Uma história Portuguesa
A respeito de Sócrates aventam que se terá apropriado, de uma forma ou de outra, de dois milhões de Euros; ou de vinte milhões, ou ainda de algum valor intermédio – é consoante quem opina.
São valores dignos e não fora o facto de alguns expedientes serem por demais evidentes, e aquela contrariedade de o país ter falido, e talvez não tivesse perdido as eleições. Gozou durante muito tempo de simpatia de muitos magistrados da opinião económica, tinha determinação, agressividade, jogo de rins, e chegou a contar, ao princípio, com alguma solidariedade presidencial.
Fez uma admirável rede de autoestradas e eu, ignoto cidadão, quando vou a Trás-os-Montes nunca me esqueço de tecer umas loas de circunstância ao senhor engenheiro, logo que passe Ribeira de Pena, para indignação das minhas habituais companhias.
Quando era funcionário da Câmara da Covilhã fez, diz-se, alguns projectos de moradias pavorosas para um concelho vizinho, dado que não os poderia fazer naquele em que trabalhava. A ser verdade, era um arranjo hábil, e pessoa cínica como eu até acha que há nisto algum merecimento: sempre é melhor do que trabalhar nalgum gabinete de arquitectura local que misteriosamente faça aprovar projectos com mais celeridade do que os oriundos de gabinetes alienígenas.
Em suma, deixou alguma obra, nisso se distinguindo da lambisgoia Guterres e da serpente Costa, exemplos esses mais óbvios de uma verdade axiomática: socialistas a governarem para progresso assinalável do país é como meter uma pedra dentro de uma gaiola e ter a esperança de que ela comece a cantar.
Com o caso Neves apenas podemos suspeitar (ou constatar) de uns expeditos cortares de cantos, umas chicuelinas à legalidade, uma arroganciazinha dispensável (contraída no mandato como director da PJ, lugar isento de escrutínio), mais umas histórias obscuras que metem aventais, direitos ou privilégios ofendidos de antigos subordinados ou rivais, discriminação positiva de um fornecedor, e denúncias sopradas à comunicação social, que as vai debitando a conta-gotas com deleite – dela e nosso, que acompanhamos o desenrolar dos acontecimentos, todos os dias, não com as tradicionais pipocas à mão, que está demasiado calor, mas tremoços.
As facturas talvez pagas em espécie que excede o valor legalmente permitido, o cotejo delas com os trabalhos efectivamente realizados, a grotesca novela do tanque que evoluiu para piscina (onde estão as máquinas, já agora, que piscina sem maquinetas ou é daquelas ecológicas ou um lago de jardim?) e que agora quer regressar à sua função inicial, uma parede pintada de um incongruente verde que casa mal com tudo o mais, que aliás não se recomenda como exemplo de monte alentejano, nem casa de férias, tudo compõe um quadro ao qual falta aquela dimensão admirável que Sócrates com galhardia preencheu.
Há mais, claro, como a falta de licenciamento da piscina, uma falha para colocar, tal como o ridículo limite dos pagamentos a dinheiro, na secção dos abusos do Estado: as Câmaras têm de aprovar piscinas a construir no terreno dos proprietários, além de, neste caso, uma Rede Não Sei Quê tem qualquer coisa a dizer?! E a AT tem de meter o nariz inquisitório e voraz nos pagamentos em dinheiro que excedam 2.999,99€?
Esta pequena história tem um mérito, que porventura não será apercebido pela maioria das pessoas, que é o de se constatar que somos todos, ou quase, iguais num particular: pessoas comuns, ao tropeçarem, nas esquinas da vida, com o Estado hiper-regulamentar, desenrascam-se como podem.
Resta a história do reboque carregado de bidões de amoníaco que a Marinha não queria guardar, a PJ não podia guardar nem arrendar para esse efeito (porque não tinha a despesa “cabimentada”), e que o empreiteiro Carvalho guardou grátis em Barcelos. Trata-se de um gajo porreiro, este Carvalho, e chega a ser tocante o gesto de amizade e desinteresse. Já o custo do arrendamento, assim poupado, ui que hoje em dia estes preços andam pela hora da morte.
Não cheira propriamente a amoníaco, cheira a esturro. O MP vai investigar (incluindo, supõe-se, se os tratos de polé que o reboque levou comprometem a prova num outro processo) e, por esse lado, pode o ministro ficar sossegado: antes da conclusão o Governo acaba o mandato, com ou sem eleições antecipadas, haverá mais um ror de escandaleiras para entreter o cidadão, e de todo o modo, se não houver mais nada para destilar, a coisa desaparece do espaço público muito antes de acabar a época estival.
Que fica, então?
Fica que o que o cidadão vulgar pode à sorrelfa fazer não deveria ser habilidade disponível para quem detenha poderes públicos: Não se admite num chefe de polícia como não se admite num magistrado. Nem, por maioria de razão, num ministro, mesmo que, como aqui, não se trate de irregularidades cometidas no exercício das novas funções.
E fica (ou deveria ficar) que não é o cidadão habilidoso que tem de deixar de o ser na condução da sua vidinha, é o Estado que se tem de retirar da quantidade prodigiosa de esquinas onde aparece com a sua cabeça metediça e intimidatória. O colega Matias que ponha os olhos nisto. Não o fará, claro, que está ocupado a contemplar o céu onde paira o balão da inteligência artificial.
Nota editorial: Os pontos de vista expressos pelos autores dos artigos publicados nesta coluna poderão não ser subscritos na íntegra pela totalidade dos membros da Oficina da Liberdade e não refletem necessariamente uma posição da Oficina da Liberdade sobre os temas tratados. Apesar de terem uma maneira comum de ver o Estado, que querem pequeno, e o mundo, que querem livre, os membros da Oficina da Liberdade e os seus autores convidados nem sempre concordam, porém, na melhor forma de lá chegar.