atípico, com juros próximos de zero, inflação muito baixa e bancos centrais tentando estimular a economia, inclusive com juros negativos na Europa e no Japão.
Muitos olham para a alta recente e dizem que estamos voltando ao “velho normal”, ao período anterior, de 1960 a 2007, em que a média do Fed Funds era de 6%, enquanto a média do Treasury de 10 anos era de 6,8%.
Estamos em uma nova fase, com algumas semelhanças, mas também diferenças muito importantes.
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MT: Quais seriam essas diferenças?
Uma delas é que os países estão mais endividados. Antes da crise financeira, a dívida dos Estados Unidos correspondia a cerca de 40% do PIB. Agora, está próxima de 100%, com expectativa de chegar a 120%.
Ao mesmo tempo, temos motores de crescimento diferentes. O consumidor americano está muito mais resiliente, com um patrimônio que cresceu cerca de US$ 70 trilhões desde a pandemia. É um consumidor mais resiliente e menos endividado.
E a principal diferença é a inteligência artificial. Todo esse gasto de capital está levando a um aumento de produtividade.
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Quando pensamos nessas características do “novo novo normal”, temos países mais endividados, mas também produtividade mais alta e crescimento econômico mais forte, o que pressiona a parte longa da curva.
Mas não acreditamos, neste momento, que vamos chegar a níveis de juros semelhantes aos do período pré-crise financeira, daquela média de 6,8%.
Money Times: Em agosto, o governo americano anunciou o aumento das recompras de Treasuries como uma tentativa de conter os rendimentos. Mas estamos vendo um efeito bastante pontual. Essas recompras podem ajudar a segurar os yields?
Marina: Nos dias seguintes ao anúncio do pacote de recompra de títulos longos houve um efeito no mercado, com queda dos rendimentos de aproximadamente 6 a 7 pontos-base.
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Quando o mercado recebeu o anúncio, a leitura foi positiva, porque o Tesouro mostrou que estaria disposto a utilizar novas ferramentas para evitar uma alta muito rápida dos yields.
O que preocupa o mercado não é necessariamente o nível dos Treasuries, mas a velocidade com que eles atingem novos níveis.
A economia está resiliente, o consumidor está resiliente e os fundamentos corporativos estão sólidos. É uma economia muito mais resiliente a patamares mais altos de juros.
O que o mercado gostaria de ver é uma alta mais gradual. Uma alta acentuada ou rápida é o que traz volatilidade para o mercado de renda fixa.
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Em geral, vemos isso como mais um sinal positivo de que o Tesouro tem um conjunto amplo de ferramentas para a gestão da curva, mas não será essa ferramenta que levará a uma queda duradoura dos juros.
Para vermos uma queda sustentável dos rendimentos dos Treasuries, precisaríamos de um alívio nos preços do petróleo e uma normalização do Estreito de Ormuz, já que o petróleo tem estado muito correlacionado com a alta dos rendimentos dos Treasuries.
Money Times: Qual é o cenário-base do JPMorgan para o petróleo? Quando vocês esperam uma normalização no Estreito de Ormuz?
Marina: Ainda temos muita incerteza em relação ao conflito. Mas, desde o começo do conflito, vemos que existem incentivos para Estados Unidos e Irã negociarem algum acordo de cessar-fogo ou uma normalização no Estreito de Ormuz.
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Do lado dos Estados Unidos, esse é um conflito com alto custo fiscal, principalmente em gastos com defesa e operações militares. Existe, portanto, um incentivo para o governo norte-americano evitar um conflito prolongado.
Também existe um incentivo relacionado aos rendimentos dos Treasuries. O governo dos EUA gostaria de evitar uma alta excessiva dos yields e o principal incentivo é evitar um aumento do custo de vida para o consumidor americano, especialmente agora, em um período de eleições de meio de mandato.
Do lado iraniano, o custo econômico de manter o Estreito de Ormuz fechado por um período prolongado também é alto. Por isso, vemos incentivos dos dois lados para chegar a algum acordo.
Não sabemos quando isso acontecerá, mas, em nosso cenário-base, haverá uma normalização do fluxo de petróleo e uma queda nos preços da gasolina ainda neste ano.
