Um Governo à defesa e uma oposição sem chama
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Esta é a história do dia da Rádio Observador: um governo à defesa e uma oposição sem chama.
Defesa de Luís Neves.
Se eu mantenho a confiança política no senhor ministro da Administração Interna? Com certeza, senhor deputado. Plenamente.
Nunca é uma boa notícia para um primeiro-ministro quando, no debate do Estado da Nação, tem de segurar um ministro fragilizado ou dar a cara pelos problemas da pasta de outro ministro.
Não há nenhum caos nos exames em Portugal. Não há. Há problemas. Há problemas que nós gostaríamos que não existissem. É verdade.
Mas já se sabia que este era um debate difícil para Luís Montenegro, porque acontece num momento em que o ciclo noticioso não é exatamente favorável ao governo e as sondagens mostram que um eventual estado de graça já vai bem longe. Hoje vou conversar com a jornalista de política do Observador, a Rita Tavares, que esteve sentada longas horas no Parlamento a ouvir este debate do Estado da Nação. Vamos falar sobre as armas que o governo levou para o confronto, mas também saber se a oposição conseguiu capitalizar o momento ou se a vida, na verdade, não está fácil para ninguém. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de sexta-feira, 17 de julho. Olá, Rita.
Olá, Pedro.
Já agora, explica-me só uma coisa, como é o ambiente para quem está a ouvir e vê na televisão, sobretudo, os políticos a debater uns com os outros, como é o ambiente na bancada dos jornalistas no Parlamento em dias como este do Estado da Nação?
É uma bancada cheia, com muita gente a tentar apanhar todos os momentos, muita gente com cabeça enfiada em computadores para tentar ir registando aquilo que se está a passar. E depois o ambiente do debate.
Visto da bancada.
Visto da bancada dos jornalistas. Na verdade, não sei como é de outra maneira. Quer dizer, já vi na televisão, certo?
Isso é verdade.
Mas é muito intenso, está muito mais intenso. Hoje estava especialmente intenso. É mais intenso neste período em que tens um Parlamento mais dividido, com três partidos ali a disputarem muitas cadeiras e isso torna tudo muito mais audível e muito mais intenso.
Aquela tensão, isso percebe-se. Tu disseste hoje, porque nós estamos a gravar isto já bem tarde, na noite de quinta-feira, e passaste essas horas todas no Parlamento, olhaste para aquilo que se passava. Nós já sabíamos que este ia ser um debate particularmente difícil para Luís Montenegro, tendo em conta a fragilidade com que o governo entrou neste debate, porque as notícias não lhe são favoráveis, porque tem ali dois ministros debaixo de fogo. O que te pareceu que foi a estratégia que Luís Montenegro levou para enfrentar este momento difícil?
A imagem que eu consigo aproveitar, até porque ainda está a decorrer o Mundial de Futebol, a seleção portuguesa já foi eliminada há duas semanas, mais coisa menos coisa.
Luís Montenegro não deu sorte, aparentemente.
Luís Montenegro não deu sorte. Assistiu ao último jogo, assistiu à eliminação da seleção portuguesa nos Estados Unidos. Isso também foi tema de debate, claro. E dessa prestação da seleção nacional, parece ter trazido um ensinamento tático, que é a defesa como melhor ataque. Não resultou grande coisa na seleção nacional, mas ainda assim Luís Montenegro levou essa tática para o debate do Estado da Nação. E no que isso resultou? Logo na intervenção inicial, Luís Montenegro fez uma coisa que foi começar a disparar em direção ao PS e ao Chega, antes que os ataques, que já eram mais do que previstos, viessem do lado de lá.
Não tem direito ao esquecimento quem agora exige aos outros, e para ontem, o que ele próprio não foi capaz de fazer em oito anos. E também não tem direito ao esquecimento quem criticou as políticas do passado e agora vive de alianças descaradas nesta assembleia com os protagonistas desse passado.
E, argumento novo, há aqui uns dados escondidos. Foi esta a expressão utilizada por Luís Montenegro falando da revisão dos números da população estrangeira residente em Portugal, pelo INE, e aproveitando isso para dizer que o Partido Socialista andou a esconder a verdadeira dimensão da imigração e como isso pressiona os serviços públicos e tudo aquilo que o PS prometeu, o PS já sabia, diz Luís Montenegro, que não era possível de cumprir.
