Um ano no mar: como é viver a tempo inteiro num navio de cruzeiro
Sharon Lane, professora reformada da Califórnia, vive há um ano a bordo do Villa Vie Odyssey, um navio de cruzeiro residencial onde os passageiros podem comprar camarotes e viver a tempo inteiro. Entre rotinas no mar, refeições partilhadas, novas amizades, escalas pelo mundo e desafios como preços de combustível e alterações de rota, Lane diz ter encontrado a sua casa permanente no oceano
Há um ano, Sharon Lane entrou no navio de cruzeiro residencial Villa Vie Odyssey, pronta para embarcar numa aventura.
Não era um cruzeiro de uma semana, nem sequer uma estadia de um mês no mar. Para Lane, o navio de 195.68 metros e oito conveses iria tornar-se o seu local de residência permanente.
“Não estou numa viagem”, disse Lane à CNN Travel por videochamada a partir do navio, um ano depois da sua partida. “Esta é a nossa casa. É aqui que vivemos.”
O Villa Vie Odyssey não é um navio de cruzeiro comum. É uma embarcação “residencial”, o que significa que os passageiros podem comprar camarotes e viver no navio a tempo inteiro. Para Lane, este é um plano “para sempre”. O seu objetivo é continuar a viver a bordo enquanto o navio estiver operacional. Embora tenha sido recentemente renovada, a embarcação tem três décadas de serviço. No ano passado, a empresa de cruzeiros estimou que o navio ainda tinha 15 anos de navegação pela frente.
“Isto é uma casa”, afirmou Lane. “Estou apenas a viver no navio e a adorá-lo.”
Casa no oceano
Operado pela startup de cruzeiros Villa Vie Residences, o Odyssey zarpou sob a sua nova configuração pela primeira vez em setembro de 2024, depois de um arranque atribulado: um plano anterior de cruzeiro de longa duração colapsou antes de ser possível assegurar uma embarcação, seguindo-se uma série de atrasos antes da partida.
Lane juntou-se ao navio em junho de 2025, depois de os desafios operacionais iniciais terem sido, na sua maioria, resolvidos. Para Lane, antiga professora, o Odyssey é um plano de reforma. Fez as contas e concluiu que viver no navio era mais acessível — e muito mais emocionante — do que continuar em casa, na Califórnia. Sempre adorou viajar e viveu na África do Sul durante dois anos na década de 1990. Tornou-se adepta de cruzeiros porque adora a sensação de estar à deriva no mar.
Lane, que está no final da casa dos 70 anos, mantém contacto à distância com a família — incluindo os seus dois netos adultos. Gosta de ter uma comunidade integrada no navio, da qual pode facilmente afastar-se quando quer algum tempo sozinha. Devido ao tamanho da embarcação, consegue sempre encontrar um espaço tranquilo para se perder num livro.
Lane investiu as poupanças de uma vida no plano, optando inicialmente pela opção mais barata: um camarote interior, sem janelas.
“Não passo muito tempo no meu quarto”, referiu Lane.
A Villa Vie Residences disse à CNN que a propriedade de camarotes por cinco anos começa nos 59.999 dólares (52.325 euros). Os preços de propriedade plena começam nos 99.999 dólares (87.209 euros). Existem vários outros planos de ocupação. Os proprietários também pagam mensalidades — que, em 2025, eram de 2.000 dólares (1.745 euros) por pessoa por mês em ocupação dupla e de 3.000 dólares (2.616 euros) em ocupação individual.
Os preços têm oscilado desde que o navio zarpou inicialmente e o projeto ganhou impulso. Existem também tarifas com desconto para passageiros mais velhos.
“Também expandimos as oportunidades de aluguer”, referiu à CNN Mikael Petterson, CEO da Villa Vie Residences, explicando que a opção permite que “mais pessoas experimentem a vida a bordo antes de decidirem se a propriedade é adequada para elas”.
Ainda assim, a maioria dos que estão a bordo está lá a longo prazo, segundo Petterson.
“Os proprietários superam os arrendatários numa proporção de cerca de 3 para 1 atualmente”, disse à CNN. Pouco mais de metade dos que estão a bordo são viajantes a solo, como Lane.
E embora os preços de um camarote da Villa Vie não sejam baratos, continuam a ser comparativamente acessíveis em contraste com o The World, a única outra experiência de navio de cruzeiro residencial atualmente no mar, que se dirige a um mercado mais sofisticado e tem atualmente um preço inicial de 3,5 milhões de dólares (3,05 milhões de euros). Há outros projetos de navios residenciais em desenvolvimento — como o NJORD, que se descreve como uma “comunidade exclusiva no mar” — mas ainda não foram concretizados.
A bordo, a comida e as bebidas não alcoólicas estão incluídas nas mensalidades dos residentes. O álcool ao jantar, o Wi-Fi e as consultas médicas também estão incluídos — mas não procedimentos e medicamentos. Existe ainda serviço de quarto 24 horas por dia, limpeza semanal e serviço de lavandaria quinzenal sem custos adicionais.
