"Vemos políticos a falar em português e inglês ao mesmo tempo. É uma coisa pacóvia, ridícula"

🗓️ 2026-07-26 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

ENTREVISTA 2/2 | "A única lição que tiro é a de que não se podem fazer reformas apressadas", reage Francisco José Viegas à polémica com a digitalização nos exames nacionais. Para o editor da Quetzal, há problemas a montante por resolver, a começar pelo "analfabetismo" e pela "desvalorização das artes e das humanidades". São, diz, alertas de "perda para as sociedades democráticas"

“Gostava que o Ministério da Educação discutisse verdadeiramente esta questão da leitura e da literacia literária”. Os políticos, insiste, devem dar o exemplo, seja pela forma como falam, seja pela forma como trazem os seus hábitos de leitura para a esfera pública. Num mundo em mudança, onde as redes sociais nos fazem crer que andamos a ler mais, o antigo secretário de Estado da Cultura vê antes “uma espécie de feira das vaidades”: “os livros que ficam não são esses”.

CNN Portugal: A nossa entrevista foi motivada por uma nova edição de "Os Maias", que é uma obra que exige tempo. E isso contrasta muito com aquilo que vemos hoje nas redes sociais, com jovens que dizem ter lido 10, 20, ou mesmo 30, livros num mês.

Francisco José Viegas: Não acredito.

Qualquer leitura, mesmo a rápida, é boa?

Ler, é bom, mas acho que ler bem é melhor. Ler bem coisas boas é ainda melhor. Só que isso exige tempo. Não podemos ler o “Guerra e Paz” de Tolstói em 15 dias. Depois há o prazer de reler, que é muitas vezes maior do que o prazer de ler. Reler um livro que se ama, que foi importante na nossa vida, que nos acompanhou, que nos ensinou como era o mar ou o amor… As páginas de Instagram e TikTok são muito importantes para a divulgação, mas é uma espécie de feira das vaidades, porque o que se procura aí não é tanto a beleza de um livro, mas o impacto que pode ter num leitor rápido, voraz, veloz. Os livros que ficam não são esses.

Enquanto editor, parece-lhe que o mercado editorial ainda tem capacidade para formar leitores ou está demasiado preguiçoso a seguir tendências?

Está a fazer o seu papel, que é publicar livros que permitam às editoras sobreviver, manterem resultados aceitáveis, prolongarem a sua vida. O mercado editorial é isso: uma luta constante entre a qualidade e a dimensão comercial. Desse combate há de nascer qualquer coisa. Na Quetzal publicamos clássicos, mas também coisas acabadas de sair. Acreditamos que é desse confronto entre o passado e o presente que nasce qualquer coisa.

E como será o livro do futuro? Deixa o papel para passar a ser um suporte multimédia.

É provável. O livro também já foi em pedra e em casca de tartaruga, depois passou a ser impresso, transformando-se num pilar fundamental da nossa cultura e da nossa vida. Com a impressão, os índices de alfabetização no século XVIII aumentaram a uma velocidade vertiginosa. E tenho muito medo porque começaram a baixar no nosso tempo. Isso diz alguma coisa sobre nós, sobre a forma como estamos distraídos em relação à leitura. E está ligado a uma outra coisa, que é o decréscimo dos níveis de QI nos países considerados desenvolvidos. Mas, se há coisas que me assustam, também há coisas que me alegram, porque há cada vez mais leitores a descobrir livros, não por vaidade ou ostentação, mas a fazê-lo no silêncio, para as suas vidas.

Muitas vezes a fazê-lo em papel, porque estão cansados dos ecrãs.

Isso é uma novidade. O papel dura mais, é mais pesado, ocupa mais espaço. Mas o livro é assim: tem de ocupar espaço.

No futuro, qual é a maior ameaça ao livro: a inteligência artificial, os telemóveis, a falta de tempo?

O analfabetismo, que mistura a falta de tempo com a falta de apetite para ler e com uma espécie de desvalorização das artes e das humanidades. Saíram estudos sobre a descida dos níveis de literacia nos países da OCDE. É uma perda para as sociedades democráticas, para a democracia liberal como hoje a temos. Foram os livros que permitiram que as ideias circulassem, que a ciência se desenvolvesse, que falássemos de direitos humanos. Uma perda nessa área significa perdas em todas as outras.

E como é que se contraria?

Com um trabalho muito sério da parte das escolas. É uma reforma fundamental a fazer no ensino. Há países que já o encaram como uma prioridade, como Inglaterra, que declarou 2026 como o ano do livro e da leitura.

A grande discussão dos nossos dias, à boleia dos exames nacionais, está relacionada precisamente com a digitalização. No seu entender, que lições é que este processo nos pode dar?

A única lição que tiro é a de que não se podem fazer reformas apressadas. Não quero discutir os critérios da digitalização nem a forma como o processo decorreu, mas devemos ser mais sensatos e sólidos quando fazemos má reforma. Se não há meios para fazer uma reforma, é melhor não a fazer, adiá-la para o ano seguinte. Porque, provavelmente, tirando o dinheiro do PRR, não se perde muito anos. E temos de explicar às pessoas o que significa aquela reforma. Parece-me uma ilação a retirar deste processo.

Regressemos então à leitura. Não acredita que a crónica falta de hábitos de leitura tem vindo a ser contrariada, por exemplo, com o surgimento de muitos clubes de leitura?

Sim, são notáveis. Uma das transformações fundamentais nos modos de leitura contemporâneos tem muito a ver com as comunidades de leitura, mas elas não são suficientes. É preciso que cada pessoa descubra a leitura. Gostava que o Ministério da Educação, porque isto é um assunto do Ministério da Educação, discutisse verdadeiramente esta questão da leitura e da literacia literária.

Não se trata só de ler, tem de ser perceber aquilo que se lê…

Exatamente. Falamos da nossa língua, que corre sérios riscos. Vemos responsáveis políticos nas televisões a falar em português e inglês ao mesmo tempo. Ouvi um na rádio a falar de “mindset” e outras palavras do género. Depois têm a hipocrisia de comemorar o Dia da Língua Portuguesa. Muitos deles estão a destruir a nossa língua. E nem se dão conta. É uma coisa pacóvia, provinciana, ridícula.

Os políticos deviam dar o exemplo no uso da língua, mas também nos hábitos de leitura.

Sim, isso também é verdade.