"Um de nós deve lembrar-se". Entre o Restelo e a guerra colonial: a adolescência de uma geração marcada pela ditadura - 24 Notícias

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Ao contrário de Luís Ashley – o seu primo direito que vivia ali perto, na Rua de Pedrouços, e que nascera, como ele, em 1949 –, Jaime Paes de Magalhães era fútil e muito difícil de assoar. Profundamente egoísta, como a maior parte dos filhos únicos, não aprendera a aplicar-se e a perseverar, e focava-se apenas no seu prazer imediato e fácil de obter. Essa talvez fosse uma das razões pelas quais não singrara nos estudos – frequentara o Liceu Dom João de Castro durante anos e experimentara também os Maristas e o Clenardo, mas não tinha conseguido passar do 2.o ciclo. Porém, a principal razão do seu insucesso liceal, todos o sabiam, era por Jaime não dever muito à inteligência. Os amigos, com quem fizera a escola primária e que o viram levar reguadas atrás de reguadas devido aos erros nos ditados, não desconheciam os seus fracos dotes de raciocínio. Quem, senão um burro como Jaime poderia ter escrito «o barco do meu Dias» no ditado sobre os Descobrimentos? Ou, então, «os pombos em sangue aguentados», na redacção sobre caça e pesca? A coisa era a tal ponto que, adiante, já nos anos de liceu, um deles – o Papi, talvez, mas já ninguém sabia ao certo – instituira o «Jaime» como unidade de inteligência humana. Quatro «Jaimes» era bom, um «Jaime» era a estupidez normal e a estupidez extrema equivalia a meio «Jaime».

A pesada canga da burrice foi acompanhando aquele filho único ao longo dos anos, pois nunca, até à data, se acendera na sua cabeça o brilho de uma ideia nova. Às vezes, desconfiado como todos os estúpidos e sempre de ouvido à escuta, dava-se conta da triste fama que transportava consigo e levava isso muito a mal. Certa vez, na esplanada do Chile, surpreendeu João Pedro Simões a fazer, em voz baixa, considerações a seu respeito...

Livro: "Um de nós deve lembrar-se"

Autor: João Pedro Marques

Editora: Porto Editora

Data de lançamento: maio de 2026

Preço: € 17,75

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– Sabes aqueles casacos de camurça que dizem pele genuína? O Jaime é um estúpido genuíno. O produto em estado puro.

... e assentou-lhe de imediato dois murros, partiu-lhe os óculos e ter-lhe-ia partido muito mais coisas se outros amigos não se tivessem interposto e sanado o incidente.

É que, além da escassa inteligência, a agressividade era outro grande problema de Jaime e o seu maior divertimento era envolver-se em cenas de pancadaria, que geralmente provocava. Costumava vencê-las, ainda que não fosse um Hércules. Era alto, sim, um pouco amarrecado porque, numa determinada fase da sua adolescência, a altura envergonhava-o e ele encurvara-se para a disfarçar, e tinha boa musculatura, mas não era propriamente corpulento nem pesado. Todavia, tinha uma inesperada força – partia nozes com as mãos – era ágil como um gato e muitíssimo violento, sem contemplações com os adversários. Podia pontapear um opositor caído ou meter-lhe os dedos nos olhos para o vencer. Os pais desesperavam, tantas as complicações que ele arranjava, e houve mesmo, por quatro vezes, necessidade de pagar despesas hospitalares e danos corporais que Jaime causara, nomeadamente ao Fernando Bartold, a quem fracturara o maxilar inferior.

Em desespero de causa, para o entreter enquanto o serviço militar não chegava – iria para os comandos, garantia –, o pai arranjara-lhe um part-time num stand da Opel. Como tinha lábia, Jaime conseguia vender alguns carros e não ganhava mal, o que, adicionado à mesada que continuava a receber, lhe permitia uma vida desafogadíssima na qual, porém, tinha dificuldade em encontrar rumo e parceiros. Durante anos convivera com o primo Luís, o Vasco Lima, o Papi e mais gente que havia feito com ele a instrução primária ou que conhecera ali no bairro. O problema, porém, é que esses amigos gostavam de se armar em inteligentes e não sabiam divertir-se ao murro. Por isso, não raro, Jaime também alinhava com o grupo de Cascais, mais dado à provocação e à desordem, ou nas pândegas dos mais velhos ali do bairro, como o Claude ou o Amável.

Mas fossem mais velhos ou mais novos, amigos recentes ou de sempre, a verdade é que ninguém lhe conhecia interesses intelectuais, científicos ou artísticos. Interessava-se – isso, sim, sabia-se – por genealogia e conhecia todos os nomes das famílias importantes e as relações de parentesco dos membros das classes altas do país. Gostava de touradas e de tudo o que fosse confrontativo e violento, e chegara a pegar de caras numa tenta em Montemor. A sua tendência para o exagero e a mentira também era sobejamente conhecida. Comprazia-se, em especial, em narrar a fantasiosa origem da família e em dizer-se descendente de Fernão de Magalhães, único personagem da história pátria cujos feitos conhecia. Os amigos faziam comentários jocosos a propósito de cada uma das suas efabulações...

– Galga! Tanga!

... mas, ou porque não entendesse aqueles ditos, ou porque não lhe importassem, Jaime continuava, impenitente, a debitar relatos inverosímeis.

Para além de reincidir constantemente em mentiras, era, todos o sabiam, extremamente vaidoso. De facto, e apesar de isso ser de certo modo contraditório com a sua truculência, Jaime usava anel de brasão e gostava de se vestir bem. Nunca aderira ao cabelo comprido nem à moda hippie, que lhe repugnava, e era comum vê-lo de calças bege e blazer azul de bom corte, ou então com óptimas camisolas Sydney de lã ou de caxemira e fatos de bombazine. Era um cliente regular da Charlot e de outras lojas de boa e dispendiosa moda masculina e calçava invariavelmente sapatos Lottusse de pala – até tinha um par bicolor, castanho e branco – impecavelmente engraxados. Essa boa apresentação não era de estranhar. O pai era um quadro superior da General Motors, na Europa, a família vivia muito confortavelmente e Jaime cuidava do seu aspecto. Tinha a consciência de que as raparigas o achavam uma brasa. Só não sabia que elas o consideravam enfadonho e lhe haviam posto várias alcunhas pejorativas. A Ema, por exemplo, chamava-lhe «o príncipe com orelhas de burro».

"É Desta Que Leio Isto"

"É Desta Que Leio Isto" é um grupo de leitura promovido pela MadreMedia. Lançado em maio de 2020, foi criado com o propósito de incentivar a leitura e a discussão à volta dos livros.

Já folheámos as páginas de livros de autores como Luís Sepúlveda, George Orwell, José Saramago, Dulce Maria Cardoso, Harper Lee, Valter Hugo Mãe, Gabriel García Marquez, Vladimir Nabokov, Afonso Reis Cabral, Philip Roth, Chimamanda Ngozi Adichie, Jonathan Franzen, Isabel Lucas, Milan Kundera, Joan Didion, Eça de Queiroz e Patricia Highsmith, sempre com a presença de convidados especiais que nos ajudam à discussão, interpretação, troca de ideias e, sobretudo, proporcionam boas conversas.

Ao longo da história do nosso clube, já tivemos o privilégio de contar nomes como Teolinda Gersão, Afonso Cruz, Tânia Ganho, Filipe Melo e Juan Cavia, Kalaf Epalanga, Maria do Rosário Pedreira, Inês Maria Meneses, José Luís Peixoto, João Tordo e Álvaro Laborinho Lúcio, que falaram sobre as suas ou outras obras.

Para além dos encontros mensais para discussão de obras literárias, o clube conta com um grupo no Facebook, com mais de 2500 membros, que visa fomentar a troca de ideias à volta dos livros, dos seus autores e da escrita e histórias que nos apaixonam.

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Tudo isso era público e comentado. O que só os mais próximos sabiam, contudo, é que Jaime tinha um interesse erótico por criadas de servir. Já se deitara com várias que trabalhavam lá em casa, e nunca tinha havido complicações porque andava sempre com preservativos no bolso, para o que desse e viesse. Mas muitas vezes não se contentava com o fornecimento doméstico e ia em busca de outras presas, na vizinhança ou mais longe, cortejando-as, dançando com elas nos bailaricos de sábado à noite, falando-lhes ao coração e lutando a murro, se preciso fosse, para as despegar de algum caixeiro ou marçano. As mulheres, por norma, gostavam daquele menino rico, bem-vestido e a cheirar a boa água-de-colónia, que se batia por elas, e entregavam-se-lhe sem pestanejar. E ele entrava nelas num recanto pouco iluminado ou, então, nas noites quentes de Verão, ia desinquietá-las às casas onde serviam, atraía-as aos jardins, se os houvesse e não tivessem cães de guarda, e era ali, encostado a uma parede ou sobre um relvado que ainda retinha os calores do dia, que consumava a conquista.

Já estivera ligado a várias meninas ali do bairro e de outros sítios. Namorara a Ema, a Graça, a Luísa, que vivia em Belém, e uma francesa que conhecera nas férias, mas não se entusiasmara com nenhuma delas. As criadas exerciam sobre ele um fascínio insuperável, tinham um cheiro bom a corpo trabalhador e a perfume ordinário, e demonstravam uma submissão que muito o excitava e que não existia entre as raparigas com quem se relacionava – que, aliás, não lhe concediam muitas liberdades. O que Jaime gostava nas criadas era, acima de tudo, a dependência, a humildade, o estarem ali sempre ao seu dispor e que, mesmo na cama, fossem respeitosas. Gostava de, quando ia para lá do habitual, as ouvir reclamar vagamente:

– Ai, menino, assim não.

E gostava do que via nas afogueadas caras delas. O olhar sonhador de uma criada, quando se lhe entregava, era o melhor afrodisíaco que ele conhecia. Talvez mais para a frente arranjasse uma mulher sensaborona para casar e ter filhos, mas continuaria a procurar o verdadeiro prazer entre as pernas das criadas e das empregaditas de balcão. Havia entre essas pernas uma ânsia de trepar, de subir na vida, que ele nunca encontrara noutras mulheres mais bem posicionadas no mundo.

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