Você odeia metade dos brasileiros e eles odeiam você? - 08/10/2026 - Rodrigo Tavares - Folha

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Comecei a minha carreira profissional na ONU diagnosticando conflitos internacionais e desenhando planos de paz. Em países marcados por guerras, crises políticas e feridas sociais antigas aprendi a reconhecer sintomas que, muitas vezes, passam despercebidos até ser tarde demais. Não porque os compreenda melhor do que os outros, mas porque já os vi surgir em lugares muito diferentes.

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Escrevi aqui na Folha que estas me parecem ser as primeiras eleições verdadeiramente identitárias no Brasil. O voto deixou de ser uma escolha individual e passou a funcionar como confirmação de uma identidade e de pertencimento a uma comunidade. Quando isso acontece, os fatos passam a valer menos, porque tudo o que entra no grupo é reinterpretado para não perturbar a sua coesão nem o vínculo de cada um com ele. Se o Watergate acontecesse hoje e no Brasil, haveria versões para todos os gostos, os apoiadores de Nixon sairiam do escândalo ainda mais nixonistas e o presidente talvez nem renunciasse.

Em muitos conflitos, a identidade ganha força quando frustração, insegurança e abandono deixam de ser problemas isolados e passam a ser lidos como experiência de um grupo. A identidade organiza esse mal-estar e transforma ruído em coro. Na ex-Iugoslávia, nos anos 1990, dificuldades econômicas e disputas políticas acabaram absorvidas por narrativas nacionais que ajudaram a preparar o terreno para a guerra. O mesmo aconteceu com cingaleses e tâmiles no Sri Lanka, nos anos 1980 e 1990.

Talvez me falte intimidade suficiente com a história brasileira para decretar que nunca foi assim. Mas, olhando para os últimos séculos, custa encontrar outro momento em que o país tenha parecido tão perfeitamente partido em duas maneiras de ser. A Guerra dos Farrapos, a Cabanagem, Canudos, sei lá, até a Guerra do Contestado, geraram violência interna em enorme escala, mas foram conflitos territorialmente circunscritos. Nunca tantos milhões de brasileiros pareceram nutrir tamanho ódio por outros tantos milhões.

A palavra ideologia já não é suficiente para classificar o que divide o país no presente, até porque ideias discutem-se e abandonam-se, são uma construção da cabeça. As identidades, por outro lado, instalam-se dentro de nós e defendem-se a bem ou a mal. "Se o Lula ganhar, isso termina em guerra civil", me disse, na manhã seguinte ao primeiro turno, o CEO de uma grande empresa brasileira, uma pessoa até cordata. Suspeito que, numa conversa com um eleitor abrasado de Lula, ouviríamos o mesmo medo, apenas dirigido ao outro lado. Obviamente, não estamos em uma guerra civil e a expressão foi usada apenas como figura de linguagem. Mas, a partir de 26 de outubro, qualquer que seja o resultado, teremos de aprender a viver em dois países dentro do mesmo país.

Em Berlim houve um muro. Em Beirute, a Linha Verde dividia a cidade. Em Gaza há cercas e arame farpado. A separação física tem uma perversidade quase confortável porque ela nos diz onde termina o nós e onde começa o eles. É como se organizasse o medo, tornando os movimentos previsíveis.

No Brasil, os muros serão invisíveis, mas estarão em todo o lado. Um grupo de progressistas pensará duas vezes antes de falar audivelmente de política num restaurante. Antes de aceitar um convite para uma festa na sexta à noite, vamos querer saber quem estará lá. Numa reunião de trabalho, num táxi, numa academia ou numa repartição pública, procuraremos pequenos marcadores de identidade, de uma barba mais longa a um peito bombado. Nos anos 1990, na Irlanda do Norte, o time de futebol ou até a pronúncia podiam sugerir se alguém era católico ou protestante. Na Caxemira, práticas alimentares podem expor hindus e muçulmanos. Poderá ser assim no Brasil. Com algumas pessoas, sentiremos conforto, identificação e segurança. Com outras, o corpo se retrairá somaticamente antes que a razão intervenha, e desse primeiro desconforto nascerá uma aversão silenciosa, porque a diferença será sentida como ameaça.

Uma sociedade dividida dessa forma se torna extremamente vulnerável, porque um conflito restrito pode transbordar rapidamente e ser absorvido pela lógica da violência, sobretudo quando há armas em abundância, além de milícias e organizações criminosas capazes de transformar a polarização em oportunidade de poder, controle territorial e lucro. E, para piorar, faltam no Brasil figuras conciliadoras capazes de pertencer a um campo sem deixar de ser escutadas pelo outro, como Desmond Tutu na África do Sul ou John Hume na Irlanda do Norte.

O atual momento brasileiro é perigoso. Quando os chefes de duas comunidades se enfrentam diretamente para o governo da nação, é como passar uma lâmina sobre uma ferida mal fechada porque uma das comunidades será necessariamente subjugada. Uma vitória de Flávio me preocupa porque o vejo unicamente disposto a administrar a vitória dos seus e não a existência dos outros, mesmo que para isso tenha de usar contra a democracia as ferramentas que a democracia lhe colocou nas mãos.

Não pretendo fazer profecias nem ser alarmista, até porque os países, como as pessoas, têm por vezes a prudência tardia de recuar quando já pareciam decididos a precipitar-se. Em outras ocasiões o Brasil já provou que consegue absorver choques e reencontrar uma forma de convivência que hoje parece improvável. Ainda assim, corremos o risco de descobrir que o país inteiro continua aqui, mas já não dentro de nós.

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