Vestígios de rituais com 25 mil anos descobertos em gruta sagrada de povo aborígene australiano

🗓️ 2026-07-29 📁 science 📝 ⏱️ 👁️ : -

Uma investigação arqueológica realizada na gruta de Cloggs, no estado australiano de Victoria, encontrou novas evidências de práticas rituais ancestrais do povo aborígene Gunaikurnai, algumas das quais poderão ter sido realizadas de forma continuada ao longo dos últimos 25 mil anos.

O estudo, publicado na revista Frontiers in Environmental Archaeology, analisou milhares de fitólitos — estruturas microscópicas de sílica produzidas pelas plantas — preservados nos sedimentos da gruta, considerada um local de grande significado cultural para os Gunaikurnai, povo tradicional da região de Gippsland e dos Alpes do sul de Victoria.

Os investigadores concluíram que os ancestrais deste povo transportavam deliberadamente gramíneas para o interior da gruta, onde eram queimadas em contextos rituais. Os vestígios encontrados corroboram relatos etnográficos do século XIX e tradições orais que descrevem a utilização de cinzas vegetais em cerimónias de magia, cura, proteção e maldição.

A investigação foi conduzida em estreita colaboração com a comunidade Gunaikurnai, através da organização GunaiKurnai Land and Waters Corporation, que participou no desenho do estudo, nos trabalhos de campo e na interpretação dos resultados.

“Mostramos que os Antigos Ancestrais selecionavam gramíneas da paisagem envolvente e transportavam-nas para a gruta, onde eram espalhadas em camadas finas e queimadas”, explica Elle Grono, investigadora da Universidade Nacional Australiana e autora principal do estudo.

As escavações realizadas em 2019 e 2020 revelaram 73 camadas de cinzas depositadas entre há cerca de 4.400 e 1.600 anos. Entre esses estratos, os arqueólogos encontraram ainda uma pedra vertical com cerca de 28 centímetros de altura, que terá sido colocada no local para fins rituais há aproximadamente dois mil anos.

A análise microscópica identificou 29 tipos diferentes de fitólitos provenientes de gramíneas, ervas e plantas lenhosas. Contudo, até 97% dos vestígios pertenciam a gramíneas, indicando uma seleção intencional destas espécies.

Os cientistas verificaram também que até 18% dos fitólitos apresentavam sinais de combustão ou fusão provocados pelo calor, reforçando a ideia de que as plantas foram queimadas no interior da gruta.

Segundo os autores, a presença destes vestígios ao longo de toda a sequência arqueológica sugere que a utilização ritual do fogo e das plantas ocorreu durante um período extraordinariamente longo, abrangendo desde a última Idade do Gelo até épocas relativamente recentes.

Além das gramíneas queimadas, as escavações revelaram ainda outros elementos associados a práticas cerimoniais, incluindo pequenos paus de madeira de casuarina aparados e revestidos com gordura animal.

Para Bruno David, arqueólogo da Universidade Monash e coautor do estudo, os resultados confirmam a importância cultural contínua da gruta ao longo de milhares de anos.

“O uso de cinzas está de acordo com as práticas tradicionais Gunaikurnai relacionadas com magia e rituais, mas também com a monitorização das pegadas de pessoas ou seres espirituais que entrassem na gruta”, refere o investigador.

Os autores consideram que a descoberta demonstra o valor da conjugação entre arqueologia e conhecimento tradicional indígena para compreender práticas culturais antigas e a relação duradoura entre as comunidades humanas e os lugares que consideram sagrados.