Turismo em Portugal abranda, mas não “quebra”. Setor navega nova fase focada em valor
Durante anos, Portugal habituou-se a ver o turismo bater recordes. Agora, com o crescimento a abrandar, os líderes do setor ouvidos pelo ECO defendem que o desafio passa por gerar mais valor.
ECO Fast
- O turismo em Portugal está a passar por um abrandamento, mas continua a crescer, com líderes do setor a enfatizarem a necessidade de gerar mais valor em vez de apenas aumentar o número de visitantes.
- Os dados de 2025 mostram um aumento moderado nas chegadas de turistas e nas dormidas, com a procura interna a compensar a desaceleração da procura externa, refletindo uma mudança no comportamento dos consumidores.
- A transição para um turismo de maior valor é vista como essencial, com o Governo e associações do setor a defenderem a necessidade de experiências diferenciadas e maior qualidade, visando melhorar a rentabilidade e a distribuição da riqueza gerada.
O turismo português abrandou, mas não travou. Os principais líderes do setor dizem ao ECO que o ciclo de crescimento acelerado dos últimos anos deu lugar a uma fase mais madura e exigente, em que o desafio já não é apenas atrair mais turistas, mas gerar mais valor.
“Os dados disponíveis confirmam um abrandamento do ritmo de crescimento, mas não uma quebra da atividade turística. O setor continua a crescer em hóspedes, dormidas e receitas, embora a ritmos mais moderados do que nos últimos anos, o que é também natural depois do forte crescimento registado na última década”, diz ao ECO Cristina Siza Vieira, CEO e vice-presidente executiva da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP).
Pedro Costa Ferreira, presidente da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo (APAVT), deixa um diagnóstico semelhante: “Há um abrandamento do ritmo de crescimento, mas é importante não confundir abrandamento com retração”, destacando que “o turismo português continua a crescer em 2026”.
A leitura é parecida na Confederação do Turismo de Portugal (CTP). Francisco Calheiros considera que a moderação do crescimento já se vinha desenhando em 2025 e ocorre agora num contexto internacional particularmente incerto. Ainda assim, sublinha que os dados continuam a apontar para crescimento e estão globalmente em linha com o cenário de estabilidade ou ligeira expansão antecipado pela confederação para este ano.
Também a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) identifica um crescimento mais moderado, sobretudo na procura internacional. A associação chama ainda a atenção para as diferenças entre territórios: enquanto Norte e Alentejo registam os crescimentos mais expressivos, outras regiões apresentam já quebras no número de dormidas.
O diagnóstico é, por isso, relativamente consensual entre os representantes do setor: o turismo não deixou de crescer, mas desacelerou.
Há um abrandamento do ritmo de crescimento, mas é importante não confundir abrandamento com retração. O turismo português continua a crescer em 2026.
Crescimento perdeu velocidade
Os números de 2025 ajudam a explicar essa mudança de ritmo. O número de chegadas de turistas não residentes aumentou 3,3%, para 29,9 milhões, depois de ter crescido 9,3% no ano anterior. Nos meios de alojamento turístico, o número de hóspedes avançou 2,2% e as dormidas 1,6%, desacelerando face aos aumentos de 4,8% e 3,8% registados em 2024.
Foi sobretudo na procura externa que o travão se tornou mais evidente. As dormidas de não residentes cresceram apenas 0,6% em 2025, depois de terem aumentado 4,8% no ano anterior. Por outro lado, a procura interna ajudou a compensar parte desta desaceleração, com as deslocações turísticas dos portugueses a acelerarem 13,7% no ano passado.
A mudança de ritmo também se refletiu na importância económica do setor. O Consumo do Turismo no Território Económico cresceu 4,9% em 2025, abaixo da variação nominal do PIB, de 5,9%, de acordo com dados do INE. Depois de ter atingido um máximo histórico de 16,3% do PIB em 2023, este indicador recuou para 16,2% em 2024 e 16,1% no ano passado.
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A riqueza diretamente gerada pelo turismo, medida através do Valor Acrescentado Bruto Gerado pelo Turismo, continuou, contudo, a aumentar. Cresceu 5,6% em 2025, exatamente ao mesmo ritmo do VAB nacional, fixando-se em 21,5 mil milhões de euros. O seu peso na economia manteve-se estável nos 8,1% do VAB nacional.
Ou seja, o turismo continua a crescer, mas deixou de avançar a um ritmo superior ao da economia portuguesa.
Os primeiros dados disponíveis para 2026 parecem prolongar esta tendência. O setor do alojamento turístico registou 9,4 milhões de hóspedes e 23,3 milhões de dormidas, entre abril e junho, o que representa um aumento homólogo de 2,3% e de 1,2%, respetivamente.
Para o presidente da APAVT, os dados são “sinais claros de normalização”, depois de vários anos de crescimento extraordinário. “O turismo não está a deixar de crescer. Está a entrar numa fase em que terá de crescer de outra maneira”, defende.