E isso resultou, ou seja, ele conseguiu com isso... Claro que não conseguiu afastar as críticas aos ministros que estão sob fogo, no caso o ministro da Educação por causa dos exames nacionais e o ministro da Administração Interna por causa dos problemas que tem tido com a casa e que têm saído notícias constantemente, até depois já deste debate do Estado da Nação. Como é que tu olhas para a defesa que ele teria necessariamente de fazer desses dois ministros?
Foi estranho que na primeira intervenção, e quem abriu o debate foi Luís Montenegro, não tivesse havido uma única referência ao elefante na sala. Eu não estou a chamar elefante ao ministro da Educação, mas de fato ele estava Com uma cara não muito animada, não vou dizer de trombas, mas estava com uma cara não muito animada a cinco cadeiras de distância do primeiro-ministro. E era muito difícil de imaginar que Luís Montenegro pudesse fazer toda uma intervenção, 30 minutos de intervenção inicial, ignorando completamente que há ali um problema, negando que exista caos, mas admite que há um problema, na classificação digital dos exames nacionais. E portanto, ele conseguiu fazer isso. Conseguiu, de facto, defender-se atacando em força a oposição e não tocando nesse assunto. Evidentemente, que a primeira intervenção da oposição, e foi André Ventura, a sua tática foi logo destapada e Luís Montenegro teve de falar na situação dos exames nacionais.
E relativamente a Luís Neves, houve uma defesa clara da confiança em Luís Neves.
Até se quisermos comparar com aquilo que aconteceu com Fernando Alexandre, foi totalmente diferente e é muito interessante. Foi interessante ver isso, que Luís Montenegro atravessou-se mesmo pela questão da legalidade dos atos de Luís Neves, que é uma coisa que ainda não está totalmente esclarecida, ainda faltam elementos, mas Luís Montenegro atravessou-se por um caso que é muito mais particular, muito mais pessoal de um ministro. No caso de Fernando Alexandre, essa defesa não veio tanto pela voz do primeiro-ministro. A primeira grande defesa que houve de Fernando Alexandre veio até, imagine-se, da bancada do CDS.
E saber que à frente do ministério está alguém que é sério e é competente, que não foge à responsabilidade, que lidera o caminho pra solução.
E que acabou por deixar todos os deputados do PSD e do CDS a aplaudirem Fernando Alexandre de pé. Mas de Luís Montenegro, essa defesa do ministro nunca foi feita de forma tão individualizada como aconteceu com Luís Neves. Aliás, de Luís Neves, Luís Montenegro disse: "Tem a minha total confiança, assim como todos os ministros e secretários de Estado". Também estava ali outro, por acaso, que até está muito mais na berlinda do que Luís Neves, que é o ministro da Educação.
E por que tu achas, ou que interpretação é que tu dás a essa aparente diferença de tratamento entre a defesa de um ministro e a defesa de outro, ambos com problemas?
Há várias maneiras de olhar pra isto. Eu acho que é interessante perceber que, pra já, o caso dos exames nacionais é um caso que tem uma dimensão significativa, afeta famílias, afeta até uma relação que estava em reconstrução entre o PSD e os professores, depois da recuperação do tempo de serviço que estava congelado, e que foi uma grande guerra durante toda a governação de António Costa, que nunca aceitou fazer essa reposição. E Luís Montenegro tomou essa medida e trouxe esta importante classe para o seu lado e agora abre aqui uma frente de batalha, ou pelo menos uma frente de batalha abriu de alguma maneira quando disse que havia resistências de alguns professores. Mas a verdade é que há uma tensão e há uma pressão grande sobre os professores nesta altura. E não só isso é importante, como o caso em si afeta muita gente, afeta famílias, afeta alunos. O acesso ao ensino superior, que é uma coisa que nunca teve problemas e de repente, quando alguém mexeu nisto de forma generalizada, aconteceu o que aconteceu. E, portanto, acho que a dimensão deste caso, o estrago político que pode fazer, é de facto uma coisa que pode ter muito mais dimensão do que o caso individual de Luís Neves.
Pode contagiar mais o primeiro-ministro e o governo do que o caso, digamos, isolado da vida de um ministro.
Sim, e acho que no caso de Luís Neves, até pode haver aqui outra leitura, que é o fato de nós lembrarmos do outro caso no governo, que meta faturas e problemas com obrigações declarativas de empresas de mulher.
Achas que há ali uma certa empatia de Luís Montenegro com Luís Neves?
É bom utilizares a palavra empatia, porque foi outra que esteve em grande no debate. E acho que se não há empatia com os portugueses, como o PS diz, se calhar com Luís Neves.
Talvez tivesse havido ali uma demonstração.
Conhece bem essas dores.
Já agora, olhamos aqui para aquilo que era a prestação do governo e do primeiro-ministro, em particular no Estado da Nação. Tendo em conta a fragilidade com que Luís Montenegro se apresentava, podíamos antecipar que a oposição sairia claramente vencedora deste debate do Estado da Nação. Achas que isso se pode dizer no fim destas quatro horas e tal cinco de debate?
Não. A oposição está muito contida e apesar de ser um debate em que se esperava, se calhar, uma ofensiva mais clara da parte dos partidos do PS e do Chega, isso não aconteceu. André Ventura teve uma posição que julgo eu, alguma relevância, que é o facto de ter desafiado Luís Montenegro a apresentar uma moção de confiança, e eu estive ali muito tempo a ouvir a frase, e depois ele faz uma intervenção, uma nova intervenção no púlpito, e eu a dada altura pensei: é agora.
Senhor primeiro-ministro, isto é um governo em degradação acelerada, é um governo em decomposição acelerada, e talvez o senhor primeiro-ministro deva mesmo perguntar ao Parlamento se ainda mantém a confiança no seu governo.
Pensei que do outro lado do desafio estaria se não apresentar a moção de confiança e o Chega vai apresentar uma moção de censura, mas isso nunca aconteceu. E noutras alturas aconteceria, e eu acho que é muito significativo. André Ventura já percebeu Que pode ser muito penalizado, que os portugueses valorizam a estabilidade política, não querem eleições e quem as desencadear pode ser penalizado nas urnas. Essa já é uma lógica recorrente nos cenários eleitorais portugueses. E portanto, da parte de André Ventura, eu acho que foi relevante que o líder do Chega tenha feito este desafio, mas nunca tenha dito a outra parte, que noutros tempos era claríssimo que sairia da boca de André Ventura.
Diria sem dúvida do PS.
Chegamos ao debate do Estado da Nação, com a nação a ter o sentimento de que por vezes não encontra o Estado, o Estado não encontra o governo e as oposições não encontram um primeiro-ministro para liderar, coordenar e comandar politicamente o governo.
Da parte do Partido Socialista, José Luís Carneiro deixou o trabalho para André Ventura de destapar a tal tática de Luís Montenegro e dizer: "Esteve aqui e não falou do caso que preocupa todos os portugueses, que são os exames nacionais." É uma tática que José Luís Carneiro tem vindo a seguir, que é de ser absolutamente moderado e de considerar, provavelmente, que o que resulta para os portugueses não é aquela maneira mais ríspida e agressiva de entrar num debate e que essa moderação, esse estilo, faz mais pela confiança do líder socialista junto dos portugueses do que, se calhar, um estilo mais expansivo, como era o de Pedro Nuno Santos, para termos aqui uma referência, ou de quem está do outro lado, que é André Ventura.
Isso, apesar de tudo, pode resultar, mas, por outro lado, também não o considera como o grande vencedor de um debate desta natureza.
E não galvaniza também as hostes socialistas. Fica sempre ali um sabor a pouco na saída de um debate em que parecia que o primeiro-ministro tinha entrado já derrotado. No fundo, o que nós vimos foi debate político, mas não houve assim propriamente ninguém a sair a sapatear e a cantar vitória.
Essa imagem é maravilhosa, adorava ver isso. Rita, obrigada.
Obrigada.
Eu conversei com a Rita Tavares, jornalista de política do Observador, sobre o debate do Estado da Nação, que aconteceu num momento confuso politicamente. Há mais eleitores descontentes com o governo. Uma sondagem publicada a seguir ao debate mostra que o PS disparou nas intenções de voto e já está empatado com a AD. Mostra que o Chega recua nas intenções de voto, mas também mostra que há muitos indecisos e a maioria olha e não vê uma alternativa melhor para governar o país. Esta foi a história do dia. A sonoplastia do João Werner, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Bom fim de semana.