E, claro, os que estão a bordo dão a volta ao mundo, fazendo escalas em portos de Tóquio ao Havai. As excursões em terra são opcionais e implicam custos adicionais.
Nos primeiros meses de navegação do Odyssey, a Villa Vie teve de lidar com algumas escalas canceladas, algo que Pettersen atribuiu ao clima, bem como à burocracia e a problemas logísticos em destinos onde são necessárias embarcações auxiliares mais pequenas para levar os passageiros a terra.
A Villa Vie construiu posteriormente passadiços feitos à medida para ligar o navio às embarcações auxiliares, concebidos para reduzir o movimento provocado pelas ondas e pela ondulação.
Estes passadiços já estão em uso ativo pelo Odyssey.
“Demoram até quatro horas a montar e quatro horas a desmontar, por isso só os utilizamos quando estamos fundeados durante vários dias e com boas condições meteorológicas”, explicou Pettersen. “Vamos utilizá-los cada vez mais em portos tropicais de ancoragem, como as Maldivas.”
Vida a bordo
Entre portos, há muito para os residentes desfrutarem no navio — desde entretenimento oficial a bordo a diversões organizadas pelos passageiros, incluindo produções de teatro amador.
Alguns residentes do Odyssey trabalham remotamente a partir do barco. Muitos relatam as suas aventuras nas redes sociais ou em blogues. Há até animais de estimação viajantes a bordo.
Lane não participa em muitas das atividades organizadas, porque não são do seu gosto pessoal, mas adora conversar com a variedade de pessoas interessantes que também chamam casa ao Odyssey.
“O jantar dura muito tempo aqui, porque usamos a hora da refeição como tempo social, por isso sentamo-nos com as pessoas, comemos a refeição e demoramos uma hora e meia, talvez duas horas”, contou.
“Algumas pessoas vão ao karaoke, ou vão ver um filme, ou vão dançar, ou vão a uma peça, e eu não. Não sou assim… Há pessoas que têm tentado convencer-me a jogar bridge, mas eu não tenho absolutamente nenhum interesse em jogar bridge.”
Ainda assim, durante algum tempo, Lane gostou das noites semanais de trivia do navio — e é ocasionalmente tentada por um filme. Começa o dia com 10 minutos na passadeira do ginásio do Odyssey, apreciando as vistas para o mar aberto. Neste momento, o projeto de Lane ao fim do dia é aprender espanhol online. Lane também passou grande parte do último ano a deixar o seu quarto exatamente como queria — por se tratar de um acordo a longo prazo, não havia pressa em tornar o espaço perfeito.
Lane também mudou de camarote ao fim de dois meses, depois de encontrar uma melhor oferta a bordo, com um preço ajustado à sua idade.
O seu camarote atual é uma melhoria — ao contrário do espaço original, tem janelas. Embora tenha vendido muitos dos seus bens antes de embarcar no navio, tem gostado de tornar o espaço acolhedor.
“Não vi qualquer razão para apressar isso”, explicou Lane sobre tornar o espaço seu. “Queria instalar-me no navio, perceber como as coisas funcionavam, encontrar uma rotina para a minha vida.”
Isso incluiu encontrar um lugar preferido no navio. Depois de testar vários espaços de descanso, Lane acabou por escolher uma cadeira confortável num dos corredores do Odyssey, mesmo entre o bar desportivo e o centro de negócios.
“Há uma luz por cima da cabeça para o livro, e há estas janelas enormes — janelas gigantes a toda a largura — por isso conseguimos mesmo, literalmente, ver o oceano a passar”, referiu Lane. “Então, leio o meu livro, olho para fora e aprecio a paisagem. Gosto, especialmente nos dias de mar, porque vemos mesmo o oceano a passar.”
Lane não sai muitas vezes do navio — escolheu um navio de cruzeiro como casa mais porque adora as vistas para o mar do que por gostar de explorar novos portos. Também é cautelosa ao viajar do navio para os portos através de embarcações auxiliares, devido a uma antiga lesão nas costas que teme poder ser agravada pelo movimento das ondas.
Ainda assim, por vezes há algo em terra que Lane sente que está “a chamá-la”, e não consegue resistir a sair para dar uma espreitadela. No Japão, Lane visitou o Monte Fuji, embora chame à excursão “um fiasco”, devido à chuva e às nuvens que obscureceram as vistas.
Quando Lane sai do navio, os seus momentos preferidos não são ver paisagens incríveis — são as interações acidentais, mas memoráveis, com os habitantes locais.
“Estávamos em Hobart, na Austrália, e fui a uma pequena loja de ferragens familiar, daquelas ‘buraco na parede’”, contou, recordando ter conversado durante algum tempo com os proprietários.
“Estamos apenas a viver a vida e a ver que as pessoas do outro lado do mundo são praticamente como nós, e eu adoro isso, a parte cultural, ver como as pessoas vivem e ver o que temos em comum. Foi divertido. Não foi nada de especial, exceto que não me vou esquecer, porque foi simplesmente agradável.”