Essa nova fase é também explicada por mudanças no comportamento dos consumidores. A AHP identifica turistas mais cautelosos, maior incidência de reservas de última hora e uma procura menos previsível para as empresas. Francisco Calheiros aponta igualmente para um contexto internacional particularmente incerto, marcado por maior prudência dos consumidores e por uma tendência para viagens mais curtas e maior contenção da despesa no destino.
Mais valor. A nova fase do turismo português
Perante este abrandamento, a questão que se coloca é se Portugal está a entrar numa nova fase em que o crescimento deixa de ser medido apenas pelo aumento do número de visitantes e passa, cada vez mais, pelo valor que cada turista deixa no país.
Para Cristina Siza Vieira, a evolução mais favorável das receitas face aos indicadores de volume mostra que o setor continua a conseguir gerar mais valor, uma tendência que, defende, “deve ser consolidada”.
“Portugal não tem como objetivo receber indefinidamente mais turistas todos os anos”, defende. “O importante é aumentar o valor gerado por cada visitante, prolongando estadas, promovendo maior consumo no destino e criando condições para que essa riqueza se distribua por mais regiões e ao longo de todo o ano”, destaca a líder da AHP em declarações ao ECO.
O importante é aumentar o valor gerado por cada visitante, prolongando estadas, promovendo maior consumo no destino e criando condições para que essa riqueza se distribua por mais regiões e ao longo de todo o ano.
Francisco Calheiros considera também que os indicadores de receita continuam a dar sinais positivos, mas alerta que a leitura da evolução do setor não pode ser feita apenas com base nos dados disponíveis sobre o alojamento turístico. O presidente da Confederação do Turismo de Portugal sublinha que “as estatísticas disponíveis não cobrem integralmente todas as formas de alojamento turístico”, pelo que os números devem ser analisados em conjunto com outros indicadores de atividade. Entre eles estão, refere, as receitas, os pagamentos com cartões e o movimento aeroportuário, que cresceu inclusive 2,5% no primeiro semestre do ano.
O objetivo, defende Francisco Calheiros, “não deve ser simplesmente trazer mais turistas, mas aumentar o valor económico, social e territorial gerado pelo Turismo”, melhorando a qualidade da experiência, a permanência, a despesa no destino e a sustentabilidade da atividade.
O objetivo não deve ser simplesmente trazer mais turistas, mas aumentar o valor económico, social e territorial gerado pelo turismo.
A ideia de uma mudança de foco, do volume para o valor, é também defendida pelo Governo. No final de julho, o ministro da Economia e da Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, afirmou que Portugal precisa de “valorizar o turismo” e considerou que o objetivo deve passar por aumentar o valor gerado por cada visitante.
O ministro defendeu que o turismo de massa não é a solução e que a aposta deve passar por experiências diferenciadoras e por uma oferta de maior qualidade. “Aumentar o valor significa que cada turista tem de pagar mais pelos dias que passa em Portugal”, afirmou, defendendo que essa estratégia deve permitir melhorar os salários de quem trabalha no setor e assegurar retorno suficiente para que as empresas continuem a investir.
Mas Pedro Costa Ferreira deixa um novo aviso contra uma leitura demasiado simplista dos números. O facto de as receitas crescerem acima dos principais indicadores de volume não significa automaticamente que cada turista esteja a gastar significativamente mais.
“Há efeitos de preço, inflação e composição da procura que também devem ser considerados”, alerta. “Crescer em valor não é simplesmente cobrar mais pelo mesmo produto“, alerta o líder da associação que representa as agências de viagens.
Para o presidente da APAVT, criar valor significa aumentar produtividade, inovação e conhecimento, desenvolver melhores produtos e experiências, fortalecer as empresas e criar condições para melhores empregos e salários.
A AHRESP vai ainda mais longe e alerta que esta transição para um turismo de maior valor ainda não está consolidada. Ana Jacinto, secretária-geral da associação, recorda que, no primeiro semestre de 2026, o gasto médio por compra realizada com cartões estrangeiros foi de 35,7 euros, menos 5,3% do que no período homólogo.
Para a associação, o atual abrandamento no número de visitantes não está, pelo menos de forma global, a ser compensado por um aumento equivalente da despesa.
Menos peso do turismo é necessariamente mau?
A desaceleração do turismo e a ligeira redução do peso do consumo turístico no PIB não significam, necessariamente, uma perda de importância do setor na economia portuguesa, defendem os representantes do setor.
Para Ana Jacinto, secretária-geral da AHRESP, o turismo funciona como uma “verdadeira montra do país”, criando procura que se estende muito além das atividades que o compõem diretamente, beneficiando áreas como o comércio, os transportes, a cultura, a agricultura ou a indústria.
“Se estes estão também a crescer e a ganhar peso, não significa que o turismo esteja a perder importância; significa que a riqueza que ajuda a gerar se está a disseminar por uma economia cada vez mais diversificada”, defende a secretária-geral da AHRESP.
Francisco Calheiros partilha desta leitura. Se outros setores estão a crescer e a ganhar peso, defende, isso não significa necessariamente que o turismo esteja a perder importância, mas que a economia portuguesa está a tornar-se mais diversificada.

