Um ano após a morte de Preta Gil, Francisco Gil fala da saudade da mãe: 'Atravessa como uma espada no peito' | Gshow
De Cartagena, na Espanha, onde está em turnê com a banda Gilsons, ele conversou com o gshow e, de imediato, Francisco deixou claro que a mãe continua viva, sim, em sua vida e nos seus pensamentos.
"Você já começou com a pergunta mais difícil, que é de como tocar a vida sem ela... Maior do que qualquer saudade, tristeza e sentimento, é essa ausência nas coisas mais banais como a risada dela. Cada vez mais, tenho sonhado com ela. E é uma falta tão grande e, ao mesmo tempo, uma presença tão forte, que fico pensando nela sempre", diz.
Preta Gil e Francisco Gil — Foto: Reprodução do Instagram
""São lembranças o tempo todo. Parece que durmo e vem tudo isso, ela costuma estar muito viva nos meus sonhos. Tem sido essa luta. Já fez um ano da morte dela, mas parece que foi ontem! É difícil isso tudo ser processado", entrega.
Preta Gil e Francisco Gil — Foto: Reprodução Instagram
Saudade e perseverança de Preta
Francisco também contou que ele e Preta queriam faze uma viagem para a Índia, e que acabou não acontecendo, e que ele fez uma música para homenagear a mãe.
"No final do ano passado, em novembro, fiz uma viagem à Índia, que a gente tinha combinado de fazer quando ela superasse isso tudo. A gente tinha falado bastante sobre fazer essa viagem, num período em que já havia essa iminência da morte. Tínhamos a esperança muito ligada à fé da minha mãe. Essa luta interminável pela vida, ela não deixaria de ir até onde pudesse para ter qualquer tipo de esperança, sabe?"

Francisco Gil e Alane, chegam para o velório de Preta Gil.
"Realizei essa viagem e pude ter vários reencontros com a minha mãe. Talvez tenha sido a forma em que essa saudade mais foi lidada. Porque a verdade é que não há como lidar com essa saudade; ela atravessa como uma espada no peito. É impressionante! Tudo que vivo, vejo, escuto; peno nela e como ela estaria pensando. A gente era muito amigo, cúmplices, uma ligação forte e fico buscando essa ligação até hoje..."
Francisco Gil com os pais, Preta Gil e Otávio Müller — Foto: Reprodução do Instagram
Luto
"O luto é um mistério e muito particular para cada um. Tenho vivido ele intensamente. E esse luto acabou se misturando com todo o processo de luta. A gente teve a luta e o luto. E nesse processo de luta, aprendi muito com a minha mãe, com o que vivemos juntos. Ela exigiu muita luta, tive que revolucionar a minha vida para ter força e lidar com aquilo tudo. E a gente viveu isso juntos, sabe? Ela fez parte desse processo todo. Agora, um ano depois, eu me vejo ainda muito ativo nessa luta, apesar do luto."
Francisco Gil com a filha, Sol de Maria, e a mãe, Preta Gil — Foto: Reprodução Instagram
Ensinamentos de Preta para a vida...
"Foram tantos... A potência do sorriso, a força do amor, a presença do olhar mais fundo, de olhar e ir para uma lente de profundidade — que ilustra a vida da minha mãe. Tudo que ela gerou de afeto, que ela recebeu de volta, de amor, a vida inteira dela... Esses ensinamentos ficam para a vida toda, não tem jeito. Mas é curioso porque, a cada dia, ainda aprendo mais com ela".
Regina Casé, Preta Gil e Francisco Gil, ainda bebê — Foto: Reprodução Instagram
Projeto batizado por Preta Gil
"Sobre a banda Gilsons, a gente está na nossa terceira turnê na Europa. É curioso quando a gente lembra do olhar da minha mãe para isso tudo. Ela ainda tem um reflexo muito grande no nosso trabalho e a gente costuma sempre reforçar isso. Não é em todo show que consigo falar dela, mas em muitos isso se torna inevitável. Foi ela quem nos batizou e escolheu o nome da banda".
A banda: trabalho em família
"É um projeto familiar. Estarmos juntos reflete muito do que foi nossa vida e todos esses momentos. Os meninos tocam na banda com meu avô. A gente tocou durante muito tempo, inclusive com a minha mãe. E agora estamos juntos... É algo que aprendemos ao longo da vida a trabalhar em família."
"No final de contas, não sou só eu nessa história; temos um irmão, um caçula, um sobrinho, um primeiro sobrinho, o João e o José. Foi importante o apoio que recebi deles. Construímos muitas coisas nesses últimos anos, um desafio danado. Muitas vezes saía dos shows e ia direto ficar com ela em hospital, encarar cirurgias, desafios; era uma loucura."
Francisco Gil na guitarra com os demais integrantes da banda Gilsons — Foto: Ellen Soares/gshow
Canção "Reconstruir": homenagem à mãe
"Recentemente, comecei a escrever algumas músicas. Nessa viagem à Índia, acabei filmando o vídeo da canção 'Reconstruir', que minha mãe chegou a conhecer. Passei estes últimos anos todos trabalhando nesse meu disco novo, solo, após seis anos do disco 'Raiz' — que fiz com ela. As últimas músicas que a minha mãe escutou fazem parte desse processo de luta e conversam com o luto. E estão neste novo disco. E foi muito louco porque, na nossa primeira noite na Índia, a gente se deu conta de que estávamos indo para um grande ritual — que depois foi entender que era justamente de reconstrução ligado ao luto."
"Estou terminando de mixar o disco que atravessou toda essa vivência, um verdadeiro testemunho desse período que vivi. E ela fez parte disso, o que é o mais bonito de tudo. Minha mãe está presente nesse trabalho. Então, tenho um apego danado... Essas foram as últimas músicas que minha escutou. Aliás: escutou, praticamente, o disco todo. Só teve uma música que gravei depois de ela ter partido."
Francisco Gil — Foto: Reprodução do Instagram
Lançamento
"Em agosto começo a divulgar algumas faixas, antes do lançamento do disco completo. Até pensei em lançar 'Reconstruir' no dia do aniversário da minha mãe, em 8 de agosto, mas preferi deixar o aniversário dela ali sozinho. Vou começar a botar esse trabalho no mundo, que não deixa de ser um relato, com o fundo dessas vivências, das mais difíceis até as mais virtuosas. É tentar botar um pouco em arte essa dor e essas reconstruções."
"O nome do disco e as informações vou começar a falar já, já. Mas ainda estão guardadinhas. 'Reconstruir' sai em agosto e já vai vir com imagens dessas filmagens que fizemos na Índia, em película. Viajamos o país com câmera analógica, filmando em filme. Foi uma luta danada, mas ficou bonito. A intenção é a gente fazer um documentário disso tudo."
Mãe e filho
"A minha mãe sempre foi muito crítica com a questão de trabalho, de falar as coisas, o que é ótimo! A gente era assim, papo reto! Não tinha essa... Eu era a pessoa que falava para elas as coisas que as outras pessoas não tinham coragem de falar. E ela era a mesma coisa comigo. A gente construiu essa relação de sinceridade, de amor, e isso era muito positivo para a gente."
Preta Gil e o filho, Francisco — Foto: Alex Santana/Divulgação