Viajar ganha ares de competição para uma turma que adora compartilhar conquistas nas redes
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Em A Volta ao Mundo em 80 Dias, o clássico de Júlio Verne, o protagonista Phileas Fogg, um típico cavalheiro inglês, cruza fronteiras como se o globo fosse um grande tabuleiro. Ao lado de seu fiel criado Passepartout, ele faz de tudo para vencer uma aposta fechada com seus companheiros em um clube social — completar um giro ao redor da Terra em velocidade recorde. A fascinante aventura, que virou sucesso instantâneo de público no século XIX, continua a encantar leitores destes tempos em que bater perna planeta afora se tornou mais fácil e usual. E o desafio encampado pelo disciplinado personagem de Verne segue no imaginário de muitos viajantes, alguns deles se propondo a cravar feito semelhante, agora fincando os pés nos 193 países reconhecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU). Hoje, acrescentam ao enredo algo impossível de ser previsto por Fogg: em clima de pura competição, as pessoas passaram a exibir seus passaportes recheados de carimbos como troféus nas redes sociais.
Numa era em que não basta fazer, mas é preciso postar e repostar, sites se especializaram em estimular a corrida dos aventureiros. Um dos mais conhecidos é o NomadMania, que confere o status de “master” para quem fornece provas concretas — documento de viagem, fotos, passagens, reserva de hotel — de que esteve mesmo em 100% das nações. Foi o caso de 82 pessoas de diferentes nacionalidades em 2025, quase o dobro do ano anterior. Página concorrente, a Most Traveled People, que já conta com 50 000 cadastrados, separa seus seguidores em escaninhos como Hall da Fama e Indiana Jones, variando de acordo com o número de milhas acumuladas pelos aventureiros. Os participantes da brincadeira (coisa séria para tanta gente) ganham pontos extras se visitam certo número de pontos turísticos, fazem lautas refeições em restaurantes estrelados e se hospedam em hotéis famosos. O frenesi em torno de tais conquistas reverbera também no Instagram, no TikTok e no Facebook, onde uma turma crescente de usuários expõe na vitrine virtual os registros aduaneiros que coleciona com as hashtags #passportstamps e #aroundtheworld.
A turma que já encarou o desafio conta que, às vezes, a qualidade é posta de lado para que a meta, que exige organizar uma logística de elevada complexidade, seja cumprida à risca. “Você se sente pressionado porque não pode ser seletivo, precisa ir rigorosamente a todos os países”, diz o empresário Newton Losi, 58 anos, que iniciou a jornada aos 32. Notando já colecionar 61 países, quis chegar a 100, até que deu o clique: já estava no embalo e completaria os 193. Assim, após duas décadas, tornou-se em 2024 o primeiro brasileiro a ter uma volta ao mundo para chamar de sua no ranking do NomadMania. Há quem se gabe de ser mais rápido. O pernambucano Anderson Dias, 32 anos, ficou conhecido ao completar o circuito em 543 dias, recorde que chegou a figurar no Guinness. Ex-camelô em Caruaru, onde ganhava a vida vendendo capa de celular, ele decidiu se lançar no mundo depois de vender um carro. A odisseia teve direito a pernoites na rua em Barcelona, entrada a pé em zona militarizada no Afeganistão e até uma ameaça de prisão na Líbia. “Era um sonho e ainda me tornou conhecido”, diz ele, que acabou ganhando 1,3 milhão de seguidores e um ofício: influencer de viagens.
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Como tudo nas redes, também os sites de viagens que incentivam a competição na veia polarizam o debate, colocando de um lado os que adoram a gincana e, do outro, os defensores de que o turismo perde assim seu precioso componente de proporcionar relaxamento e a verdadeira abertura da mente diante do novo. Certamente que deve haver um ponto de equilíbrio aí. Quem já pulou de fronteira em fronteira não necessariamente deixou de sorver o que cada lugar tem a oferecer. O mais importante, reforçam os especialistas, é não transformar o périplo em uma corrida contra o relógio. “A quantidade não pode se sobrepor à experiência de permanecer, conhecer e estabelecer uma relação mais profunda com o destino visitado”, observa Osíris Marques, professor de turismo da Universidade Federal Fluminense (UFF).
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Para a multidão que se desloca atrás de carimbos, a geopolítica pode complicar as coisas — ora é preciso atravessar países isolados e com pouca infraestrutura, ora pode-se esbarrar com uma nação em guerra civil pelo caminho. Feliz de estar no rol das quatro mulheres mais viajadas do Brasil do NomadMania, com 149 países no currículo, a empresária Priscila Periañez, 49 anos, foi detida por rebeldes armados no conflagrado Congo e teve de seguir viagem sozinha na Papua Nova Guiné, depois que seu grupo se dividiu por questões de segurança. Muita gente até pode só fazer uma selfie durante uma conexão aérea, sem deixar a área do aeroporto, e adicionar o destino à lista, mas Priscila garante que definitivamente não é o seu caso. “Me sentiria traidora se marcasse um país sem tê-lo explorado”, diz. Desconfianças piores às vezes pairam sobre a façanha dos viajantes: com a inteligência artificial (IA) a toda, como ter certeza de que não manipularam imagens para se projetar em certa nação remota no mapa? Fogg e Passepartout, dois legítimos cavalheiros, jamais aprovariam tal conduta.
Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2026, edição nº 3012
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