A bordo do navio, Lane também gosta de se ligar a pessoas de diferentes lugares. Petterson revelou que 80% dos proprietários do Villa Vie Odyssey são dos Estados Unidos e do Canadá, com a Austrália e a Nova Zelândia logo a seguir, chamando ao navio “uma comunidade global próspera”.
Lane recorda um jantar em que criou laços com um casal australiano e um casal escocês devido ao amor comum por romances policiais. Ficou encantada ao perceber que todos partilhavam um autor preferido.
As pessoas que embarcaram no navio no mesmo porto e na mesma data também ficam ligadas para sempre, segundo Lane.
“É como terminar o ensino secundário — temos o mesmo dia de formatura, exceto que nos formámos da vida em terra para a vida no oceano”, brincou.
Para Lane, a parte mais difícil da vida a bordo é que nem todos estão no navio de forma permanente, e por vezes aproxima-se de pessoas que depois desembarcam. Ainda assim, mantém contacto com muitos dos seus antigos companheiros de navio, incluindo uma boa amiga que passou uma temporada no navio antes de regressar a casa, em Cabo San Lucas, no México.
“Ela está a planear juntar-se novamente a nós para voltar ao navio no próximo ano, quando fizermos a Europa, por isso vou poder vê-la nessa altura, e falamos por FaceTime”, revelou Lane.
Embora alguns residentes venham e vão, Lane diz que normalmente se consegue distinguir entre as pessoas que veem o Odyssey como um destino de férias e as que estão lá a longo prazo.
“Dá para perceber onde está a cabeça delas pela forma como se referem a ‘casa’”, referiu. Para Lane, casa já não é a Califórnia. É onde quer que o Odyssey esteja nesse momento no mapa-mundo.
Vida a bordo
Depois de um ano a bordo, Lane ainda não sentiu falta de cozinhar para si própria — e definitivamente não tem saudades de tratar da roupa e da limpeza. Deixar de se preocupar com tarefas domésticas é “o paraíso”.
Em geral, Lane diz que se sente “afastada do mundo real” — e é assim que gosta.
“Se o mundo real é conduzir até à bomba de gasolina e ver que os preços estão elevadíssimos agora, se o mundo real é ir ao supermercado e ficar numa longa fila, se o mundo real é pagar contas e preocupar-me com o que está a acontecer em vários lugares, então não, obrigada”, afirmou.
Isso não significa que Lane e os restantes residentes do Odyssey não acompanhem as notícias do mundo.
“Estamos atentos e mantemo-nos uns aos outros informados quando as coisas acontecem”, contou, sublinhando que todos os residentes têm amigos e família por todo o mundo, afetados pela geopolítica.
As consequências em curso da guerra no Irão — encerrando espaço aéreo, vias navegáveis e aumentando os preços dos combustíveis — também tiveram impacto direto no Odyssey.
“Tivemos de nos manter flexíveis e ocasionalmente ajustar rotas ou escalas com base em acontecimentos globais”, explicou Petterson, que referiu que a empresa está a tentar criar itinerários mais flexíveis, capazes de acomodar melhor acontecimentos imprevisíveis.
Lane chamou aos preços e à escassez de combustível “uma grande preocupação”, mas disse que ficou satisfeita ao ver a Villa Vie tentar encontrar alternativas.
“Sem combustível não nos mexemos, por isso isso é importante”, afirmou. “Nem sempre gostamos de tudo o que vemos, mas não podemos realmente mudá-lo individualmente, por isso tentamos não nos preocupar com isso.”
“Felizmente, o nosso modelo residencial permite-nos maior flexibilidade para otimizar rotas e tempo em porto, ajudando-nos a gerir custos enquanto mantemos a viagem”, disse Pettersen.
Vida de sonho
Lane assinalou o seu primeiro aniversário no navio com um jantar com os seus companheiros que também completavam um ano a bordo.
“Muitos jantaram juntos”, contou. “Houve também um anúncio em todo o navio a desejar-nos a todos um feliz aniversário.”
Um ano depois, Lane disse que se sente mais feliz do que nunca. A sua estadia no Odyssey já vinha de longe — também se tinha inscrito no conceito inicial de cruzeiro residencial que se desfez antes de sair do papel.
“Acreditei nisso na altura, e acredito nisso agora”, referiu Lane sobre a vida permanente no oceano. “Temos um problema com o combustível que eles estão a tratar. Tivemos alguns outros pequenos problemas. Eles lidam com isso. Nós resolvemos, descobrimos uma forma, porque isto é novo.”
Para Lane, esta é a vida de sonho.
“Isto é para pessoas que querem um ritmo mais lento, uma forma de ver o mundo mas viver com menos responsabilidades. Se ganhasse a lotaria, comprava simplesmente o camarote ao lado do meu, abria uma porta entre os dois camarotes e transformava aquele num closet.”