Trump: Da estupidez à Baixa Complexidade. Juízos de valor e explicação científica
Segundo o dicionário online da Porto Editora, “estupidez” refere-se à “qualidade de estúpido; falta de inteligência e de delicadeza de sentimentos”.
Trump sugeriu em plena pandemia de covid-19 que se injectasse desinfectante, afirma repetidamente que os moinhos de vento causam doenças oncológicas, gozou publicamente com um jornalista com deficiência motora, desafiou os iranianos a atacarem cidades norte-americanas com bombas nucleares, reitera que os EUA não têm inflação e que dizimou as capacidades nucleares iranianas numa noite.
Os exemplos sobre estas abundantes qualidades de Trump são vastos, e o espaço para a sua descrição será sempre um recurso finito.
Ao contextualizar um discurso de Trump num comício recente no Tennessee em que o republicano disse à plateia que o aclamava, que “podia dizer as coisas mais estúpidas que vocês aplaudiriam”, referi que o presidente dos EUA diz e faz coisas “estúpidas” regularmente.
Considerar que Trump é estúpido contribui para a explicação da sua liderança, das suas decisões ou da política externa norte-americana? Não.
É um juízo de valor que se pode sustentar pelo volume obsceno de declarações ignominiosas do presidente norte-americano, mas que não acrescenta uma ameba de esclarecimento científico sobre o objecto.
É um juízo de valor que mantenho, mas não uma explicação sobre como analiso em termos de Relações Internacionais o pensamento e a decisão da liderança do republicano.
Distingo por isso duas dimensões. Uma, o papel da estupidez na política. A outra, o argumento com que explico o comportamento do “líder do mundo livre”.
A estupidez é estudada na teoria política? É. Um académico japonês, Otobe, em 2020 publicou Stupidity in Politics, e mostra como não é um mero traço individual, não se confunde com o erro, a ignorância ou a “pós-verdade”. Mais, um raciocínio pode ser sólido, assente em evidências, e ainda assim estúpido.
Para o autor, a estupidez é ubíqua, e por isso, sendo uma constante, não me parece que atenda a variações. Explicar decisões estúpidas pela estupidez de quem as toma, seria um exercício circular, e por isso inútil.
Esta lacuna, leva-nos à segunda dimensão de análise. Como então explicar Trump?
Em Relações Internacionais, a categorização do pensamento e acção do presidente dos Estados Unidos é um poliedro de muitas faces. Trump já foi classificado como jacksoniano, realista, neo-imperialista, hegemon predatório e transaccionalista.
Nenhum explica o conjunto. O jacksonianismo descreve uma tradição popular de honra, desconfiança das instituições e uso esmagador da força perante ameaças. Não explica as oscilações perante Putin ou Netanyahu, Zelensky ou os europeus. O realismo daria conta da desconfiança das alianças e do desinteresse pela Ucrânia, mas exigiria uma hierarquia de interesses estável e o respeito pelo equilíbrio de poderes. Abrir uma guerra desnecessária e prolongada no Golfo, quando a própria estratégia de defesa manda concentrar meios no hemisfério ocidental e na dissuasão da China, é tudo menos realista. O neo-imperialismo e a hegemonia predatória captam a vontade de extrair e dominar, da Gronelândia ao Canal do Panamá e aos minerais ucranianos, mas pressupõem um desígnio de expansão coerente que as reviravoltas desmentem. O transaccionalismo descreve o que Trump faz, trocar compromissos por contrapartidas, sem o explicar, nem por que razão as transacções mudam de sentido de um mês para o outro, quando o actor transacional por norma quer garantir credibilidade e previsibilidade para trocas futuras.
Todos tratam Trump como portador de uma doutrina. O problema, parece-me, é anterior à doutrina: está na forma como a realidade lhe chega.
Parto por isso de uma premissa distinta. O princípio explicativo da política externa de Trump não é ideológico nem estratégico, mas cognitivo, e compreende-se melhor através da tipologia da Baixa Complexidade Conceptual (BCC), já usada na literatura para catalogar a sua liderança no primeiro mandato.
Desenvolvida desde a década de 1970 na Psicologia Política e na Análise de Política Externa, a complexidade conceptual capta a forma como os decisores organizam cognitivamente a realidade que enfrentam.
