Uma nova IA pode permitir à polícia 'desenterrar' toda a sua vida online: saiba como funciona
Uma fotografia sua aparece algures na Internet. A partir daí, uma inteligência artificial começa a trabalhar.
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Procura outras imagens, abre páginas, cruza informações e tenta descobrir o seu nome. Depois procura onde vive, onde trabalha, que contas utiliza nas redes sociais, que outros nomes ou pseudónimos já usou e quem poderá fazer parte do seu círculo.
Aquilo que poderia parecer o argumento de uma série policial é um protótipo real desenvolvido pela Clearview AI, uma das empresas de reconhecimento facial mais controversas do mundo.
Uma investigação da ‘WIRED’ descobriu que a empresa desenvolveu e testou discretamente o InquiryIQ, um “assistente analítico” experimental concebido para ajudar investigadores a transformar os resultados de uma pesquisa facial numa investigação muito mais ampla pela Internet.
A ferramenta não foi lançada e a Clearview garante que nunca foi disponibilizada a agentes policiais. Mas aquilo que o protótipo foi desenhado para fazer mostra até onde poderá chegar a combinação entre reconhecimento facial, inteligência artificial e a enorme quantidade de informação que todos deixamos online.
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Do rosto à sua vida digital
O ponto de partida seria uma pesquisa de reconhecimento facial realizada por um investigador.
A partir das informações consideradas relevantes, o sistema poderia pesquisar automaticamente na Internet, analisar imagens, navegar por páginas e voltar a utilizar reconhecimento facial nas fotografias que encontrasse.
O objetivo seria construir aquilo a que a Clearview chama um “Gráfico de Candidatos”: uma rede de possíveis identidades e pessoas associadas ao indivíduo investigado.
Moradas, números de telefone, empregadores, contas em redes sociais, histórico de detenções e pseudónimos poderiam acabar reunidos no mesmo perfil.
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Há ainda um detalhe particularmente sensível. A interface analisada pela ‘WIRED’ permitia acrescentar características como idade, sexo, raça, cor do cabelo e dos olhos, informação que, segundo o próprio sistema, poderia ajudar a IA a tomar “decisões mais inteligentes” durante as pesquisas.
Semanas de investigação reduzidas a minutos
É aqui que a tecnologia pode alterar profundamente uma investigação.
Especialistas ouvidos pela ‘WIRED’ consideram que sistemas deste género podem comprimir dias ou semanas de trabalho em apenas alguns minutos. Um investigador deixa de ter de abrir dezenas de páginas e relacionar manualmente pequenas pistas espalhadas pela Internet: a máquina pode fazê-lo automaticamente.
E essa vantagem é simultaneamente uma das maiores preocupações.
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Andrew Guthrie Ferguson, professor de Direito na Universidade George Washington, descreve o processo como uma espécie de “pesquisa digital”: fragmentos aparentemente insignificantes que uma pessoa foi deixando online são reunidos para criar um perfil muito mais completo.
“Eles vão basicamente criar um perfil seu com base em todas as pistas digitais aleatórias que deixou na Internet”, explicou à ‘WIRED’.
O problema de tornar demasiado fácil investigar alguém
Durante décadas existiu uma espécie de proteção da privacidade que raramente aparecia escrita numa lei: dava demasiado trabalho investigar toda a gente.
Woodrow Hartzog, especialista em privacidade da Universidade de Boston, explica que essa dificuldade funcionava como uma barreira prática à vigilância em massa. Era possível procurar informação pública sobre uma pessoa, mas encontrar, cruzar e interpretar tudo exigia tempo e recursos.
A IA pode eliminar grande parte desse obstáculo.
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Ao reduzir drasticamente o esforço necessário para investigar alguém, torna economicamente possível pesquisar pessoas que anteriormente talvez nunca justificassem dias de trabalho de um investigador.
E se a IA estiver errada?
Há ainda outro problema: estes sistemas não são infalíveis.
A própria interface do InquiryIQ avisava que algumas informações geradas automaticamente, incluindo dados demográficos, redes sociais e registos de detenções, “podem ou não ser precisas”. O agente teria de confirmar independentemente os resultados antes de os aceitar.
A Clearview insiste precisamente nesse ponto. Segundo a empresa, o objetivo seria fornecer possíveis pistas, não determinar aquilo que é verdade, cabendo sempre a um analista humano avaliar os resultados.
Mas alguns especialistas receiam que, à medida que estas ferramentas se tornem rotineiras, essa supervisão humana acabe reduzida a pouco mais do que validar aquilo que a máquina apresenta.
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“A presença humana no processo é um consolo um pouco frágil”, alertou Hartzog.
Uma base com mais de 70 mil milhões de imagens
O nome da empresa por detrás do projeto ajuda a perceber a dimensão da discussão.
A Clearview tornou-se conhecida em 2020 depois de ter sido revelado que recolhera mais de três mil milhões de fotografias disponíveis online para construir uma gigantesca base de reconhecimento facial.
Desde então, esse número disparou. A empresa afirma que a base contém atualmente bastante mais de 70 mil milhões de imagens e que a sua tecnologia é utilizada por mais de 2.000 organismos responsáveis pela aplicação da lei nos EUA.
O InquiryIQ, porém, continua a ser apenas um protótipo. A Clearview garante que nunca foi apresentado nem enviado aos clientes e que não existe qualquer plano para o lançar na forma atual. O CEO Amos Kyler é taxativo: “Nenhum polícia alguma vez o utilizou”.
Talvez seja esse o elemento mais curioso desta história.
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A tecnologia ainda não precisa de saber tudo sobre nós.
Basta-lhe tornar muito mais fácil juntar tudo aquilo que já fomos deixando sobre nós próprios espalhado pela Internet.