IA e data centers mudam cálculo de risco das seguradoras - 13/10/2026 - Finanças - C-Level
São Paulo
A IA (inteligência artificial) e sua infraestrutura de data centers são uma nova fronteira para o mercado de seguros. Não só as empresas que constroem essa nova tecnologia são um desafio para as seguradoras, mas o seu uso em diversos setores impacta a forma como o risco é calculado.
"Não é tanto a IA em si que representa o risco, mas sim a necessidade de entendermos melhor como nossos segurados a utilizam e se isso altera o perfil de risco que estamos cobrindo", diz Alessa Quane, CEO de International Markets da Sompo, em entrevista à Folha, na sede da seguradora em São Paulo.
A executiva cita como exemplo o seguro de responsabilidade civil profissional, conhecido como E&O (erros e omissões), que cobre a eventual reparação e processo judicial de danos a terceiros. Em julho deste ano, a Sompo ampliou sua presença nesse segmento por meio da aquisição da Fator Seguradora.
"Se você oferece um E&O para um arquiteto, e ele deixa de desenhar à mão para que a IA faça tudo, o perfil de risco muda drasticamente. Quão bem treinada foi essa IA? Como ela opera? São esses os aspectos que queremos compreender para garantir que estamos avaliando e precificando o risco adequadamente", afirma a executiva norte-americana.
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Há também casos de resultado oposto. "Se determinado processo era totalmente manual e você treinou um sistema automatizado ou utilizou IA para eliminar a necessidade de intervenção manual, depois de testar o sistema e verificar que ele está funcionando há algum tempo, esse passa a ser um risco muito melhor, do que uma pessoa que poderia facilmente cometer um erro."
ATUAÇÃO DA SEGURADORA
Anteriormente chamada Yasuda Marítima Seguros, a Sompo faz parte do grupo japonês de mesmo nome que atua nos cinco continentes. No Brasil, a companhia trabalha exclusivamente nos segmentos de seguros corporativos e de agronegócio, além de manter uma resseguradora cativa, responsável por reter parte dos riscos segurados pelo grupo.
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Segundo Alessa Quane, no caso da IA, a Sompo busca se assegurar de que os clientes façam o treinamento correto para o uso da IA e revisem de forma regular o trabalho gerado por ela.
"Temos observado mudanças fundamentais no segmento de seguros cibernéticos. Toda essa grande nova infraestrutura de data centers que está sendo criada representa uma oportunidade para o nosso setor como um todo", diz Alessa.
A executiva afirma que, pela agregação de riscos, data centers exigem seguros patrimoniais na casa das dezenas de bilhões de dólares, algo que nenhuma seguradora, individualmente, é capaz de cobrir.
"São riscos complexos, nos quais há muitas coberturas de seguros diferentes envolvidas em uma mesma instalação, algo semelhante ao que ocorre em uma plataforma de petróleo. Você tem muitos contratados, muitos responsáveis pela perfuração, além de pessoas que colocam os trabalhadores no local", explica.
A executiva lembra que, em 2025, o maior sinistro para o setor derivou de uma falha no software da empresa de segurança cibernética CrowdStrike, o que fez com que computadores com o sistema operacional Windows da Microsoft travassem, deixando viajantes presos em aeroportos e impedindo operadores do 911 (serviço de emergência médica nos EUA).
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Ele foi maior, inclusive, que eventos climáticos. Nessa seara, as grandes perdas vieram dos incêndios na Califórnia no início do ano passado, que queimaram diversas mansões na região de Los Angeles.
"Eles atingiram áreas densamente povoadas e foram extremamente caros, em bairros ricos e com uma taxa de seguro muito mais alta. Então, como resultado, os valores segurados eram bem maiores", conta Alessa.
No Brasil, a seguradora teve dois grandes eventos climáticos em 2024. Na tragédia no Rio Grande do Sul, uma empresa segurada ficou completamente submersa e perdeu todos os equipamentos industriais de precisão e uma carga de fertilizantes de outro cliente foi destruída no porto da cidade.
Além disso, a seca histórica na Amazônia levou diversas embarcações a encalharem nos rios. Foi preciso esperar a água baixar para conseguir retirar todas as mercadorias seguradas de caminhão.
Atualmente, as únicas apólices de pessoa física mantidas pela Sompo no Brasil são aquelas destinadas a produtores rurais, nas modalidades de seguros agrícola e de máquinas e equipamentos, em sua maioria. A linha de varejo, composta pelos seguros auto, residencial, habitacional e vida, foi vendida para a HDI Seguros em 2023.
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Outro episódio marcante envolvendo embarcações é a guerra do Irã e o fechamento do estreito de Hormuz. As seguradoras correm risco por conta de navios atacados assim que o conflito começa, mas advertem os segurados a não frequentarem a região —o seguro marítimo é contratado por viagem. Também há uma apólice específica para guerra marítima, cujo preço disparou.
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Nestes seguros, há uma cláusula que, quando acontece uma guerra, o barco ou navio que está na região fica coberto por mais 15 dias, tempo para ele sair da área de conflito.
"Quando os barcos eram autorizados, por períodos muito curtos, a atravessar a região, eles compravam cobertura. E nós pensamos, 'bom, se as taxas vão subir, vamos assumir uma determinada quantidade de risco'. Então, analisamos qual é a bandeira do navio e não tínhamos muita disposição para assumir riscos em navios americanos, iranianos ou israelenses", afirma Alessa.
RAIO-X | SOMPO BRASIL
- Fundação: 2016, após a fusão das seguradoras Marítima (de 1943) e Yasuda (de 1959)
- Lucro líquido no 1º semestre: R$ 54 milhões
- Clientes: mais de 52 mil
- Funcionários: 670
- Principais concorrentes: Tokio Marine, Allianz, Mapfre, Chubb, Zurich