Líderes de elevada complexidade reconhecem objectivos concorrentes, admitem incerteza, incorporam aconselhamento especializado e ajustam decisões a contextos diversos. Os de baixa complexidade toleram mal a ambiguidade e preferem categorias simplificadas. Recorrem à intuição e ao julgamento afectivo e resistem a integrar informação que desafie, quanto mais contrarie, o que já pensam.
Em Trump, a BCC manifesta-se em três elementos.
O primeiro é uma cosmovisão binária: o mundo divide-se em vencedores e vencidos, fortes e fracos, sucessos e fracassos. O “melhor de sempre”, o “desastre”, o Zelensky que “não tem cartas” ou o Irão “dizimado” não são mera retórica inflacionária. São uma forma de organizar a realidade complexa que rodeia o chefe do executivo.
O segundo é a simplificação de processos: história, geografia, instituições e identidades colectivas desaparecem, e os conflitos tornam-se irritantes que a capacidade negocial de um líder predestinado resolve com o mantra do “eu resolvo”.
A guerra da Ucrânia terminaria “em 24 horas”, ou nem teria existido se Zelensky não a tivesse “permitido”. Do Irão, só se aceitaria a “rendição incondicional”. Estas simplificações ganham também forma institucional, na preferência por emissários pessoais como Steve Witkoff e Jared Kushner e por canais informais que contornam o aparelho diplomático e a supervisão do Congresso.
O terceiro elemento é a personalização da diplomacia, o mecanismo que converte a percepção em decisão. Basta lembrar as “óptimas relações e respeito” com Putin, por oposição a Zelensky, o “ditador sem eleições”. Se o acesso de Trump ao mundo passa por relações pessoais e por emissários escolhidos por atributos pessoais, a decisão torna-se sensível ao interlocutor mais recente e mais poderoso, e, sobretudo, ao contexto imediato.
Argumento que estas características têm uma implicação maior: a inversão histórica da relação entre personalidade presidencial e interesse nacional.
Desde a Segunda Guerra Mundial, as administrações norte-americanas divergiram em prioridades e instrumentos, mas operaram dentro de um consenso relativamente estável, ainda que flexível e disputado, sobre os interesses fundamentais do país.
Os benefícios da primazia norte-americana ligavam-se aos custos da sua manutenção: garantir os aliados, prover bens públicos internacionais, gerir instituições multilaterais, preservar a credibilidade estratégica. Era a personalidade do presidente que se moldava ao interesse nacional. Com Trump, é a definição do interesse nacional que passa a ser filtrada pela organização cognitiva do presidente.
Daqui resulta o que designo por Hegemonia de Baixo Custo: preservar os benefícios da primazia dos EUA reduzindo ou externalizando os encargos, transferindo responsabilidades e transformando compromissos em transacções, porque esse é o caminho de menor resistência cognitiva para quem lidera.
Mas esta “visão” coabita com uma versão estratégica, formulada pelo aparelho burocrático.
A Estratégia de Segurança Nacional de 2025 e a Estratégia de Defesa Nacional de 2026, de que Elbridge Colby é o principal arquitecto, articulam o território continental e o hemisfério ocidental primeiro, a dissuasão da China e a relevância do Indo-Pacífico, mantém que os aliados são essenciais para a manutenção da vantagem competitiva dos Estados Unidos num sistema internacional anárquico – embora lhes exija que assumam a sua própria defesa e sejam ideologicamente compatíveis – e assegura que o poder militar não pode ser empregue desnecessariamente sem assegurar os interesses domésticos dos cidadãos norte-americanos.
Existe uma tentativa da administração de estabilizar uma concepção do interesse nacional dos Estados Unidos enquanto convive diariamente com uma prática presidencial que rejeita, cognitivamente, essa disciplina.
Trump diz e faz coisas estúpidas? Sim. Mas não é a estupidez que explica o seu padrão de comportamento e decisão a que assistimos diariamente no relacionamento com aliados, nas políticas tarifárias, na tentativa de resolver a guerra na Ucrânia ou no enquadramento do conflito com o Irão.
A chave reside na sua forma de ler e organizar o mundo, e de agir sobre ele.