Um país que não enche três sílabas

🗓️ 2026-10-10 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

Há alguns anos, em plena crise económica, e com base no título do famoso romance de Cormac McCarthy, dizia-se em Portugal que este país não é para jovens. Passe o desgaste da banalização do conceito, esta ideia correspondia (e corresponde), de facto, à verdade, e recorro aqui a uma perspetiva muito pessoal: durante a crise, ainda «jovem», estive emigrado em três países europeus; agora não sou jovem, mas nunca direi ao meu filho que neste país terá garantidamente um futuro brilhante.

Contudo, o mais correto seria dizer que este país não é para quem trabalha. Esta formulação também já foi utilizada, mas gostaria de a abordar de novo. Pensemos um pouco no país que temos. Ou não temos.

— Parece impossível. Veja lá, o autocarro já devia estar aqui há vinte minutos.

— O anterior nem passou.

— Isto para quem trabalha…

(Segue-se uma série de impropérios.)

Sim, os transportes públicos são causa, mas sobretudo sintoma de uma certa portugalidade. Já lá vamos. Porque este país não é para quem trabalha.

Nos últimos anos muito se tem falado de imigrantes. Não vou entrar, neste artigo, nessa discussão, nem na distinção ontológico-económica entre imigrante e expat, mas quero falar-vos do meu amigo Lars. O Lars é um alemão de Saarland, e viveu cerca de seis anos aqui no Porto. Já não vive. Ora, o Lars, que nunca aprendeu português suficiente para se expressar minimamente na nossa língua, morava cá porque namorava com uma portuguesa, que habitava numa casa de família, o que lhe proporcionou uma residência fixa sem custos. O Lars gostava de acordar tarde, passear os cães, ir à loja de música e beber umas cervejas. Sempre que me encontrava com ele e calhava de comentar que estava assoberbado de trabalho, que isto ou aquilo funcionava mal, o Lars dizia que Portugal era bom, que o Porto era bom, que a Alemanha estava uma porcaria, imigrantes para aqui e para acolá, etc. Aqui estava-se bem, era tudo no relax. Tudo certo, quem pode, pode! Ora, a dada altura, por motivos que não me compete esmiuçar, o Lars decidiu que tinha de trabalhar para ajudar nas contas. E que trabalho arranjou? Bem, como era falante nativo de alemão, foi trabalhar para um call-center nos arredores do Porto, onde atendia pessoas que, na Alemanha, necessitavam de ajuda com manuais de instruções de aparelhos elétricos. Poucas semanas depois de começar a trabalhar, a conversa do Lars tornou-se bastante mais depressiva, emitindo aquilo a que muitos chamam energias negativas. De repente, o Porto já não era tão agradável, Portugal esmifrava o trabalhador, pagava-se mal, a burocracia era horrível, e por aí fora. Alguns meses depois, voltou para Saarland, abandonando a namorada, com quem vivia havia anos, e nunca mais cá voltou. Bem, pelo menos levou os cães com ele.

Acho que esta história verídica, embora anedótica, é reveladora daquilo que é a realidade de quem trabalha no país, e do porquê de muitos expats acharem Portugal atraente: acham o país atraente porque vivem numa realidade à parte, na qual nunca aprendem a falar português, vivem em casas de luxo e longe de bairros camarários (ah, o horror – justificado – à plebe), recebem ordenados chorudos por abrirem a caixa de email uma vez por dia, e os filhos frequentam escolas privadas para estrangeiros. Mais haveria a dizer sobre os expats, mas voltemos ao trabalhador.

— Os transportes não são gratuitos, pagamos todos!

Aquando do anúncio e da entrada em vigor da gratuidade dos transportes públicos no Porto, muitas pessoas, a maioria não residente no Porto, opôs-se à ideia, porque supostamente os contribuintes pagariam, com os seus impostos, os passes multimodais, ou seja, acabaríamos por pagar todos, usássemos ou não os ditos transportes. Isto não é bem verdade, porque a medida é (supostamente) paga pelo Município do Porto, ou seja, em última instância, pelo contribuinte do Porto, e não do resto do país. De resto, parece-me uma não questão, porque é para isso que servem os impostos num Estado de direito e social. Há quem pague estradas com os seus impostos e nunca tenha tido carro, certo? Adiante.

Enquanto residente do Porto e portador do Cartão Porto e, portanto, tendo acesso às viagens gratuitas em toda a área metropolitana, obviamente achei a medida positiva: afinal, o Porto é a cidade do país onde mais se perde tempo no trânsito, para não falar dos benefícios ambientais e económicos que lhe estariam associados. (E, reparem, é um genuíno filme de terror chamar a polícia municipal para rebocarem viaturas que nos bloqueiam a garagem quando queremos sair de casa. Não desejo a ninguém morar ao lado de uma pastelaria em Portugal).

No entanto, tenho de dar razão a quem diz que a gratuidade dos transportes públicos não resolve nada se não se melhorar a oferta. Porque é verdade. Em certas linhas da STCP, os autocarros chegam continuamente atrasados e alguns horários desaparecem sem que haja qualquer justificação. Na zona ocidental da cidade, onde vivo, a situação roça o ridículo, e se já antes desta medida tivera de remarcar compromissos porque os autocarros não apareciam, desde que o passe se tornou gratuito já tive de voltar algumas vezes a casa para me deslocar, enfim, de carro. Enquanto isso, dezenas de pessoas amontoam-se em paragens enquanto esperam pelo autocarro que não chega.

Em suma: estes transportes não são para quem trabalha, para quem paga impostos e contribuições sociais avultadas. No fim, só quem não tem mesmo outra alternativa recorre aos transportes públicos, o que acaba por perpetuar este ciclo: fraca oferta – pouca procura – fraca oferta. Assim, os transportes públicos continuam a acentuar, em Portugal, uma tendência para o uso e abuso do automóvel particular, num misto de exibicionismo provinciano com uma falta de ligação à natureza sem igual no mundo civilizado (muito haveria a escrever sobre isto).

Se isto vai mudar? Não creio. Em Portugal faz-se quase tudo sem planeamento ou projeção a longo prazo, e as pessoas, quer queiramos quer não, políticos incluídos, são amiúde indolentes e, se puderem, corruptas. É por isso que a visão que têm dos «portugueses» lá fora é sobretudo a do preguiçoso, e conquanto eu e os leitores saibamos que muitos (nós, para começar!) não são assim, o problema dos estereótipos é mesmo esse: vão todos de arrasto. E se em jovem defendia a pátria, alegando que as coisas não eram bem assim quando, num qualquer país europeu, nos comparavam a uma República das Bananas com um cheirinho a tropical, hoje em dia, mais velho, teria dificuldade em fazê-lo, ainda que também eu seja português e me veja, por conseguinte, arrebanhado pelos preconceitos.

— Se estás mal, põe-te a andar!

Sim, a autocrítica não faz parte da matriz portuguesa, por motivos socio-religiosos que não vou destrinçar aqui. A crítica reflexiva é, por norma, mal acolhida (como os comentários a este artigo talvez venham a comprovar, oh!), o que impede o desenvolvimento do país. Podia ser melhor. Podíamos ser melhores.

Mas como pode um povo exigir muito a políticos, se nivela o seu próprio comportamento pela mediocridade?