Trump meteu o Pentágono no petróleo da Venezuela. E o parceiro será um empresário investigado por branqueamento e fraude fiscal
O governo de Donald Trump poderá ficar com até 35% da empresa que vai explorar petróleo venezuelano e terá acesso privilegiado à produção, num acordo conduzido por um gabinete do Pentágono criado originalmente para reforçar a indústria de Defesa. A parceria envolve Alejandro Betancourt López, empresário venezuelano investigado em Espanha e na Suíça, e será feita, garante a Casa Branca, "sem qualquer custo para os Estados Unidos"
Foi criado para colocar dinheiro onde a indústria de defesa norte-americana tinha falhas: componentes críticos fabricados na China, cadeias de abastecimento frágeis, fábricas incapazes de repor com rapidez o armamento consumido em guerras cada vez mais longas.
Mas quatro anos depois, o Gabinete de Capital Estratégico do Pentágono prepara-se para entrar num negócio bem diferente: o petróleo da Venezuela.
Segundo o New York Times, este gabinete pouco conhecido do Departamento da Defesa está a liderar, do lado norte-americano, a construção de uma parceria com a North American Blue Energy Partners, empresa fundada pelo empresário venezuelano Alejandro Betancourt López. Donald Trump anunciou o acordo na sexta-feira e atribuiu as negociações ao secretário da Defesa, Pete Hegseth, e a Marco Rubio, secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca.
O objetivo, afirmou o presidente dos Estados Unidos, é garantir milhares de milhões de barris de reservas venezuelanas “através de uma parceria com empresas privadas”.
É na forma encontrada para essa parceria que o negócio começa a afastar-se do habitual. Washington terá a opção de ficar com até 35% da empresa-mãe através de warrants — instrumentos financeiros que dão ao titular o direito de comprar ações por um preço previamente fixado. Neste caso serão títulos de valor praticamente simbólico: de acordo com duas fontes citadas pelo New York Times, poderão ser convertidos em ações por apenas um cêntimo de dólar.
A Casa Branca assegura que tudo será feito “sem qualquer custo para os Estados Unidos”. Ou seja, o Estado não teria de entregar capital para receber os warrants, mas a entrada de Washington e o “selo político” de uma parceria oficial podem tornar mais fácil à empresa captar investimento privado e dar-lhe maior proteção perante mudanças políticas ou problemas legais na Venezuela.
Alejandro Betancourt López sustenta que o acordo permitirá libertar o potencial do país “para grande benefício de venezuelanos e americanos”.
Mas a participação financeira é apenas uma parte do acordo. O governo norte-americano terá também direito a 20% do petróleo produzido pela empresa ao custo de produção, portanto a um preço favorável, e o Departamento de Estado ficará com direito de preferência sobre os restantes 80%.
É precisamente aí que o negócio entra num terreno pouco habitual para a diplomacia norte-americana. O petróleo é normalmente comprado e vendido por petrolíferas e intermediários, enquanto uma aquisição destinada às reservas estratégicas dos Estados Unidos exige autorizações próprias, incluindo do Congresso, e costuma passar igualmente pelo Departamento da Energia.
O desvio em relação às funções tradicionais não se limita ao Departamento de Estado. Também o gabinete que agora conduz o acordo nasceu para outra missão.
Criado em 2022, durante a administração de Joe Biden, o Gabinete de Capital Estratégico destinava-se a financiar empresas consideradas essenciais à segurança nacional. Emprestava dinheiro e recebia-o de volta com juros abaixo dos praticados no mercado. Já com Trump no cargo, começou a exigir também warrants. E cresceu: a capacidade inicial de empréstimo, de mil milhões de dólares — cerca de 862 milhões de euros — aumentou entretanto para 100 mil milhões de dólares, aproximadamente 86,2 mil milhões de euros.
Esse crescimento ficou sob a tutela do vice-secretário da Defesa, Stephen Feinberg, empresário multimilionário e cofundador da Cerberus Capital Management. O atual diretor do gabinete, David Lorch, trabalhou na mesma sociedade de investimento.
Em novembro de 2025, já sob esta nova orientação, o organismo anunciou um empréstimo de 620 milhões de dólares, cerca de 535 milhões de euros, à Vulcan Elements, fabricante norte-americana de ímanes de terras raras, para reforçar a produção doméstica e reduzir a dependência dos Estados Unidos das cadeias de fornecimento chinesas..
A entrada no petróleo venezuelano leva agora esse modelo mais longe — e expôs uma contradição dentro da própria administração.
No sábado, o principal porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, assegurou que o gabinete “não adquire participações em empresas privadas”. Dois dias depois, a Casa Branca confirmou que o governo poderá ficar com até 35% da empresa-mãe de Betancourt López através dos referidos warrants.
À dúvida sobre o papel do Estado junta-se a escolha do parceiro privado. Alejandro Betancourt López recebeu no passado contratos petrolíferos na Venezuela sem concurso público e foi investigado em Espanha e na Suíça por suspeitas de branqueamento de capitais e fraude fiscal.
Segundo o New York Times, o Departamento de Estado pressionou nos últimos meses os governos suíço e britânico para aliviar as restrições que dificultavam as suas deslocações, numa altura em que Marco Rubio pretendia que o empresário regressasse à Venezuela para trabalhar em negócios e produção de petróleo.
A empresa rejeita qualquer ideia de culpa criminal. “Alejandro Betancourt nunca foi acusado de um crime em qualquer jurisdição”, sublinhou a assessoria jurídica da North American Blue Energy Partners.