Um país em forma de atrelado

🗓️ 2026-07-21 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

Atrelado. Poucas palavras definem tão bem o Estado da Nação que o Dr. Montenegro discutiu, há dias, no parlamento. Mas perguntar-me-ão: o que é, ao certo, um atrelado? Todos temos dele uma imagem mental, com mais ou menos propriedades que nos permitem distingui-lo de outras categorias. Vale a pena, no entanto, consultar o dicionário para lhe fixar a definição exacta: veículo sem motor, rebocado por outro. Esta definição assenta a Portugal como uma luva, veículo sem motor próprio, rebocado pela Europa e pelos fundos europeus, sem os quais o investimento público, a mudança, as reformas, simplesmente cessariam.

Ao longo dos últimos anos, a direita queixou-se, e com toda a razão, de que António Costa tinha um governo completamente imobilista, sem uma ideia para o país, sem um plano a dez anos, limitado a gerir o dinheiro europeu que ia entrando, de forma a manter satisfeita a sua coligação eleitoral. O diagnóstico estava absolutamente correcto. Todavia, desde 2024, com a chegada de Montenegro ao poder, o país continua sem plano, sem reformas e sem mudança. A receita de Montenegro é tirada a papel químico da governação de Costa: manter a coligação eleitoral satisfeita e ir gerindo o dia-a-dia. Viver, habitualmente, como diria um sábio do antigamente.

Há, porém, mais um traço em que os dois governos se assemelham: por trás desta imobilidade, nesta demonstração cabal de incompetência, não faltam vozes, de um lado e do outro, a garantir que nunca houve governo tão reformista quanto este. No fundo, a leitura do ímpeto reformista do país não obedece a uma percepção do que realmente está a acontecer, mas, isso sim, à pertença às claques. Quem faz parte da claque Socialista afirma, com toda a convicção e ignorando a realidade, que Costa era um grande reformista. Quem faz parte da claque Laranja, afirma com igual convicção que Montenegro é o maior reformador desde Cavaco Silva. Ainda há dias, de resto, Sebastião Bugalho, ungido génio político da praça, classificou o governo de Montenegro como “brutalmente reformista”.

Lembrei-me desta frase durante a debacle dos exames nacionais. Na entrevista que deu na fatídica sexta-feira em que, custasse o que custasse, nem que fosse às onze da noite, as notas teriam de sair, Fernando Alexandre evocou, imagino que involuntariamente, o velho motto de Mark Zuckerberg no Facebook, “Move fast and break things”, ou seja, avancem depressa e partam coisas. Fernando Alexandre queixou-se de que fazer reformas tem custos e nem sempre as coisas saem de forma perfeita e que, ao contrário de outros, que nem haviam tentado fazer reformas, ele tem um ímpeto reformista e que só não erra quem não faz.

Vale a pena dizer o óbvio ululante: digitalizar a correcção dos exames não é uma reforma. É uma mudança logística. Distinguir reforma de ajuste cosmético exige critério, e o critério existe: uma reforma a sério altera a estrutura de incentivos, é difícil de reverter, produz efeitos que ultrapassam o ciclo eleitoral e, este é o pormenor mais revelador, custa caro em capital político a quem a assina. Uma “reforma” é decorativa quando pode ser desfeita por um despacho normativo. Neste caso, Fernando Alexandre gastou imenso capital político com benefícios nulos.

A mudança no processo de avaliação dos exames não garante qualquer aumento da qualidade da educação nem que os alunos mais desfavorecidos, quem mais precisa que a escola equilibre as cartas da vida, passassem a ser avaliados com mais justiça. Foi tudo mal preparado desde o início. Houve um projecto-piloto em 2025 que correu mal, e os professores que participaram nele, tanto em 2025 como agora, dizem que os erros identificados não foram tidos em conta e a plataforma não foi melhorada. A máquina do Estado não estava pronta, e não aprendeu nada de um ano para o outro.

Para além disso, que garantias há de que os exames ficaram, de facto, bem corrigidos? Um ministro que se apresenta como sério não teve a coragem de publicar estatísticas descritivas sobre o processo. Ao domingo em que escrevo isto, não existe informação agregada sobre quantos exames foram corrigidos correctamente, quantos ficaram suspensos, quantos continuam por corrigir. Não há dados que permitam escrutinar o poder político sobre esta matéria, e a ausência de informação raramente é inocente; é uma escolha. Informação anedótica, parcial, recolhida ao acaso, é a forma mais eficaz de impedir o escrutínio: não se contesta o que nunca chega a ser mostrado.

Montenegro está tão desesperado por provar que não é Costa que se agarra a expedientes como este, mudanças apressadas, mal preparadas, sem a máquina do Estado pronta para as suportar, e chama-lhes reforma, só porque partem alguma coisa. Entretanto, a habitação continua por resolver, os salários continuam baixos, a Justiça continua parada. Um atrelado pode fazer todo o barulho que quiser. Nunca vai a lado nenhum sozinho, e é a primeira coisa a ser esquecida quando o carro que o puxa decide parar. Ou isso ou ser mudado de sítio quando alguém dá ordens.