Pedro Costa Ferreira faz uma leitura semelhante e considera que “uma eventual redução do peso relativo do turismo na economia não seria necessariamente uma má notícia”, afirma. Se o setor continuar a crescer e outras atividades crescerem ainda mais, Portugal poderá ter uma economia “mais diversificada e mais forte”.
Mas o presidente da APAVT evita colocar a discussão numa escolha entre receber menos visitantes ou atrair apenas turistas com maior capacidade de gasto. “Portugal precisa de volume, mas precisa sobretudo de gerar mais valor a partir desse volume”, defende.
O objetivo, acrescenta, deve passar por aumentar a produtividade e a despesa turística, reduzir a sazonalidade e distribuir melhor a atividade pelo território, preservando simultaneamente a qualidade da experiência turística e a qualidade de vida dos residentes.
“Não podemos escolher entre quem nos visita e quem vive cá. Temos de conseguir criar valor para ambos”, resume o líder da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo.
Se tivermos de escolher, é preferível receber menos turistas, mas com maior capacidade de gasto, que procurem uma oferta de maior qualidade e deixem mais valor nos territórios, reduzindo simultaneamente a pressão sobre as comunidades e os recursos.
A posição é próxima da defendida pela AHP. Cristina Siza Vieira considera que a discussão não deve ser reduzida a uma escolha entre receber mais ou menos turistas. “Portugal deve procurar um turismo que gere mais valor, com uma oferta cada vez mais qualificada, menor sazonalidade e uma melhor distribuição dos fluxos pelo território. Mas o número de visitantes é importante, ainda que não seja seguramente o único indicador de sucesso do setor”, reforça Cristina Siza Vieira.
Ana Jacinto vai ainda mais longe: “Se tivermos de escolher, é preferível receber menos turistas, mas com maior capacidade de gasto, que procurem uma oferta de maior qualidade e deixem mais valor nos territórios, reduzindo simultaneamente a pressão sobre as comunidades e os recursos.”
Nem todos os setores sentem o abrandamento da mesma forma
A nova fase do turismo também não está a ser sentida da mesma forma por todos os segmentos do setor.
Na hotelaria, a AHP não identifica, para já, “sinais de retração, pelo contrário”. A dificuldade em recrutar, qualificar e estabilizar recursos humanos continua, segundo Cristina Siza Vieira, a ser um dos grandes problemas estruturais do setor.
Por outro lado, Siza Vieira sinaliza que os custos de operação permanecem elevados, pelo que um abrandamento da procura poderá pressionar as margens das empresas.
Na restauração, o cenário é mais exigente. A AHRESP aponta para uma combinação particularmente difícil: procura menos dinâmica, consumidores mais sensíveis ao preço e custos operacionais elevados. No acumulado entre janeiro e maio, foram registadas 6.446 aberturas e 9.279 encerramentos de estabelecimentos de restauração, um saldo negativo de 2.833 unidades, segundo dados disponibilizados pela DIG-IN e citados pela associação.
JOSÉ COELHO/LUSA
Quase três quartos dos empresários da restauração inquiridos pela AHRESP antecipavam, antes da época alta, receitas semelhantes ou inferiores às registadas no verão de 2025. A associação alerta para uma forte compressão das margens e admite que esta pressão financeira pode limitar a capacidade das empresas para contratar, reter e valorizar trabalhadores.
“O principal desafio das empresas não será apenas atrair mais clientes, mas conseguir transformar procura em rentabilidade num contexto de custos operacionais elevados, forte carga fiscal e tributária e maior sensibilidade ao preço”, afiança Ana Jacinto.
A APAVT não identifica, para já, sinais de retração no emprego. No primeiro trimestre de 2026, o alojamento e a restauração empregavam 344,1 mil pessoas, mais 8,7% do que no mesmo período do ano anterior.
Pedro Costa Ferreira alerta, no entanto, que uma desaceleração mais prolongada poderá fazer-se sentir primeiro nas margens das empresas, no investimento e no ritmo das contratações. “É precisamente por isso que produtividade e competitividade são hoje mais importantes do que perseguir crescimento em volume a qualquer custo”, defende.
Depois do boom, o desafio é crescer melhor
O turismo português não está, para já, perante uma quebra. Os visitantes continuam a chegar, as dormidas continuam a crescer e as receitas mantêm uma evolução positiva.
No entanto, os ritmos já são outros. Depois de anos de crescimento acelerado, o setor entrou numa fase de maior maturidade, marcada por consumidores mais cautelosos, maior sensibilidade aos preços, procura internacional menos dinâmica e empresas pressionadas por custos elevados.
Portugal já demonstrou que sabe crescer em quantidade. O próximo desafio é crescer melhor.
A questão deixa, por isso, de ser apenas quantos turistas Portugal consegue receber. Como resume Pedro Costa Ferreira, durante muito tempo a pergunta foi: “Quantos turistas conseguíamos trazer para Portugal?”. Agora, defende, importa perguntar: “Quanto valor conseguimos criar a partir do turismo que temos?”.
“Portugal já demonstrou que sabe crescer em quantidade. O próximo desafio é crescer melhor”, conclui o presidente da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo.