Um drone português para ajudar a defender o Japão
Há notícias que nos dizem mais sobre o futuro do que muitas cimeiras internacionais.
A decisão do Ministério da Defesa do Japão selecionar um drone de interceção desenvolvido pela portuguesa Beyond Vision para um programa de avaliação é, indubitavelmente, uma delas.
Num momento em que o Japão reforça a sua capacidade de defesa perante a crescente pressão militar da China e da Coreia do Norte, esta escolha representa e traduz muito mais do que um contrato tecnológico. É um sinal claro de que as democracias estão a apostar na inovação como primeira linha de defesa e de que Portugal pode ter um papel relevante e interessante nesse esforço.
A guerra na Ucrânia demonstrou que os drones vieram para ficar, mostrando também que tão importante como desenvolvê-los é saber travá-los.
Um sistema capaz de intercetar drones hostis protege infraestruturas críticas, forças militares e populações. Não serve para conquistar território; serve para impedir que outros o façam.
É precisamente por isso que esta notícia merece atenção em Portugal.
Durante demasiado tempo, olhámos para a indústria de defesa como um setor marginal, esquecendo que muitas das tecnologias que hoje utilizamos nasceram precisamente da investigação militar.
Robótica, inteligência artificial, sensores ou sistemas autónomos são áreas onde empresas portuguesas começam a afirmar-se internacionalmente.
A Beyond Vision demonstra que Portugal pode ser mais do que um utilizador de tecnologia produzida por terceiros. Pode conceber, desenvolver e fabricar sistemas capazes de responder às exigências de um dos mercados de defesa mais sofisticados do mundo.
Verifica-se ainda uma dimensão política que importa sublinhar: o Japão não está a abandonar o seu compromisso com a paz; está a adaptar-se a um contexto estratégico profundamente diferente daquele que existia há vinte anos.
Perante uma China cada vez mais assertiva e uma Coreia do Norte imprevisível, investir em capacidades defensivas não é militarismo. É prudência.
Portugal também tem razões para retirar ensinamentos desta escolha japonesa.
Num mundo onde a segurança depende cada vez mais da tecnologia, afirmar-se pela inovação é também afirmar-se geopoliticamente.
Não é todos os dias que uma empresa portuguesa vê uma tecnologia sua ser escolhida pelo Ministério da Defesa de uma das maiores democracias asiáticas.
Quando isso acontece, vale a pena olhar para além da notícia.
Porque o verdadeiro significado deste projeto não está apenas no drone.
Está na demonstração de que Portugal pode exportar conhecimento estratégico, conquistar a confiança de parceiros exigentes e afirmar-se numa indústria que será decisiva para a segurança das democracias nas próximas décadas.