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Os futuros do Brent indicam petróleo encerrando o ano em cerca de US$ 90 por barril, chegando a próximo de US$ 80 em meados de 2027 e permanecendo perto desse patamar no fim de 2027.
O próprio mercado está precificando algum alívio nos preços do petróleo, mas ainda ficariam em níveis mais altos do que antes do conflito.
MT: E como esse cenário de petróleo entra na equação da inflação e do Fed?
Marina: A inflação cheia nos Estados Unidos está em 3,4% e esperamos que continue acima de 3% até o fim deste ano. Mas esperamos que a inflação núcleo continue diminuindo gradualmente.
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Não vemos pressões do lado cíclico. Os salários estão crescendo em ritmo mais baixo do que a inflação. Também temos uma normalização dos preços de aluguéis e uma queda nos preços de seguros de automóveis, além de componentes que ajudam a mitigar o efeito da alta dos preços de energia.
Então, vemos pressões inflacionárias, mas, se o cenário-base se materializar e houver uma queda no preço do petróleo, a inflação também poderá ceder e isso será considerado pelo Fed nas decisões de política monetária.
Para o Fed, a principal preocupação tem sido a inflação e, nesse momento, faz sentido que o Fed ainda atue mais uma vez para acalmar o mercado e mostrar credibilidade, deixando claro que está preocupado com a pressão inflacionária observada ao longo deste ano por causa do conflito.
Mas vemos apenas mais uma alta de juros, em dezembro, e o Fed em pausa ao longo de 2027, justamente porque esperamos que a inflação ceda e que o fluxo de petróleo se normalize.
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Money Times: Pensando agora no Brasil, qual é o cenário-base do JPMorgan? Devemos ter impacto desse estresse global na curva de juros brasileira, enquanto as eleições ganham destaque?
Marina: Temos a parte doméstica da economia e da macroeconomia, mas também o efeito nos mercados.
Vemos o crescimento econômico do Brasil em uma trajetória mais moderada. Temos observado uma desaceleração desde o começo do ano, quando o crescimento era muito mais forte.
Também tivemos certo alívio na inflação brasileira, mas ainda existem preocupações com os preços relacionados ao conflito e às commodities em alta. A inflação continua acima das expectativas e da meta.
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Com o corte recente da Selic para 13,75%, temos muita incerteza sobre quanto espaço ainda existe para o Banco Central continuar cortando juros.
Para a renda fixa, isso mantém os juros pressionados. E, claro, o Brasil não está imune ao efeito da alta dos juros globais.
Tivemos uma alta coordenada dos rendimentos nos Estados Unidos, na Europa, no Japão e também nos mercados emergentes, o que também tem se refletido na renda fixa brasileira.
No mercado de ações, o foco do último mês tem sido, de fato, as eleições. Vemos a Bolsa brasileira se comportando muito mais alinhada às pesquisas e perspectivas do mercado para as eleições do que a outras questões relacionadas aos juros.
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MT: Temos visto os Treasuries subirem, enquanto o dólar não necessariamente se fortalece contra o real. O dólar chegou a subir contra outras moedas, mas ainda acumula queda de 4% no ano ante o real. O que explica esse descolamento?
Marina: No ano passado, tivemos uma temática global de desvalorização do dólar. O DXY caiu 10% contra as principais moedas globais. Já neste ano, o movimento está com muito mais nuances e diferenças entre regiões e países.
Quando pensamos no dólar contra moedas desenvolvidas, como euro e iene, a perspectiva de juros mais restritiva nos Estados Unidos, uma mensagem mais hawkish de novo presidente do Fed [Kevin Warsh] e uma preocupação maior com a inflação aumentaram o diferencial de juros a favor dos Estados Unidos.
Isso trouxe uma dinâmica de fortalecimento do dólar. Além disso, as preocupações com o conflito ajudaram o dólar por ele ser visto como a moeda de refúgio do mundo.
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Mas, quando comparamos com moedas emergentes, não vemos a mesma força do dólar contra o real. Isso acontece porque o Brasil ainda tem um diferencial de juros muito alto. Isso continuou apoiando o real ao longo deste ano, assim como outras moedas da América Latina, como o peso colombiano.
E, claro, pensando no curto prazo, o real também está sendo muito influenciado por fatores locais, principalmente pelas eleições brasileiras.
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