Uma via de mão dupla - 22/08/2026 - Ana Paula Vescovi - Folha

🗓️ 2026-08-23 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

O capital estrangeiro entrou com força no Brasil nos primeiros meses do ano. Depois perdeu fôlego e, agora, parte desses fluxos voltou a sair.

Não há contradição nisso, pois o Brasil ficou mais atraente numa nova geografia dos fluxos internacionais, que está sendo redesenhada num mundo estruturalmente mais volátil.

Por mais de uma década, investidores globais concentraram recursos nos Estados Unidos, por conta do seu crescimento forte, mercados profundos, tecnologia muito rentável e o dólar como moeda de reserva. O capital atraía capital.

Algo mudou. Preços de ativos já muito elevados, a incerteza comercial e geopolítica e a busca por diversificação levaram investidores a olhar de novo para outros mercados, especialmente os emergentes. E, para esses mercados menos profundos, pequenas realocações de carteiras gigantescas pesam muito.

O Brasil sentiu os efeitos dessa mudança, embora os diferentes tipos de fluxos contem histórias distintas.

O fluxo cambial líquido foi positivo em US$ 17,8 bilhões (R$ 92,2 bilhões) no primeiro semestre, melhor resultado em oito anos, o que contrastou com a saída de US$ 14,3 bilhões (R$ 74,1 bilhões) um ano antes. O resultado, porém, veio do canal comercial: o canal financeiro permaneceu negativo no semestre. Ao mesmo tempo, houve ingresso relevante de estrangeiros em ativos domésticos em diferentes momentos.

O começo do segundo semestre reforçou outra característica desse movimento: sua volatilidade. Em agosto, a saída de estrangeiros da B3 ganhou força: até o dia 14, já somava cerca de R$ 18,1 bilhões, superando, em apenas duas semanas, os R$ 14,9 bilhões retirados durante todo o mês de maio.

O investimento direto de estrangeiros no país, por sua vez, somou quase US$ 47 bilhões (R$ 243,5 bilhões) no semestre, 33% acima de 2025. Convém separar três determinantes diferentes.

O primeiro é o carry. Juros muito superiores aos das economias avançadas oferecem retornos atraentes e ajudam a financiar o balanço de pagamentos, mas são facilmente reversíveis. A ironia é que parte dessa atratividade vem das fragilidades que nos obrigam a pagar juros tão altos. Ser atraente porque produzimos muito é diferente de ser atraente porque pagamos muito para compensar nossos riscos.

O segundo é a rotação internacional de portfólios. Depois de anos de concentração nos EUA, investidores buscam diversificação. O Brasil oferece escala, mercado financeiro líquido, reservas elevadas, câmbio flutuante, alimentos, energia e minerais, atributos relevantes num mundo preocupado com segurança energética e cadeias produtivas.

O terceiro é o investimento direto, que traz capital comprometido com empresas e ativos produtivos e tende a permanecer por mais tempo.

No mundo pós-2008, choques negativos de crescimento abriam espaço para os bancos centrais cortar juros e estabilizar os mercados. Hoje, choques de oferta podem combinar menor crescimento e mais inflação, restringindo essa reação. A inflação ficou menos previsível, cadeias globais se fragmentaram e a política fiscal passou a pressionar os juros longos. A volatilidade deixa, assim, de ser apenas produto dos choques: nasce também da menor capacidade da política econômica de amortecê-los.

Nesse ambiente, episódios isolados (guerras, tarifas, choques de oferta, surpresas inflacionárias ou fiscais) produzem movimentos maiores de preços e fluxos. O gatilho pode até mudar, mas a volatilidade permanece.

Isso ajuda a entender por que o estrangeiro "compra" Brasil num mês e vende no outro. À instabilidade global somam-se as incertezas próprias, que já conhecemos bem: dívida pública crescente, eleições e dúvidas sobre a política econômica dos próximos anos.

Portanto, o Brasil pode estar estruturalmente mais atraente, mas ao mesmo tempo exposto a fluxos mais voláteis e mais seletivos. É justamente por isso que precisamos fazer o dever de casa.

Somos uma economia de baixa poupança doméstica e grande necessidade de investimento. Infraestrutura, saneamento, energia, logística e adaptação climática exigem recursos que a poupança interna dificilmente financia sozinha. Mais poupança externa amplia as fontes de financiamento e pode contribuir para reduzir seu custo e acelerar a acumulação de capital.

A oportunidade é transformar uma melhora potencialmente transitória em investimento produtivo de longa duração. Isso exige estabilidade macroeconômica, contas públicas sustentáveis, segurança jurídica, boa regulação, projetos bem estruturados e instituições capazes de proteger a qualidade dessa alocação.

Recursos capturados por privilégios, subsídios mal desenhados ou corrupção produzem vazamentos e baixo desenvolvimento. O avanço do crime organizado sobre atividades econômicas legais acrescenta um risco ainda mais grave, pois parte desses recursos pode ser apropriada pela economia ilícita.

Quando o capital melhora infraestrutura e produtividade, seus benefícios se difundem; quando financia privilégios ou estruturas ilícitas, concentra renda, gera incentivos perversos, inverte valores e desanima quem produz, trabalha e investe.

O Brasil já atravessou outros períodos de abundância internacional sem conseguir transformá-los em maior crescimento potencial. Desta vez há vantagens que faltavam no passado, tais como reservas robustas, câmbio flutuante, sistema financeiro mais desenvolvido e uma agenda de concessões capaz de transformar poupança em infraestrutura. Mas nenhuma delas substitui o dever de casa.

Num mundo estruturalmente mais volátil, talvez não possamos escolher por quanto tempo a janela ficará aberta, mas podemos escolher o que fazer enquanto estiver.

Os fluxos financeiros entram e saem. O investimento produtivo, as boas instituições e a capacidade de crescer permanecem.

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